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“Adega Dossinho” vive do marketing de erros nas placas e vende bebidas exóticas

Tempo de Leitura: 6 minutos

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da Redação DiárioZonaNorte

  • Duas “Adegas” na Zona Norte que oferecem vinhos e bebidas diferentes
  • Há 18 anos, a primeira “Adega Dossinho” foi inaugurada na Vila Medeiros
  • Nas duas Adegas Dossinho não tem venda de pinga no copínho “do Santo”!
  • A venda das bebidas é para “levar e beber em casa”, sem delivery.

Vinhô de Jabuticabra ”,  “ Vinhô de Amôrrá ”,  “Vinhô di Barris da Serra Gaúxa”,  “ Vinhô Frôdiziacô tipo Viagra da muita força ”… Um amontoado de garrafas, barris, garrafões e litros de aguardentes. É a composição de um pequeno comércio de bebidas tradicionais encravado no distrito da Zona Norte, quase escondido junto à Marginal do Tietê, ao lado de lojas de grifes internacionais em dois shoppings e de eventos famosos em um grande centro de exposições.

Quem passa pela Rua da Coroa, na Vila Guilherme, leva um susto. Tem gente que até retorna, dá ré no carro, e vai verificar se é verdade o que viu. Na porta da Adega Dossinho (assim mesmo com dois “s”)  pedaços de tábuas chamativas com letras cursivas, sem estética, com um português a desejar, mostrando propositalmente grafias erradas e engraçadas. Logo acima, várias prateleiras que compõem a cena, onde desfilam mais de 450 garrafas de vinho, cachaça e outros gêneros.

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“É assim mesmo…sei que está errado, mas é uma maneira de chamar a atenção”, declara o “Espanhol” escondido atrás de seu nome verdadeiro, Dionisio Sanchez, de 83 anos. Ele diz que não foi muito além nos estudos, “não cheguei a uma faculdade!”, mas garante que sabe escrever e falar as palavras corretamente. Ele acrescenta que copia também a maneira das pessoas falarem, deixando-as mais à vontade. Recorda que uma professora levou alguns alunos para um trabalho de português e uma menina virou para ele e disse:”Se o senhor precisar, eu posso ajudar a escrever direito!”.

Com seus 89 quilos, caminha de um lado a outro com seu jeito e sangue espanhol, “falo o que tenho vontade de falar a verdade, o que eu sinto, sempre do meu jeito de não esconder nada de ninguém”,  e acrescenta “por isso, que tenho muitos amigos e as pessoas confiam no que falo” . Muito brincalhão, ele atende com simpatia os fregueses em busca de um bom vinho ou de “uma pinguinha”. Falante, gosta de entrar nas conversas, enquanto pega um copinho de plástico e oferece de cortesia aos fregueses, “toma essa, experimenta… é das boas, você vai gostar desta pinga de Minas!”.

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“Espanhol” / Adega Dossinho-Vila Guilherme

Com esses gestos, o corinthiano  “Espanhol” tem muitos amigos no bairro, “uns dos mais velhos amigos, vem de longe!”, que ali chegam principalmente nos finais de semana. Esses conhecem o lugar e vem para bate-papo. Já os fregueses novos pedem sugestões de vinho, “esse é dos melhores, eu tomo, é o Del Rei, com preço muito bom” . Ele se refere a um vinho de mesa tinto seco corte 7/8, da Vinícola São Luiz, de Caixas do Sul (RS), que custa 30 reais. É o vinho que mais vende na Adega Dossinho.

 “De cachaça nem se fala, temos uma grande variedade de vários lugares”, levanta a voz com satisfação. O valor médio é de 30 reais, mas tem as mais graduadas: Vale Verde (115 reais), Weber Haus/7 Madeiras (100 reais) e Espirito de Minas (99 reais). Neste segmento, nota-se a tradicional Velho Barreiro e os companheiros Ypióca e Pitú, passando pela Caninha 51, e chegando nas engarrafas ao pé do alambique do interior de São Paulo até dos mineiros.  E as exóticas de banana, rapadura, Cambuci, gengimel, jenipapo, “peki” e “kanela”, entre outras.

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Dos vinhos, garrafas do desconhecido Vinho do Frade até outros já “provados” por gente do ramo, como os conhecidos Miolo ou Prosecco da Salton. Tudo junto misturado nas prateleiras, onde se vê garrafas de vinho, ao lado de cachaça… ou até groselha Milani, frisantes, licores de cajú… coladinhos na vodka Smirnoff, ao Gin e chegando na “tekila”, além dos diversos sucos; e até refrigerantes e cervejas.

Onde tudo começou

Há quase cinco quilômetros da loja na Vila Guilherme, onde encontra-se a matriz da Adega Dossinho, nos caminhos até a loja da Vila Medeiros. Não muito distante do conhecido “Mocotó”, na esquina meio escondida no bairro, a adega  foi inaugurada há 18 anos. Lá na Rua Roland Garros esquina com a Rua Tosca, um espaço menor, está entulhado de garrafas e barris por todos os lados. Quase dois anos depois, veio a oportunidade de alugar a filial “no cantinho da Vila Guilherme”.

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Adega Dossinho/Vila Medeiros

Quem comanda a matriz na Vila Medeiros é a Dona Fábia Pires Sanchez, uma legítima portuguesa da cidade de Bragança, ao nordeste do país quase fronteira com a Espanha — que, por coincidência, encontrou um descendente de espanhol para casar no Brasil.  Com as ramificações da família na árvore genealógica dos Sanchez, que se formou há 42 anos, nasceram três filhos (Eduardo, Ana Carolina e Rafael), mas o pai Dionisio só tem o apelido de espanhol, já que é paulista de Araçatuba.

Depois de criar os filhos entre Vila Maria e Vila Guilherme, onde morou todo esse tempo, Dona Fábia hoje divide as tarefas caseiras – “a Dossinho fecha às 2ªs. feiras aqui na Vila Medeiros e me dá tempo para cuidar um pouco da limpeza da casa e lavar as roupas” – e mostrando que “vida de mulher é dureza”, ela administra o negócio nas quase oito horas diárias, até no domingo com um horário reduzido, fechando às 14 horas.

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Dona Fábia / Adega Dossinho-Vila Medeiros

 

Com a ajuda do filho Rafael, Dona Fábia diz que o movimento é grande, mas que a Adega tem menos vinhos e cachaças porque o lugar está em lugar de menor renda da população. “Por isso, a maioria dos vinhos e pingas variadas ficam na faixa de 30 reais”, com pouquíssimo exceções para vinhos que ultrapassam 50 reais.

Mesmo com as dificuldades do dia a dia, “os preços estão consumindo o que podia ter um pouco de lucro!”, o Espanhol e a Dona Fábia não param de trabalhar em todo esse tempo de casados. Os filhos e os netos “dão uma mãozinha”, mas ainda levantam cedo e vão dormir tarde. Diariamente, o Espanhol abre a Dossinho da Vila Guilherme às 5 horas da manhã, “tenho que colocar a mercadoria para fora, em exposição, com os avisos”, e começa a atender a partir das 8 horas, “mas sempre tem gente chegando antes do horário”.

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No final da tarde, o Espanhol começa a recolher as mais de 450 garrafas, sem contar os garrafões, e sozinho guarda tudo para fechar a Adega Dossinho. Mais um dia que termina, “e só tenho a agradecer a Deus por ele ter me permitido trabalhar por mais um dia … e ainda quero viver muitos dias até aos 100 anos, trabalhando aqui, abrindo e fechando,  onde gosto…  e tomando meu vinho e minha cachaça!”.


Adega Dossinho

Loja 1 – Vila Medeiros

  • Endereço: Rua Roland Garros, 367
  • Telefone/WhatsApp: (11) 9-7428.0102
  • Horário de 3ª feira a sábado: 08 às 18 horas
  • Horário de domingo: 08 às 14 horas
  • Fechado: às 2ªs. feiras

Loja 2 – Vila Guilherme

  • Endereço: Rua da Coroa, 1441
  • Telefone/WhatsApp: (11) 9-9558.0102
  • Horário de 2ª a sábado: 08 às 18 horas
  • Horário de domingo: 08 às 14 horas
  • Fechado: às 2ªs. feiras

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