Início Cultura Hipocrisia nas antigas fábulas e nos ensinamentos do “escravo” Esopo

Hipocrisia nas antigas fábulas e nos ensinamentos do “escravo” Esopo

Esopo, por Diego Velázquez (1639/41) - Museo del Prado
Tempo de Leitura: 4 minutos

hipocrisia

por Toninho Macedo (*) – Reflexões – 13

“Guardai-vos, antes de tudo, do fermento dos fariseus,
que é a hipocrisia.”  –    Lc.12.1

Da mesma forma que o fermento penetra e se espalha dentro da massa fazendo-a crescer, a hipocrisia é o domínio da dissimulação: o hipócrita, também conhecido como uma pessoa dissimulada, muitas vezes finge possuir boas qualidades para ocultar os seus defeitos, aquele que realmente é.

No Novo Testamento, a hipocrisia é denunciada em muitas passagens.

Nestes tempos em que consagrados valores éticos e morais, cristãos mas também parte de outras tradições espirituais, valores ou atitudes farisaicas ganham espaço nos templos, e na mídia em geral, busco inspiração em Esopo.

Este, um fabulista grego que viveu no século VI a. C, a quem é atribuída a paternidade de várias fábulas. A ele se atribui a paternidade da fábula como gênero literário, e sua obra serviu como inspiração para outros escritores congêneres ao longo dos séculos.

“A fábula, por ser uma pequena narrativa, serve para ilustrar algum vício ou alguma virtude e termina, invariavelmente, com uma lição de moral’.

A raposa e as uvas é um premiado texto teatral de Guilherme de Figueiredo, que tomou como base um texto de Esopo, destacado fabulista grego.

A cena de que nos servimos aqui se passa na Grécia antiga, na casa de Xantós, um filósofo grego, que recebe Agnostos, um capitão ateniense, para jantar. Este é preparado e servido por Esopo, um seu escravo.

O prato servido de entrada foi língua, para delícia dos convivas.

Seu amo solicita outro prato, e o servo volta com outro pato coberto, oferece uma língua de fumeiro, e seu amo se exacerba:

– Mais língua? Não te disse que trouxesse o que há de melhor para meu hóspede? Por que só trazes língua? Queres expor-me ao ridículo?

Ao que Esopo retruca, magistralmente:

– Que há de melhor do que a língua? A língua é o que nos une todos, quando falamos. Sem a língua nada poderíamos dizer. A língua é a chave das ciências, o órgão da verdade e da razão. Graças à língua dizemos o nosso amor. Com a língua se ensina, se persuade, se instrui, se reza, se explica, se canta, se descreve, se elogia, se mostra, se afirma. É com a língua que dizemos sim. É a língua que ordena os exércitos à vitória, é a língua que desdobra os versos de Homero. A língua cria o mundo de Ésquilo, a palavra de Demóstenes. Toda a Grécia, Xantós, das colunas do Partenon às estátuas de Fídias, dos deuses do Olimpo à glória sobre Tróia, da ode do poeta ao ensinamento do filósofo, toda a Grécia foi feita com a língua, a língua de belos gregos claros falando para a eternidade.

Seu amo, envaidecido pela destreza de seu escravo, com entusiasmo, o incita:

– Bravo, Esopo. Realmente, tu nos trouxeste o que há de melhor. Vai agora ao mercado, e traze-nos o que houver de pior, pois quero ver a sua sabedoria!

Bem, agora que já sabemos o que há de melhor na terra, vejamos o que há de pior na opinião deste horrendo escravo! Língua, ainda? Mais língua? Não disseste que língua era o que havia de melhor? Queres ser espancado?

Ao que o servo retruca, seguro:

– A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que usam os maus poetas que nos fatigam na praça, é a língua que usam os filósofos que não sabem pensar. É a língua que mente, que esconde, que tergiversa, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que se mendiga, que impreca, que bajula, que destrói, que calunia, que vende, que seduz, é com a língua que dizemos morre e canalha e corja. É com a língua que dizemos não. Com a língua Aquiles mostrou sua cólera, com a língua a Grécia vai tumultuar os pobres cérebros humanos para toda a eternidade! Aí está, Xantós, porque a língua é a pior de todas as coisas!

E vamos prestar atenção à lição do “escravo” Esopo.


(*) Toninho Macedo — Por trás do conhecido Toninho Macedo, há o cidadão Antonio Teixeira de Macedo Neto, que conduziu grandes festivais de cultura e de folclore culminando no maior Festival de Cultura Paulista Tradicional, o “Revelando São Paulo – criado em 1996 –, por seis edições memoráveis na Zona Norte (Vila Guilherme, em 2010 a 2014 e 2017/2018), além do interior e litoral.

Nele há também muita experiência e inteligência, que vem da graduação em Licenciatura Plenas em Letras Neo-Latinas (1972) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo-USP (2004). Atualmente é diretor cultural e artístico da Abaçai Cultura e Arte, além de gerir Museu da Inclusão e aFazenda São Bernardo, fundada em 1881 em Rafard (interior de São Paulo), onde Tarsila do Amaral nasceu e passou a infância — saiba mais clicando aqui


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