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Idade dos óvulos, congelamento, custos e reprodução assistida entram em uma conversa que, segundo o médico Alfonso Massaguer, ainda chega tarde para muitas mulheres

Carreira, relacionamentos, projetos pessoais, condições financeiras e o desejo de ter filhos podem amadurecer em momentos diferentes da vida.  A maternidade deixou de seguir um roteiro previsível. O corpo feminino, porém, mantém seu próprio ritmo biológico. Conhecer esse funcionamento pode fazer diferença nas escolhas feitas ao longo dos anos.

Essa distância entre o momento de vida e o desejo de ser mãe colocou a preservação da fertilidade em uma conversa que deveria começar cedo, inclusive durante o acompanhamento ginecológico de rotina.

Para o médico Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana, CRM 97335 e RQE 42794, formado pela Universidade de São Paulo (USP) e coautor do livro “A Espera: guia definitivo para a saúde reprodutiva e o sucesso da gestação“, informação é uma das principais ferramentas para que mulheres possam tomar decisões conscientes sobre seu futuro reprodutivo.

À frente da Clínica Mãe, localizada na Vila Nova Conceição, em São Paulo, Massaguer acompanha mulheres e casais em diferentes momentos da jornada reprodutiva, da preservação da fertilidade aos tratamentos de reprodução assistida. A proposta reúne atendimento individualizado e acompanhamento das diferentes etapas do tratamento.

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Livro de Alfonso Massaguer e Paula Fettback transforma a reprodução assistida em uma conversa acessível sobre fertilidade, escolhas, tempo e os caminhos possíveis para quem deseja construir uma família

O relógio biológico começa a contar antes dos 40

A mulher nasce com uma reserva ovariana determinada, que diminui progressivamente ao longo da vida. A idade também interfere na qualidade dos óvulos.

Massaguer explica que essa redução se torna mais significativa a partir dos 35 anos e se acentua depois dos 40. A menopausa costuma acontecer anos mais tarde, mas o declínio da capacidade reprodutiva relacionado aos óvulos começa antes.

Esse intervalo ajuda a entender por que menstruar regularmente não significa necessariamente manter aos 40 anos as mesmas condições reprodutivas existentes aos 30.

O especialista chama atenção para uma lacuna que ainda identifica na assistência à saúde da mulher. Durante sua formação em Ginecologia e Obstetrícia, havia treinamento voltado à anticoncepção, mas pouco espaço para discutir concepção e planejamento reprodutivo de longo prazo.

“Durante a nossa residência de Ginecologia e Obstetrícia, tínhamos um estágio chamado anticoncepção. A gente não tinha um estágio chamado concepção, que é o planejamento familiar”, afirma.  Para Massaguer, essa conversa precisa acompanhar as mudanças na vida das mulheres. “As mulheres cada vez têm filhos mais tarde. É preciso entender quais são os riscos de escolher ter filhos mais tarde.”

Congelar óvulos não é garantia de gravidez

Um dos pontos que mais exigem clareza é o significado do congelamento de óvulos. A técnica amplia possibilidades para o futuro, mas não representa garantia de maternidade.

O procedimento preserva os óvulos nas condições biológicas existentes no momento da coleta. A idade em que o material é obtido, portanto, tem peso importante nas perspectivas de uma futura gravidez.

“Se você usa óvulos jovens, a situação é diferente. Quem congela com pouca idade, em geral até os 35 anos, tende a precisar de menos coletas”, explica Massaguer.

A experiência pessoal do médico também passa pela reprodução assistida. Segundo ele, os óvulos utilizados no tratamento realizado com a esposa foram coletados quando ela tinha 34 anos. O casal teve filhos a partir de embriões congelados.

Alfonso Massaguer conta essa história com naturalidade porque considera importante diminuir o constrangimento que ainda acompanha algumas famílias submetidas aos tratamentos.

“Tenho orgulho de falar que meus filhos são resultado de tratamento de reprodução humana, são embriões congelados. Isso mostra o quanto essa dificuldade para engravidar é comum.”

Como funciona o congelamento de óvulos

O tratamento começa com uma avaliação individual da saúde reprodutiva. Exames ajudam a estimar a reserva ovariana e a definir a estratégia adequada para cada paciente.

Na etapa de estimulação ovariana, medicamentos hormonais são utilizados, geralmente por cerca de dez dias, para estimular o desenvolvimento de vários folículos, estruturas que abrigam os óvulos. A resposta do organismo é acompanhada por ultrassonografias e exames laboratoriais.

Quando os folículos atingem o estágio considerado adequado, os óvulos são coletados por uma punção transvaginal guiada por ultrassom, realizada sob sedação.

O laboratório avalia o material obtido e os óvulos maduros considerados adequados passam pela vitrificação. A técnica promove um congelamento ultrarrápido e utiliza substâncias crioprotetoras para reduzir a formação de cristais de gelo. O material é posteriormente armazenado em nitrogênio líquido, a aproximadamente 196 graus Celsius negativos.

A quantidade de óvulos obtida varia de mulher para mulher. Idade, reserva ovariana, histórico clínico e resposta à estimulação influenciam cada ciclo.

O congelamento é a etapa de preservação. Caso a mulher decida utilizar os óvulos no futuro, eles precisam ser descongelados e empregados em uma fertilização in vitro, com sêmen do parceiro ou de um doador.

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Passo a passo do procedimento

Quando preservar a fertilidade também é uma questão de saúde

Adiar a maternidade não é a única razão para considerar o congelamento de óvulos.

Mulheres com endometriose, Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) ou que precisem passar por determinados tratamentos oncológicos podem necessitar de uma avaliação sobre preservação da fertilidade, dependendo das condições individuais e da indicação médica.

Em alguns casos, uma cirurgia ou tratamento necessário para outra doença pode comprometer a reserva ovariana. A discussão sobre a possibilidade de preservar óvulos passa, então, a fazer parte do próprio cuidado com a paciente.

A avaliação precisa considerar diagnóstico, idade e condições clínicas. Não existe uma quantidade de óvulos ou uma idade que funcione como garantia para todas as mulheres. A reprodução humana trabalha com probabilidades, e os resultados dependem de diferentes fatores biológicos.

A infertilidade também pode ser masculina

A pressão em torno da fertilidade costuma recair principalmente sobre a mulher, embora a investigação de um casal também precise considerar a saúde reprodutiva masculina.

Massaguer explica que a idade pode interferir na qualidade do sêmen e estar associada ao aumento de alguns riscos reprodutivos. O impacto do envelhecimento masculino, porém, ocorre de maneira diferente daquele observado na fertilidade feminina.

A infertilidade masculina também possui classificação médica própria e pode estar relacionada à dificuldade de um casal conseguir uma gravidez. A investigação do homem, portanto, faz parte da avaliação reprodutiva e não deveria aparecer apenas depois de uma longa sequência de exames realizados pela mulher.

Quando a informação chega tarde

Um episódio relatado pelo especialista durante a entrevista ajuda a dimensionar um problema que ele encontra na prática clínica.

O médico conta que encontrou recentemente um amigo cuja mulher, médica, havia perguntado à ginecologista, aos 34 anos, se deveria considerar o congelamento de óvulos. Na ocasião, ouviu que estava tudo bem e que não havia necessidade. Aos 38, o casal enfrentava dificuldades durante o tratamento de reprodução assistida.

O relato não significa que todas as mulheres devam congelar óvulos aos 34 anos. Mostra a importância de a conversa sobre idade, reserva ovariana e planos para uma futura maternidade acontecer antes que apareça uma dificuldade para engravidar.

Massaguer também questiona a maneira como informações complexas costumam ser apresentadas dentro do consultório.  “O médico coloca em cima do paciente uma série de informações. Muitas vezes aquilo é novo. Reprodução humana tem termos que as pessoas nunca ouviram e elas precisam entender tudo isso.”

Segundo ele, uma consulta precisa permitir que a paciente retome as informações depois e encontre suporte para compreender exames, procedimentos e as decisões que terá pela frente.  “Você precisa saber o que o médico explicou, poder retomar aquilo depois e ter acompanhamento. É preciso entender se a pessoa realmente compreendeu.”

O custo também entra no planejamento

O planejamento reprodutivo não envolve apenas idade e condições de saúde. O custo do tratamento pesa na decisão de muitas mulheres, especialmente quando a preservação da fertilidade precisa conviver com outras despesas da vida.

O congelamento de óvulos reúne diferentes etapas. Avaliação médica, exames, medicamentos para estimulação ovariana, acompanhamento, coleta sob sedação, procedimentos laboratoriais, vitrificação e armazenamento podem integrar o custo total. Caso os óvulos sejam utilizados no futuro, a fertilização in vitro representa outra etapa do tratamento.

Massaguer afirma que a evolução dos medicamentos e a expansão da reprodução assistida trouxeram opções de diferentes faixas de custo. Ainda assim, o investimento pode exigir planejamento financeiro.

O financiamento do tratamento é uma das possibilidades para pacientes que preferem distribuir o investimento ao longo do tempo.

Questões jurídicas relacionadas ao custeio de tratamentos médicos também podem entrar nessa jornada. Uma das frentes envolve pedidos judiciais para utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em tratamentos de saúde, incluindo casos de reprodução assistida.

A possibilidade não significa que o saldo do FGTS esteja automaticamente disponível para congelamento de óvulos ou fertilização in vitro. O pedido depende da situação individual e de análise judicial, com documentação médica e elementos que fundamentem a solicitação.

Demandas envolvendo planos de saúde também podem ser avaliadas juridicamente em determinadas situações, especialmente quando a preservação da fertilidade está relacionada a uma condição clínica ou a um tratamento que possa comprometer a capacidade reprodutiva.

Esses caminhos não representam garantia de autorização judicial ou de cobertura. Conhecer as alternativas disponíveis permite que o custo faça parte do planejamento desde o início.

A reprodução assistida mudou junto com a vida das mulheres

Quando Massaguer concluiu a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a formação especializada em reprodução humana ainda era limitada no Brasil. O médico buscou aperfeiçoamento no exterior, com períodos de formação na Espanha e no Canadá.

O cenário se transformou. Segundo ele, o país ampliou a formação de especialistas e os serviços de reprodução humana, incorporando técnicas utilizadas nos principais centros internacionais.

A evolução também alcançou os medicamentos empregados nos tratamentos, com opções de diferentes custos.

Para Massaguer, outra mudança acontece fora dos laboratórios: a fertilidade começa a fazer parte das conversas das mulheres antes de uma tentativa frustrada de gravidez.

O especialista relaciona essa transformação à autonomia proporcionada pelos métodos contraceptivos a partir da segunda metade do século XX. A contracepção ampliou o controle sobre o momento de evitar uma gravidez. As técnicas de preservação da fertilidade acrescentaram novas possibilidades ao planejamento de uma maternidade futura.

O relógio biológico também pode interferir nas escolhas afetivas

Existe uma dimensão menos visível nessa discussão. A percepção de que o tempo para ter filhos está diminuindo pode interferir nas decisões afetivas. Massaguer relata acompanhar mulheres que aceleraram decisões sobre relacionamentos diante do medo de perder a possibilidade de uma gravidez.

“O congelamento de óvulos tenta mudar essa situação da mulher, que é muito pressionada pela idade. É uma ferramenta importante para que ela possa tomar suas decisões.”

Preservar óvulos não elimina os limites biológicos e não significa que o material necessariamente será utilizado. Algumas mulheres poderão engravidar espontaneamente e nunca precisar recorrer aos óvulos armazenados.

A decisão exige compreender possibilidades e limitações, avaliar custos e conversar com um especialista sobre a pertinência do procedimento para aquela mulher e aquele momento de vida.

Informação antes da urgência

Para o Dr. Alfonso Massaguer, a infertilidade deve ser compreendida como uma condição médica, afastando a culpa que ainda acompanha muitas mulheres e casais que encontram dificuldade para ter filhos.

O acesso aos tratamentos de reprodução assistida no Brasil ainda é limitado para uma parcela importante da população. A informação, porém, pode começar muito antes da necessidade de um tratamento.

Conhecer o funcionamento do próprio corpo, compreender que a fertilidade se modifica com a idade e conversar sobre planos de maternidade durante o acompanhamento ginecológico não significam que toda mulher deva congelar óvulos ou antecipar decisões sobre ter filhos. Significam conhecer as possibilidades antes que o tempo biológico passe a determinar parte das escolhas.

Para quem já enfrenta a espera por uma gravidez, Massaguer recomenda buscar informação, compartilhar a experiência com pessoas de confiança e manter os cuidados com a própria saúde.

“Não há motivo para se culpar. A infertilidade é uma condição médica. Continue cuidando de você, da sua saúde e procure profissionais que possam ajudar.”

A reprodução assistida trabalha com possibilidades e probabilidades. Informação médica compreensível permite que cada mulher entenda o próprio cenário e tome decisões de acordo com seus planos, sua saúde e seu momento de vida.

Serviço

Clínica Mãe
Av. Antônio Joaquim de Moura Andrade, 315
Vila Nova Conceição, São Paulo/SP
CEP 04507-000
Telefone: (11) 4305-6070
Segunda a sexta-feira, das 8h às 20h
Sábado, das 8h às 12h

Com apoio de informações: Fragata Comunicação – jornalista Matheus Fragata>

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