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133 anos do Mandaqui e um pouco da história contada por um antigo morador

Tempo de Leitura: 6 minutos

 

  • A região do Mandaqui comporta 26 bairros e muitas histórias
  • A Av. Santa Inês é uma das principais e na Serra como Estrada Santa Inês, indo até Mairiporã

A história carrega nos seus 133 anos, os velhos casarios e agora os modernos edifícios e até um shopping center. Nas cicatrizes do tempo, um passado de sacrifícios dos imigrantes que fizeram o progresso do Mandaqui e da Zona Norte. Ficaram as lembranças e memórias de parte da São Paulo de Piratininga. E, nesta 4ª feira (06/10/2021), celebra os seus 133 anos silenciosamente na lembrança de seus moradores e sem festa pela autoridades.

Até com lembranças de suas terras, o Mandaqui tornou-se um reduto para os imigrantes europeus pela proximidade da Serra da Cantareira e do Horto Florestal. Lá ficaram as videiras da familia Zumkeller, de origem suiça-alemã, que produziam vinhos e mantinha o gado leiteiro. Hoje sobrou uma importante avenida com a lembrança dos Zumkeller.

Por ali, também trafegou o histórico e famoso “Trenzinho da Cantareira”, que trouxe o desenvolvimento para toda a região. Nada sobrou deste passado, a não ser as lembranças dos antigos moradores. No passado, há 83 anos, surgiu um hospital especializado em tuberculose, que ficava no Mandaqui entre muitas árvores e poucas casas. O entorno cresceu e o hospital tornou-se o Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na Rua Voluntários da Pátria.

No meio do caminho, a história permanece faz fronteiras com o município de Mairiporá, ao norte, além da Serra da Cantareira; ao lado, pelo Nordeste, está Tremembé; ao Sul, o histórico e importante bairro de Santana; já Cachoeirinha está no lado oeste; e logo ao lado, sudoeste, a Casa Verde; e finalmente, e mais próximo, Água Fria e Tucuruvi.

Os bairros do distrito de Mandaqui, são: Vila Santo Antônio; Jardim Pícolo; Conj. Res. Santa Terezinha; Parque Mandaqui; Chácara do Encosto; Vila Vitória Mazzei; Vila Aurora; Jardim Paraíso; Jardim Vieira de Carvalho; Jardim Ormendina; Jardim Sônia; Jardim Santa Inês; Conj. Res. Santo Antônio; Jardim Carlu; Vila Amélia; Vila Romero; Jardim Malba; Jardim Maninos; Vila Basiléa; Lauzane Paulista; Jardim Emília; Vila Santos; Jardim Flamingo; Parque Cantareira; Pedra Branca; e Jardim Itatinga. E boa parte do extremo norte do distrito é ocupado pela Serra da Cantareira,  além do Parque da Cantareira e Parque Estadual Albert Löefgren — Horto Florestal –– que foram recentemente concedidos à iniciativa privada.

Com muita defasagem em dados de 2010, a região do Mandaqui contava oficialmente com quase 102 mil habitantes, mas hoje deve estar próximo a 200 mil habitantes. Esse pessoal vivendo e trabalhando em uma área de 13,23 quilômetros quadrados, que tem a zeladoria da Subprefeitura Santana/Tucuruvi/Mandaqui — que, infelizmente, não expõe sempre o nome do terceiro distrito, esquecendo de citar ou mostrar o Mandaqui.

Uma história do passado com os olhos no presente

Com olhar no passado e lembranças em 2011, o Sr. J.Grassifaz abaixo um relato de sua memória em um texto publicado em 31/01/2011 no site “São Paulo, Minha Cidade”, da SP Turis. Vale a pena ler e recordar:

A Liana do Mandaquí
Mandahay, Mandihy, Manaqui, finalmente Mandaqui, eis aqui algumas das definições traduzidas da língua tupi, com referência ao Rio dos Bagres ou dos Mandis no então existente ribeirão da antiga estrada do bispo, atual Rua Conselheiro Moreira de Barros.

Aqui vão algumas anotações, agora já pré-julgadas de uma respeitável distância no tempo, num resquício do período da história de nossa imensa cidade, deste fabuloso São Paulo. Foi por isso que chamei de pequena anotação esta breve descrição, procurando ser o mais objetivo possível, sobre os fatos vividos numa época de minha infância, neste autêntico bairro do Mandaqui.

Agora já passados 50 anos, lembro-me do tempo que eu ainda menino, punha-me sôfrego, caminhando pela trilha que margeava a ferrovia da Tramway Cantareira debaixo do frescor da sombra das gigantescas árvores, que debruçavam seus ramos pendentes sobre a margem do antigo caminho do trem.

Eu costumava andar pela lateral dos trilhos, nas curvas sinuosas nas reentrâncias do terreno, saltitando por pequenos córregos ao longo da linha, nos espaços vazios entre um dormente e outro no caminho da ferrovia.

Andava por ali curioso, olhando o alto da torre do campanário da igreja de Santa Teresinha, onde já se avistava os primeiros raios luminosos do sol.

Havia, por lá também, no céu, uma nesga luz clara, filtrada sobre uma franja branca nos quintais das casas entre roupas estendidas, dependuradas, desfraldadas nos arames dos bambus ao sabor do vento brando.

Hoje, já despido da distante meninice, eis aqui novamente, no mesmo caminho que tantas vezes percorri na minha infância, com minha mãe e minha tia a cinquenta anos atrás. Após um longo espaço no tempo, resolvi voltar e visitar o velho e querido sítio do Mandaqui.

Agora aqui estou novamente, numa bifurcação da Avenida Marechal Hermes da Fonseca com a Rua Conselheiro Moreira de Barros, num largo amplo, arejado, demarcado pelo corte íngreme e reto do morro de Santa Teresinha de onde avisto os telhados velhos, enegrecidos pelo tempo, dos sobrados e casarões de antigas construções, que lá ainda existem e resistem após todos esses longos anos. Parece que tudo isso foi ontem.

E, para reavivar a memória, lembrei-me daquele pequeno espaço de rua, onde havia um pequeno trecho da extinta estação do trem da Tramway Cantareira. Para ser exato, era ali, naquele mesmo lugar, a continuação da linha férrea que vinha de Santana e demandava ao bairro do Mandaqui.

Na época, este percurso era inevitavelmente percorrido pelo trenzinho da Cantareira. Hoje, no seu lugar resta apenas uma rua asfaltada, com boas casas, bem construídas, substituindo as antigas moradias ao longo do traçado do velho caminho da ferrovia.

Apesar da longevidade do tempo e da modernidade atual, posso ainda ver, em algumas casas, as hortas todas pintadas com as cores do verde nos prosaicos canteiros no fundo dos quintais. Hoje conservo intacto na memória, coisas do imaginário, quando ainda se é criança.

Que prazer poder rever as antigas referências do local e de um tempo já tão distante! Desfrutar dos momentos felizes que se foram tão depressa já na longínqua meninice. E é aqui, neste recôndito escondido, próximo ao serrado deslumbrante da Cantareira, que me trouxe novamente à memória, os lugares por mim percorridos.

Neste lugar, hoje ainda existe uma rua de especial recordação para mim. Ela é a Rua Helena do Sacramento. Na época, ela era apenas um arremedo de rua, uma pequena trilha tortuosa, escorregadia, de barro vermelho que começava no Mandaqui e terminava mais à frente, num amplo e arejado largo no bairro de Lausane Paulista.

Foi nessa mesma rua, quando nas manhãs tépidas e rosadas, eu costumava caminhar com meus primos e amigos, por aquele lugar aonde os meus olhos iam seguindo o traçado curvo de um ribeiro. Era ali, nas proximidades daquela rua, que ficava outrora o ribeirão dos bagres e dos mandis.

A rua era silenciosa, toda ladeada por um extenso barranco de onde filtrava por, entre a copa das árvores, uma nesga lamina de sol que cortava uma fatia do bolo de pequenas casas, limpíssimas, paralelas, uma próxima das outras, todas elas dispostas nas reentrâncias do terreno.

Havia ali, também, muitas árvores seculares. No entanto, uma só, sobressaia das demais. Era uma enorme árvore centenária, uma Liana enraizada no solo, crescida verticalmente em direção da luz do sol, entrelaçada de cipós de ramos longos circulares e espessos. Em volta dela, estendia-se o dossel das herbáceas que circundavam seu tronco escuro.

Havia também ali, de tronco amarronzado e de casca rugosa, inúmeros jequitibás seculares enfileirados ao longo do barranco; e as figueiras brancas de raízes chatas, protraídas, estendiam para longe do tronco os galhos lenhosos como grandes membros de sua folhagem viva e luxuriante.

Logo abaixo do barranco, a meia encosta, estendia-se um capinzal exuberante, deixando no seu rastro o amarelo escuro das reboleiras de sapé; no prumado horizontal da rua, o mato virgem crescido confundia-se em mil cores diferentes, como se fosse um tapete de rica e exuberante plumagem. E, acima de tudo isso, o azul diáfano do céu recurva-se em uma pequena fresta de luz branca cintilante.

E eu e a molecada, todos em volta do tronco gigante da velha Liana, disputávamos freneticamente a preferência para se dependurar no seu bojo de cipó e voar sem direção, rumo ao vácuo do pequeno abismo, com os joelhos dobrados encolhidos até a altura do peito, num vai e vem na haste do cipó sobre um aglomerado de trepadeiras e arbustos dispersos abaixo do barranco.

Naquela infantil aventura residia efetivamente a felicidade naqueles tempos de criança. Que alegria possuímos, depois de passados tantos anos, sentir novamente no recôndito fulgurante daquele maravilhoso lugar, o saudoso e prazeroso sabor da infância já agora adormecida naquele cenário deslumbrante no bairro do Mandaqui.

Olho agora novamente para o alto da rua, e vejo ainda, numa reentrância do terreno, o barranco e a velha árvore centenária, a Liana. Ela continua lá, da mesma forma que a deixei no tempo de minha infância. Está ali, com seus extensos ramos pendentes de cipós esparramados, e seu copado farfalhante flutuando suas generosas hastes pelo espaço azul do céu.

Olhando-a novamente, parece-me como uma velha e fiel companheira, que me saudava na minha chegada e me esperava sempre imóvel no mesmo lugar, pelo meu breve regresso. E neste cenário nostálgico, hoje um pouco modificado, o Mandaqui ainda traz, na luminosidade do dia, aquela frescura serrana, no ar grande, ar aberto e alto.

Agora desço a rua espremida entre o recorte alto do barranco e o apinhado baixo de casinhas da rua. O ar é toda uma transpiração fria de água e folhas. Respiro forte. Provo desse ar, como quem prova uma saudade de um tempo distante da minha infância e da velha Liana no meu querido Mandaquí.


<<Com apoio de informações/fonte: SP Turis / São Paulo, Minha Cidade >>

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