Início Cultura  Índios mandam recado: “Quando chegaram aqui encontraram tudo certinho…

 Índios mandam recado: “Quando chegaram aqui encontraram tudo certinho…

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Tempo de Leitura: 3 minutos

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por Toninho Macedo (*)

<<2ª Reflexão/Artigo>> === Há exatos 30 anos, produzi o livro “Billings Viva!”, a partir de um registro de campo que durou mais de um ano. Neste período estivemos muito próximos das comunidades Guarani instaladas em duas aldeias: a do Morro da Saudade, próxima à Barragem de Pedreira, e a do do Curucutu, logo abaixo, num dos braços da Billings.

Mas, quem seria capaz de imaginar que dentro da cidade de São Paulo, ao sul (região de Parelheiros, a 50 minutos da Praça da Sé) possam subsistir, hoje ainda, duas aldeias indígenas do povo guarani.  índios

Ainda em sintonia pelo “dia do índio”, e reverberando os “distratos” que a causa dos indígenas vem sofrendo, e comemorando os 30 anos de lançamento do referido livro, compartilho aqui trechos de falas de duas lideranças de então, inclusas na obra: Karaí Mirim e Jecupé. Grandes ensinamentos.  índios

Falando dos cuidados na lida com o ambiente, legado de seus antepassados. Mas antes deles alguém entregou isso nas mãos deles:

“Olha, é seu; use como for melhor para você. Então, acho que é até obrigação não só do índio guarani – mas do ser humano estar envolvido e de permitir ao próprio planeta estar equilibrado. (Jecupé). índios

Durante todo o tempo que nossas nações viveram, antes da chegada dos conquistadores não havia desequilíbrio ou agressão alguma ao ecossistema. Tanto que quando chegaram aqui, encontraram tudo certinho.” (Karaí-Mirim)

“Não é porque é um povo nômade que ele vai andar por todo o continente. Ele circula numa área que ele sabe que “é” dele. Você não vai ver nunca um povo – sendo nômade ou não invadindo a área de outro povo.” (Jecupé)

Dentro da tradição, se, por exemplo, eu for caçar um tatu, eu não vou comer sozinho esse tatu. Embora seja um bicho pequeno, vou mandar um pedacinho para cada parente. Por uma questão até de educação. Sei que não vai matar a fome, que é pouco para uma família inteira, mas é questão de manter esse elo de ligação entre todos da aldeia. Isso ainda se mantém.

As coisas trazidas são colocadas em cima da mesa. Isso quer dizer: ‘Quem estiver com fome, quem quiser alimentar os filhos, está ali; é só ir lá e pegar’. Depois do contato com o branco, infelizmente, muitos parentes aprenderam a ser egoístas. Se chega alguma pessoa trazendo algo pra cá, alguns parentes procuram se beneficiar e não à comunidade de uma forma geral”. (Jecupé). índios

E, naquele momento, há 30 anos portanto, celebravam o rejuvenescimento das duas comunidades. Fato que as enchia de esperança. índios


Assista um trecho da dança Caaporã, no V Encontro de Indígenas na Fazenda São Bernardo, na cidade paulista de Rafard, que termina no dia 22/05 (domingo). — Acesse no Instagram — clique aqui 


Nas edições do Revelando São Paulo, a Abaçaí Cultura e Arte promoveu a gravação CDs e DVDs, registrando cânticos sagrados e profanos de várias das comunidades indígenas, em São Paulo.

Durante a edição de 2016 no Vale do Ribeira, foi a vez dos tupi-guarani da Aldeia Djaiko aty, localizada próximo ao litoral sul de São Paulo, na cidade de Miracatu. Veio à luz “Ko’e Maramõ” – Agradecendo Nhanderu, com a singeleza de seus cantos.

Endereços de outros CDs produzidos pela Abaçaí. “Kangwaá, opurahéiva Ñanderupe.” (Kangwaá, o que canta para Nhanderu)


(*) Toninho Macedo — Por trás do conhecido Toninho Macedo, há o cidadão Antonio Teixeira de Macedo Neto, que conduziu grandes festivais de cultura e de folclore culminando no maior Festival de Cultura Paulista Tradicional, o “Revelando São Paulo“ – criado em 1996 –, por seis edições memoráveis na Zona Norte (Vila Guilherme, em 2010 a 2014 e 2017/2018), além do interior e litoral. Nele há também muita experiência e inteligência, que vem da graduação emLicenciatura Plenas em Letras Neo-Latinas(1972) e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo-USP(2004). Atualmente é diretor cultural e artístico da Abaçai Cultura e Arte, além de geriro Museu da Inclusão e a Fazenda São Bernardo, fundada em 1881 em Rafard (interior de São Paulo), onde Tarsila do Amaral nasceu e passou a infância — saiba mais clicando aqui


Nota da Redação: O artigo acima é totalmente da responsabilidade do autor, com suas críticas e opiniões, que podem não ser da concordância do jornal e de seus diretores.

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