da Redação DiárioZonaNorte

À portas fechadas, inúmeras reuniões internas na Prefeitura de São Paulo acontecem diariamente no imponente Edifício Matarazzo, no centro da cidade. Em uma das várias salas de reuniões, o assunto recaiu sobre a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social (SMADS), comandada por Filipe Tomazzelli Sabará. Na pauta, discute-se há várias semanas a transferência dos  usuários e dependentes químicos de crack da região da Luz, conhecida como “Cracolândia”. É um local que surgiu da degradação da antiga e movimentadíssima Rodoviária da Luz, que o tempo apagou do antigo centro da cidade, nas imediações da Estação Júlio Prestes, Praça Princesa Isabel e da famosa Santa Ifigênia. (leia mais – clique aqui). <<Ver reportagem anterior do DiárioZonaNorte,  publicada “Em Primeira Mão” em 03/10/2018, junto com a Folha de S.Paulo e Rede Brasil Atual-RBA — clique aqui >>

O local não foi estudado === Sem estudos mais aprofundados de impacto social do local e sua vulnerabilidade na região, o terreno escolhido está sendo apontado na Rua Porto Seguro, ao lado do Santuário das Almas, e há poucos metros do Terminal Rodoviário do Tietê e da Estação Armênia do Metrô, em frente ao Shopping D.

Além destes três locais de grande fluxo diário de pessoas – e grande movimento e congestionamentos no trânsito — nota-se uma região com pontos importantes que não foram ao menos consultados e levados à transparência de um assunto importante para segurança e de qualidade de vida: Escola Técnica Federal, Colégio da Policia Militar,  Santuário das Almas  (Paróquia Sagrado Coração de Jesus em Sufrágio das Almas), Universidade Sant´Anna, Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (APCD), Cia. Metropolitano de São Paulo (Metrô), Biblioteca de São Paulo, Escola Técnica de São Paulo-Pq.Juventude (Etec), Parque da Juventude, Shopping Center Norte, Lar Center, Novotel e ExpoCenterNorte, Hotel Ibis-Rodoviária — entre outros.

Locais de conflitos sociais === Sem contar o movimentadíssimo centro comercial da Rua Voluntários da Pátria e entorno. E mais preocupante que a “Nova Cracolândia” estará próxima do Centro de Temporário Acolhimento (CTA) – inaugurado em 22/12/2017 em cerca de 150 vagas – veja reportagem aqui  —  e do Centro de Referência Especializado para População de Rua (conhecido como POP) – com cerca de 1.000 vagas – (ver nota – clique aqui ) — ambos na Avenida Zacki Narchi – que já carregam muitos problemas no local, com a circulação de muitos moradores de rua. E outros pontos de conflitos sociais como na região da Estação Santana do Metrô, no Parque da Juventude, ao lado do Terminal Rodoviário do Tietê e até na Avenida Leôncio de Magalhães – entre outros. O que também exigirá mais atenção da Policia Civil, Policia Militar e Guarda Civil Metropolitana, que já sofrem com as dificuldades diárias de poucos efetivos e viaturas.

Os indícios no terreno === Neste local é um grande terreno onde já estão deslocados 30 contâineres brancos na parte do fundo; mais 12 contâineres na frente, junto à cerca da Av. Cruzeiro do Sul. Nota-se ainda 20 compartimentos pintados de azul – parecidos com contâineres – que estão enfilerados junto à Rua Porto Seguro, próximo da cerca. No meio do terreno, um monte alto de asfalto granulado que parece estar sendo espalhado no terreno para uma posterior finalização com outras máquinas de aplicação a quente. Do lado direito do terreno, há uma  cerca interna que divide um terreno bem maior,  onde constrói-se o Templo das Nações da  Igreja Internacional da Graça de Deus (do Pastor R.R.Soares) — clique aqui. Dos dois lados não se notava, neste final de semana, nenhum movimento de pessoas e caminhões — até parece que as obras do Templo estão paradas – e nem mesmo segurança do lado do terreno da prefeitura.

Sem consultas e representações === Quando do Projeto Nova Luz para a solução e encaminhamento do problema da “Cracolândia”, a Prefeitura de São Paulo realizou várias reuniões, inclusive convocando várias entidades e representantes da Igreja. O que não acontece no momento. Desta vez, ao ser consultada sobre o momento atual na transferência para a Av. Cruzeiro do Sul, a SMADS encaminhou a seguinte nota à Redação do DiárioZonaNorte: “A Prefeitura realiza estudos sobre alternativas  para o atendimento a usuários de drogas fora da região da Nova Luz. Não há, até o momento, definições de como será esse trabalho. Os usuários não ficarão sem assistência”.  Nem mesmo o assunto foi em consideração à Ordem dos Advogados do Brasil-Subseção Santana; às Distritais Norte e Nordeste da Associação Comercial de São Paulo; aos vários Conselhos Comunitários de Segurança-CONSEGs; e aos representantes do Conselhos Participativos. Desta forma, não houve uma ligação para debater o assunto e buscar opiniões com soluções através da intermediação das Subprefeituras de Santana/Tucuruvi/Mandaqui e da Vila Maria/Vila Guilherme/Vila Medeiros – que estão direta ou indiretamente envolvidas com a segurança e o bem-estar dos moradores.

O assunto chega à população === Da saída das reuniões em salas fechadas, o assunto acabou vazando pelos corredores e, no começo do mês,  chegou à uma reportagem da “Folha de S.Paulo”, que teve a continuidade na “Rede Brasil Atual (RBA)” e no DiárioZonaNorteclique aqui e leia. E, de imediato, houve uma reação da população. “Já é recorrente tomarmos conhecimento de mudanças em nossa região, de uma hora para outra, sem sermos avisados e convocados com antecedência em assuntos que mexem diretamente com nossa segurança. Temos que dar uma basta e ter mais diálogos e transparência. Estamos em novos tempos!”, declarou ao tomar conhecimento a presidente da Amigos do Mirante (Associação dos Amigos do Mirante do Jardim São Paulo e Região), Alba Medardoni, que imediatamente juntou-se ao DiárioZonaNorte e ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – Subseção Santana, Dr. Cláudio Moreira do Nascimento, que observou: “ As autoridades públicas devem atender os interesses de toda a sociedade, pois essa é a função do agente público. As medidas conhecidas dos governos de São Paulo em relação à cracolândia não resolveram a situação. Trocar de lugar também não resolverá”, disse ele, lembrando que essas medidas são tomadas “de cima para baixo”, sem nenhuma consulta à sociedade civil.

A reunião está marcada === E para que haja este encaminhamento, está marcada uma reunião da comunidade da Zona Norte, envolvendo todos os setores, moradores e representantes de entidades (*), no Salão de Eventos da Igreja Nossa Senhora Salette, à Rua Dr. Zuquim, 1.746, às 20 horas do dia 25/10/2018 (5ª.feira). “Nada temos contra os usuários de drogas, que são doentes e precisam de tratamento adequado com psiquiatras, psicólogos e agentes da saúde em lugar seguro e reservado. Não no meio de famílias e da população”, alerta a presidente da Amigos do Mirante, Alba Medardoni. Foi convidado à reunião o Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), Filipe Tomazelli Barbará, e o seu  Chefe de Gabinete, José Castro, para que possam dar explicações e debater o assunto com os presentes.

O movimento de moradores === E já adiantando a preocupação, os moradores e várias entidades da região – inclusive escolas com a preocupação dos alunos e apoio dos pais – saíram em busca de “abaixo-assinados”, onde alguns até chegaram às mãos do governo municipal – na SMADS — e  repercussão nas mídias sociais, em grupos de Facebook e WhatsApp, com páginas abertas na internet, em  protestos e comentários: “Cidadãos, estamos à beira de mais um caos social provocado pela irresponsabilidade dessa gestão municipal!!! O prefeito e sua equipe, irresponsavelmente, resolveram mudar a Cracolândia” de lugar, transferindo-a para a região da Armênia/Tietê, isso é inadmissível!!! “. E terminam com um apelo para que o projeto seja cancelado: “Somos pessoas sérias, de bem e do bem, trabalhadores, contribuintes que estão na iminência de perder a dignidade, o direito de ir e vir, a vida e a propriedade, diante de uma ação arbitrária de graves consequências a toda população de SP, e de todos os lugares, pois essa região é rota de todos para todos os lugares!!!

O que acontece na “Cracolândia” === Como uma pedrinha dentro do sapato, as gestões municipais de João Doria e agora Bruno Covas querem dar sequência a um plano antigo de revitalização da região. E as ações foram intensificadas o fechamento de bares e motéis relacionados às drogas e prostituição. Os moradores de rua foram retirados do local e aumentaram os efetivos policiais no local. Em uma área de 105 mil metros quadrados, imóveis foram desapropriados, e criados incentivos fiscais – até com cancelamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Tudo para atrair investimentos privados e tornar o local sociável, até com moradias populares em enormes prédios – em convênio com os governos estadual e federal. Uma região que se tornou atípica no centro da cidade, sem direitos e sem lei,  dominada pelo vício das drogas e seus efeitos colaterais, que acabou criando situações de violência. Chegou-se no limite máximo da intolerância. E para as autoridades, não é um belo cartão de visitas.

O local do abrigo === Uma placa presa na grade, na esquina da Rua General Osório com Rua Mauá, ao lado da Sala São Paulo e da Estação da Luz: “Projeto Redenção – Unidade de Atendimento Emergencial”, logo abaixo tem a assinatura com a logomarca/brasão da Prefeitura de São Paulo – Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social”. Pronto, ali está assinalado que é o local de acolhimento do pessoal e dependentes de drogas. Os contâineres estão agrupados e se dividem com banheiros e chuveiros. Um grande tenda branca foi colocada bem no centro do terreno, que abriga o pessoal  conversando, sentado em bancos. Mas o impressionante é ver que nas ruas próximas continuam as concentrações de homens e mulheres pelas calçadas, sentados às portas de casas e lojas fechadas. Muitos conversam e ficam à espera de algo de uso nas drogas. Por todos os lados, no entorno, nota-se muita gente perambulando, buscando algo pelos ares.  Um carro da Guarda Civil Metropolitana fazia suas rondas, no domingo à tarde.

As tentativas e as promessas === Por outro lado, os governos tentaram buscar soluções com programas sociais. Os resultados não atingiram os objetivos e foram trocando de nomes de “Recomeço” para “Braços Abertos” e “Redenção”, criado ainda na gestão do ex-prefeito João Dória, no ano passado -– que estendeu tendas na região da Cracolândia com encaminhamentos às unidades do “Atende” (Atendimento Diário Emergencial”), sigla igual ao serviço de transporte gratuito de deficientes físicos para exames e fisioterapia. O Atende da Cracolândia, na verdade, é o nome de uma área de contâineres com camas, chuveiros, refeitório e até aparelhos de ginástica. No domingo (21/10), o DiárioZonaNorte conversou com o dependente químico M.F.R.,  nas imediações da Cracolândia, que relatou “que muito usuários não aderiram ao Atende e que o local lembra muito um novo holocausto moderno! – e muita coisa ruim passa pela cabeça”, segundo o jovem. Ele disse que é um espaço apertado e extremamente abafado e cercado de paredes por todos os lados. E concluiu que “no calor, embaixo do contâiner,  é insuportável”. .Então, os próprios dados da prefeitura mostram que mais da metade dos usuários não aderiram a participação no ATENDE. Agora imagine a sensação de dormir dentro de um contâiner? .  Na época, o ex-prefeito chegou a declarar aos microfones da Imprensa: “…  enquanto eu for prefeito de São Paulo, a Cracolândia não vai mais existir. Ali, a partir de agora, é um espaço reconquistado pela cidade, pela cidadania e pelos habitantes que poderão circular com segurança.” Mas não foi o que aconteceu.

O passado e início de tudo ===  Aniversário de São Paulo, 25 de janeiro, e o ano era 1961. O centro da cidade era ativo e fervilhava de pessoas nas principais avenidas ao lado de Campos Eliseos e da Luz, encostado na Estação Júlio Prestes. Naquela época, o governador era Adhemar de Barros Filho, que inaugurou o Terminal Rodoviário da Luz – com seus 19 mil metros quadrados (saiba mais aqui). O local virou um formigueiro de milhares de chegadas e partidas para várias cidades, estados e até rotas internacionais. Foram 27 anos de atividades até as operações serem transferidas para o atual da Terminal Rodoviário do Tietê, em Santana (Zona Norte) – onde está há 30 anos, hoje administrado pela Socicam (saiba mais aqui).  Desde que a antiga Rodoviária de São Paulo deixou o centro da cidade, o local virou aos poucos o reflexo da decadência. O comércio em seu entorno foi sendo exterminado. O fluxo das pessoas teve o deslocamento  em empregos de outras regiões, de início na Avenida Paulista e tempos após na Faria Lima e recentemente na Av. Berrini. Uma mudança radical em outros pontos financeiros e administrativos de empresas pela cidade.

O que sobrou: dor de cabeça === E o espaço da antiga Rodoviária ficou na recordação nas pequenas pastilhas multicoloridas e cobertura em estilo caleidoscópio, inicialmente transformado no Fashion Center Luz, uma espécie de shopping de roupas, eletroeletrônicos e quinquilharias nas mãos dos comerciantes coreanos e chineses.  E ali ficou por 19 anos (2007), quando toda a antiga construção da Rodoviária foi ao chão com a promessa de virar um Centro Cultural, que nunca saiu da gaveta. Mas em seu lugar deixou um monte de escombros e preservando o quadrinho de parede na continuidade mais ativa dos princípios da “Cracolândia”, que já existia em menor número desde o início na década de 60 – incentivado com o grande número de assaltos e roubos naquela área. A degradação da região de Campos Elíseos e Luz geraria no final da década de 90 o famigerado apelido oficial de “Cracolândia“. Por um tempo, o grande terreno ficou parado à espera de alguma definição de sua ocupação. E tornou-se, por outro lado, o local ideal de usuários de drogas e desocupados perambulando sem destinos. E que, neste tempo todo, só trouxe problemas e violência, sem segurança. E é isto que a população da Zona Norte (e proximidades) não quer ver em sua região, mas que haja uma boa solução aos dependentes químicos, em lugar apropriado e em condições de tratamento psicológico e de saúde.

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(*) Convidados do evento no dia 25/10 – 20 horas: Além dos moradores da Zona Norte, de autoridades e  moradores das regiões vizinhas, foram convidados os representantes: Santuário das Almas  (Paróquia Sagrado Coração de Jesus em Sufrágio das Almas), Shopping D, Escola Técnica Federal, Colégio da Policia Militar, Igreja das Almas, Terminal Rodoviário do Tietê/Socicam, Universidade Sant´Anna, Shopping Center Norte, Novotel, Lar Center, ExpoCenterNorte, Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas (APCD), Cia. Metropolitano de São Paulo (Metrô), Campo de Marte, Parque da Juventude, Biblioteca de São Paulo, Escola Técnica de São Paulo (Etec)-Parque da Juventude, Hotel Ibis-Rodoviária, Distrital Norte/Santana da Associação Comercial de São Paulo, Distrital Nordeste/Vila Maria  da Associação Comercial de São Paulo, Conselho Comunitário de Segurança-CONSEG da Vila Gustavo/Parada Inglesa/Tucuruvi, CONSEG-Vila Guilherme /Jardim São Paulo, CONSEG Água Fria / Mandaqui  / Tremembé, CONSEG Vila Amália  /Cachoeirinha / Imirim, CONSEG Jaçanã/Tremembé e outras lideranças da região.

 


 

 

LimpaSP – estréia

5 COMENTÁRIOS

  1. A transferência da cracolândia para o bairro da Ponte Pequena, será mais uma catástrofe anunciada. Colocarão centenas de jovens que estudam na escola técnica Federal, colégio da polícia militar em risco e a mercê de traficantes. Quanto a nós moradores que vivemos na região, mas uma vez seremos esquecidos e jogados no meio de um problema de saúde pública, que não será resolvido com essa transferência. Todos sabemos que essa idéia será a criação de uma nova cracolândia!!!

  2. Vergonhoso, esse tipo de transferência precisa ser feito para um local afastado das possibilidades ou oportunidades de consumo (uma colonia rural, uma chácara ou um sitio dentro do município ou até uma parceria com o governo do estado) existem tantos espaços na região de Parelheiros, onde os dependentes possam se desintoxicar e ocupar o tempo da maneira produtiva. Essa mudança só irá transferir o problema, causando um enorme efeito de degradação a zona norte e principalmente ao entorno comercial, gerando prejuízos de arrecadação e desemprego pela migração de comerciantes e empresas do bairro. Absurdo, lamentável, colocar uma filial da “Cracolândia” na zona norte, numa área muito próxima de Shoppings, Escolas, Metrô, Rodoviária, Avenidas com alto fluxo de congestionamento, facilitando a ação dos dependentes em praticar furtos, pela dificuldade de aceleração dos veículos. Isso só irá degradar, depreciar e desvalorizar a região sem trazer ou conseguir o efeito esperado por todas as opções de facilitação de dinheiro para conseguirem continuar consumindo as drogas. Srs., esse assunto precisa de uma maior divulgação, para explicar o absurdo que está sendo cogitado para a zona norte do município de São Paulo.

  3. O correto é transformar a Cracolandia em casa de recuperação no interior, sendo longe da fonte do vincio; De imediato atacar os fornecedores da droga, dai resolve todo o problema da mina do terror.

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