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CRÔNICA DO COTIDIANO: A Páscoa, a população em situação de rua e, por outro lado, o cinismo dos poderes públicos

população em situação de rua
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população em situação de rua


Nota da Redação: É com grande satisfação que o DiárioZonaNorte recebe, a partir de hoje, o jornalista Rafic Ayoub, de grande experiência profissional e que será um profícuo colaborador com suas crônicas de nosso dia-a-dia, com os mais variados assuntos e ângulos. Suas crônicas de grande sucesso em livros, como o mais recente “Misere Nobis! Crônicas do Cotidiano” (Editora Bagai), certamente terão o mesmo caminho, nos finais de semana. Aguardamos as críticas, sugestões e comentários no e-mail: redacao@diariozonanorte.com.br ou no espaço do Facebook.


por Rafic Ayoub (*)

Nesta semana em que se comemora a Páscoa, é sempre um bom motivo para reflexões sobre as questões existenciais que normalmente nos assediam e provocam nossas consciências, infelizmente nem sempre em sintonia com os ensinamentos daquele que  apesar de  pregar e praticar o verdadeiro amor ao próximo, morreu crucificado para a salvação e exemplo para toda humanidade.

Nesse sentido,  eu me surpreendo cada vez mais com a capacidade do ser humano de camuflar o seu cinismo diante das situações capazes de revelar toda ignomínia e vergonha de ações que negam todo esse sagrado ensinamento de Cristo.

E na realidade, esse cinismo se expressa sob diversas roupagens, principalmente de ordem linguística como, por exemplo, através de eufemismos, para suavizar ou mesmo descaracterizar o sentido e o significado daquilo que ele efetivamente expressa.

Todos temos acompanhado, com profunda tristeza e indignação, a  crescente condição de pobreza, miséria e abandono de significativa parcela da sociedade brasileira e, em especial, da paulistana, provocada em grande parte pela falta de sensibilidade e empatia de nossos governantes representativos dos três níveis do poder público, ou seja, municipal, estadual e federal.

Um exemplo vergonhoso desse tipo de artifício é o da nomeação dos seres humanos abandonados pelas ruas, praças, avenidas e viadutos da cidade,  sem teto, comida, educação, saúde, emprego e, principalmente, dignidade, pelo pomposo, porém, enganoso termo de População em Situação de Rua” para esconder  a inoperância e o descaso dos relatórios e estatísticas malandras que orientam as  raras políticas públicas para alocação de recursos imprescindíveis para, pelo menos, atenuar a situação dessa população.

Tratados meramente como números cada vez mais banalizados, esses seres humanos tornam-se assim mais palatáveis para disfarçar a incompetência de nossos gestores públicos e a insensibilidade de significativa parcela da população que, consciente ou inconscientemente, naturalizou esse grave problema social  como uma questão de polícia e não de solidariedade e amor para com aqueles menos favorecidos e marginalizados da sociedade.

Tratada cada vez mais apenas como um elemento da paisagem urbana, essa grande procissão  de miseráveis insiste em continuar vivendo, dispersa pelas ruas, avenidas e praças de todo o País, associada  aos estigmas do  medo, do desprezo e da criminalidade.

O absurdo desse tipo de atitude segregacionista não se esgota nesse tipo de  negacionismo social, que afeta hoje mais de 40 mil pessoas que, sujos, doentes, revirando lixo, pedindo esmolas e comida nas ruas,  vagam  como zumbis a assombrar a consciência asséptica das classes mais favorecidas, como uma evidência incontestável da falência moral e humanitária de nossa sociedade.

Impedidos por determinação constitucional até de votar em tempos não tão remotos de nossa história, esses verdadeiros cidadãos de segunda classe eram enquadrados pelas legislações penais que tratavam a mendicância e a vadiagem como  contravenções típicas dos usos e costumes. Fala sério, né não?

Adicionalmente, o que me irrita e enoja profundamente é o papel da chamada Grande Imprensa que, ao invés de denunciar continuamente esse tipo de inércia e falta de políticas permanentes dos poderes públicos, limitam-se a explorar esse significativo contingente de nossa população apenas como números de suas estatísticas e pesquisas que mercantilizam, sem exigir de nossas autoridades responsáveis  ações sociais mais efetivas e capazes de promover mais do que apenas assistencialismo, mas também e, principalmente, cidadania!   população em situação de rua


(*) Rafic Ayoub — jornalista pela Faculdade de Comunicação  Social  Cásper Líbero, escritor, poeta e dramaturgo,  com pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade  pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Atualmente é consultor especializado em comunicação corporativa integrada. Escritor  com o mais recente livro “Misere Nobis! Crônicas do Cotidiano”, da Bagai Editora.


 

Nota da Redação: O artigo acima é totalmente da responsabilidade do autor, com suas críticas e opiniões, que podem não ser da concordância do jornal e de seus diretores.


 

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