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“Esperando Godot” no Sesc-Pompéia é a nova trincheira do Teatro Oficina

Tempo de Leitura: 5 minutos

Godot

<Crítica/Teatro> = por Aguinaldo Gabarrão (*)

Após dois anos de pandemia o público paulistano tem a oportunidade de reencontrar o Teatro Oficina no Sesc Pompéia (*) com a montagem de “Esperando Godot”, do irlandês Samuel Beckett (1906 – 1989), dramaturgo e escritor que trouxe em suas obras o sentimento de pessimismo e desilusão em relação à humanidade, em função de um mundo dividido entre utopias e guerras.

Na peça dois clowns, Estragão (Gogo) e Vladimir (Didi), esperam a chegada de Godot num cenário pós-apocalíptico, demarcado por uma árvore aparentemente sem vida e alguns escombros. Enquanto eles esperam nesse lugar indefinido, a tensão está sempre à espreita por conta dos silêncios, da ausência de alternativas e desse “nada a fazer”, vez ou outra verbalizado pela dupla.

A encenação do Teatro Oficina e do seu diretor Zé Celso, captura o público logo no início. Dois telões inseridos na cenografia tocam a versão instrumental de Águas de Março, composição de Tom Jobim, acompanhadas de imagens contemporâneas e devastadoras. Embora a letra não seja mencionada, a música de Jobim fala de vida e morte; sol e noite; afirmação e negação; claro e escuro. E essa mesma ideia de duplos opostos, é a base na construção deste texto de Beckett.

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Na eterna espera o riso.

Gogo preocupa-se com suas botas, calos no pé, as surras que leva. Didi tem lampejos de lirismo e devaneios. São figuras simétricas em registros sensoriais diferentes. Mas ambos estão amarrados ao mesmo compromisso de esperar alguém ou algo, sem saber ao certo o motivo que os prendem a essa necessidade.

Outra dupla, Pozzo e Felizardo chegam ao mesmo lugar inóspito. E para espanto e incômodo de Gogo e Didi, aqueles estranhos viajantes estabelecem entre si um exercício cruel de opressor para oprimido, mas que apresenta o lado mais sórdido desse tipo de relação: o oprimido guarda certa satisfação na relação torta com seu “patrão”.  Este usa o chicote e o outro é subserviente, e ambos se completam em suas nulidades.

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A convivência entre essas quatro personagens, envoltas em situações aparentemente absurdas, gera o riso, mas esta reação passa longe de ser uma mera distração, uma vez que desafia o público à reflexão incômoda do imbróglio existencial, por não se ter mais o que dizer diante da estupidez humana com sua completa impossibilidade de se comunicar, de buscar alternativas. E uma vez mais, a apropriação do texto feita por Zé Celso, conecta a mensagem do autor irlandês com nossa realidade política e social.

E o quinteto de atores está afiado nessa vibe propositiva do diretor. Estragão e Vladimir, interpretados respectivamente pelos atores Marcelo Drummond e Alexandre Borges, se completam na “palhaçada trágica”, de suas personagens. Pozzo, reescrito na partitura corporal precisa de Ricardo Bittencourt, é de uma brutalidade comovedora. Roderick Himeros (Felizardo) e Tony Reis (O Mensageiro – Zé Pelintra, figura associada à Umbanda) são duas entidades vibrantes no terreiro dos “paradoxos e dos impasses” de Beckett.

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Beckett e o teorema Godot

A dramaturgia de Beckett apresenta diferentes camadas para o entendimento desta figura misteriosa de Godot. E na montagem de Zé Celso tudo parece caminhar para a destruição desesperada do mito do sebastianismo – crença mítica do século XVI – que acreditava no retorno de D. Sebastião para recuperar a glória do povo português.

Mas o rei nunca retornou embora todos o esperassem. E Zé Celso, numa ousadia sem pudor e talvez, com certo cansaço desse enigma chamado Brasil que espera por seu “Godot”, faz descer o mensageiro Zé Pelintra para abrir os caminhos, aplicar a cor possível ao cinza sem esperanças e decretar o seu desfecho para o teorema Godot.

José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937)

O “ermitão que não prega no deserto”, assim descrito pela atriz e imortal Fernanda Montenegro, é ator, diretor, dramaturgo, encenador. Considerado pelo ator e diretor Antônio Abujamra (1932-2015) “uma das maiores intuições teatrais da América Latina”.

Fundador do Teat(r)o Oficina em 1958, juntamente com artistas e estudantes do Centro Acadêmico 11 de Agosto da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na cidade de São Paulo.

Zé Celso tem em seu vasto currículo algumas das peças mais emblemáticas do teatro brasileiro e internacional: Pequenos Burgueses (1963); O Rei da Vela (1967 e 2017); Roda Viva (1968 – 2018); As Bacantes (1996); Cacilda (1998); Os Sertões (2001-2006), composto de cinco espetáculos.

O diretor completou 85 anos no dia 30 de março, data de estreia de “Esperando Godot” no Sesc Pompéia.


Serviço:
ESPERANDO GODOT
  • Temporada: até 17.04.22 (domingo)
  • Local: Teatro do Sesc Pompéia
  • Horário: 4ª feira a sábado, 19h, domingo, 17h. (15/04, feriado da 6ª feira Santa, não haverá apresentação)
  • Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (credencial plena do Sesc; meia estudante; servidor de escola pública; + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência).
  • Classificação: 18 anos / Duração:  3h e 30 minutos – com intervalo de 15 minutos
  • Para entrar na Unidade: comprovante de vacinação contra a Covid-19 (duas doses ou dose única) na entrada. É recomendado o uso de máscara.

ATENÇÃO: a partir de maio o espetáculo reestreia no Teatro Oficina (Rua Jaceguai, 520 – Bela Vista) – Temporada: 5 de maio a 26 de junho – 5ª a sábado 20h – Domingo 18h

Ficha Técnica

Direção: José Celso Martinez Correa / Assistência de Direção: Beto Eiras / Dramaturgia: Samuel Beckett / Tradução: Catherine Hirsch, Verônica Tamaoki, Zé Celso / Conselheira Poeta: Catherine Hirsch / Elenco: Marcelo Drummond, Alexandre Borges, Ricardo Bittencourt, Roderick Himeros e Tony Reis / Direção de Arte e Arquitetura Cênica: Marília Gallmeister, Marcelo X / Direção de Cena: Otto / Trilha Sonora e Direção Musical: Felipe Botelho / Operação de Som: Camila Fonseca e Clevison Ferreira / Desenho de Luz: Luana Della Crist / Figurino, maquiagem e visagismo: Sonia Ushiyama / Fotografia: Jennifer Glass / Realização: SESC – Serviço Social do Comércio

(*) O Sesc Pompéia tem a assinatura da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), idealizadora também do projeto arrojado do MASP. O complexo de cultura e lazer – antiga fábrica de tambores – foi inaugurado em 1986 e preserva as antigas instalações que se conectam e convivem em harmonia com duas torres de concreto armado que servem para abrigar as atividades esportivas.


                                             

(*) Aguinaldo Gabarrão — ator e consultor de treinamento corporativo. Um eterno colaborador do DiárioZonaNorte 

 


 

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