Fundado em 1924, o bairro guarda nas ruas a influência europeia, a memória do Trem da Cantareira e as transformações que marcaram seu crescimento em São Paulo
O Lauzane Paulista completa 102 anos nesta 6ª feira, 23 de outubro de 2026, com uma história que começou entre chácaras, pequenas propriedades agrícolas e famílias de imigrantes. Localizado na Zona Norte de São Paulo, o bairro carrega uma particularidade que desperta a curiosidade de quem passa por suas ruas: a influência suíça presente no nome e em diversos endereços.
A origem dessa identidade está ligada à cidade de Lausanne, na Suíça, e a um imigrante que se estabeleceu na região no início do século passado.
A referência à Suíça também aparece nos nomes de diversas vias. Vaud, Oberwil, Frauenfeld, Liestal, Genève e Zürich remetem a localidades suíças, enquanto a Avenida Basileia faz referência a uma das cidades mais conhecidas do país europeu.
Curiosamente, Berna, capital federal suíça, não recebeu uma homenagem semelhante entre as ruas citadas na história do loteamento.
Ao longo de mais de um século, o Lauzane acompanhou o crescimento da capital paulista. As antigas áreas rurais deram lugar a residências, estabelecimentos comerciais e edifícios. Parte dessa trajetória permanece na memória dos moradores e em locais que se tornaram referências da região.
De Lausanne ao Lauzane Paulista: a origem do nome
A ocupação das terras que deram origem ao bairro remonta ao século XIX. Por volta de 1870, o francês Pedro Gabone e sua esposa, a italiana Francisca Bocaccio, estavam entre os primeiros moradores da região.
Em 1917, o suíço Alberto Savoy, natural de Lausanne, adquiriu um sítio de aproximadamente 65 alqueires, situado entre as atuais avenidas Conselheiro Moreira de Barros e Parada Pinto.
Sete anos depois, em 1924, a propriedade foi vendida ao empresário Francisco Amaro, responsável pelo loteamento da área. Em homenagem a Savoy e à cidade suíça de onde ele veio, o empreendimento recebeu o nome de Lauzane Paulista.
A grafia adotada para o bairro, com a letra Z, permanece até hoje. Já a cidade suíça que inspirou a denominação é escrita Lausanne, com dois S.

Famílias pioneiras ajudaram a construir o bairro
O loteamento foi desenvolvido pela empresa Francisco Amaro & Cia., que abriu caminho para a chegada de novos moradores e para a formação das primeiras ruas.
Famílias como Savoy, Simões, Bandini, Colombane e Rosolen participaram do desenvolvimento local, inicialmente marcado por atividades agrícolas e propriedades de características rurais.
O relevo elevado, as áreas verdes e as condições climáticas contribuíram para a ocupação de uma região que, naquela época, estava distante da parte mais urbanizada de São Paulo.
Entre as referências do antigo Lauzane estava a Fonte Lauzane, conhecida por sua água mineral. A fonte foi desativada e a área passou por transformações, sendo posteriormente ocupada por um estabelecimento da rede Bergamini.
A presença da fonte ficou na memória dos antigos moradores como um dos elementos da paisagem que existia antes da urbanização do bairro.

O Trem da Cantareira e a ligação com o restante de São Paulo
Nas primeiras décadas do século XX, os deslocamentos entre os bairros da Zona Norte e o centro da capital eram bastante diferentes dos atuais.
O Trem da Cantareira, conhecido também como Tramway da Cantareira, teve papel importante na mobilidade da região. Na década de 1930, seu Ramal dos Menezes atendia áreas próximas ao Lauzane Paulista.
O traçado ferroviário deixou marcas na geografia local, incluindo a atual Rua Ramal dos Menezes, cujo nome preserva a lembrança daquela antiga ligação.
O sistema ferroviário também ficou conhecido na cultura popular brasileira pela música Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, que faz referência ao transporte utilizado pelos moradores da Zona Norte.
Com o crescimento da cidade e a substituição gradual das antigas estruturas de transporte, o bairro passou a depender cada vez mais das ligações rodoviárias.
Ônibus, escola e igreja marcaram a urbanização
A expansão urbana ganhou força nas décadas seguintes, acompanhando a abertura de ruas e a chegada de serviços públicos.
Em 1969, o Lauzane recebeu sua primeira linha de ônibus, que fazia a ligação com a Praça da República, no centro de São Paulo. O serviço representou um avanço na mobilidade dos moradores, que passaram a contar com uma conexão direta com a região central.
A educação também acompanhou o crescimento populacional. Em 1973, foi inaugurada a Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Marcos Mélega, localizada na Rua Mont Blanc.
A Paróquia Santo Antônio, fundada em 1958, tornou-se outra referência para a comunidade. Situada na Avenida Conselheiro Moreira de Barros, a igreja acompanha há décadas a vida religiosa e social dos moradores.
Esses equipamentos contribuíram para a consolidação do Lauzane como bairro residencial, em um período de expansão da infraestrutura urbana na Zona Norte.
Da antiga pedreira aos supermercados: as mudanças na paisagem
Uma das histórias curiosas do Lauzane envolve uma antiga pedreira utilizada para a extração de pedras destinadas ao calçamento de ruas da cidade.
Com o encerramento da atividade, a área deu origem a uma espécie de represa, bastante conhecida pelos moradores durante a década de 1970.
O terreno passou por diferentes utilizações ao longo dos anos. Chegou a receber descarte de resíduos e posteriormente foi transformado em estacionamento.

Hoje, o local integra a área ocupada pelo Supermercado Tri-Mais, na Avenida Doutor Francisco Ranieri, estabelecimento que sucedeu as antigas operações BergaMais e Bergamini.
A transformação desse espaço acompanha as mudanças vividas pelo bairro, que deixou para trás grande parte das antigas propriedades rurais e passou a receber novos empreendimentos comerciais.
Shopping e edifícios mudaram o perfil do Lauzane Paulista
A partir dos anos 2000, o Lauzane Paulista passou por uma nova etapa de crescimento, impulsionada pela valorização imobiliária e pela ampliação da oferta de comércio e serviços.
Um dos marcos desse período foi a inauguração do Santana Parque Shopping, em 2007. O empreendimento, que passou a utilizar o nome Partage Shopping Santana em fevereiro de 2025, ampliou as opções de compras e lazer para moradores do Lauzane e de bairros vizinhos.
A chegada de novos condomínios residenciais também modificou a paisagem, com edifícios ocupando áreas antes destinadas a casas e terrenos de menor densidade.
O crescimento imobiliário trouxe uma particularidade: muitos empreendimentos situados no Lauzane passaram a ser anunciados comercialmente como localizados em Santana ou Alto de Santana, bairros com maior reconhecimento no mercado imobiliário.
Essa prática acaba deixando em segundo plano a identidade de um bairro que possui história e denominação próprias.
Lausanne Futebol Clube preserva uma tradição iniciada em 1927
O futebol também faz parte da memória do Lauzane Paulista. Fundado em 1927, o Lausanne Futebol Clube completa 99 anos em 2026 e permanece como uma das referências históricas do esporte na região.
Sua trajetória está ligada ao futebol de várzea, atividade que durante décadas reuniu moradores, famílias e trabalhadores dos bairros paulistanos.
O próprio nome do clube mantém a referência à cidade suíça que inspirou a denominação do bairro, preservando mais um vínculo com suas origens.
Aos 102 anos, Lauzane Paulista guarda a memória de seus moradores
Entre o Parque do Mandaqui e a Serra da Cantareira, o Lauzane Paulista chega aos 102 anos com uma paisagem bastante diferente daquela encontrada pelas primeiras famílias que ocuparam suas terras.
As antigas chácaras deram lugar a ruas movimentadas e edifícios residenciais. A fonte de água mineral desapareceu, os trilhos do Trem da Cantareira ficaram no passado e o comércio passou a ocupar espaços que antes faziam parte da vida rural.
A história permanece registrada nos nomes das ruas, na igreja, no clube de futebol e nas lembranças de quem acompanhou essas transformações.
O aniversário de 23 de outubro também oferece uma oportunidade para discutir a preservação da memória dos bairros paulistanos, especialmente daqueles cuja história raramente recebe destaque nas comemorações oficiais da cidade.
O Lauzane Paulista chega aos 102 anos com uma identidade construída por diferentes gerações de moradores. Conhecer essa trajetória ajuda a compreender como a Zona Norte cresceu e como pequenos núcleos residenciais se transformaram em parte da metrópole.
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