Espera Guia Saúde Reprodutiva
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Livro de Alfonso Massaguer e Paula Fettback transforma a reprodução assistida em uma conversa acessível sobre fertilidade, escolhas, tempo e os caminhos possíveis para quem deseja construir uma família

Há assuntos que chegam à vida das pessoas acompanhados de uma quantidade enorme de informação, mas pouca compreensão. Fertilidade é um deles. Termos médicos, exames, idade, tratamentos, congelamento de óvulos, fertilização in vitro, ovodoação, custos e expectativas podem transformar uma decisão profundamente pessoal em um território difícil de atravessar.

É justamente nesse espaço que se encontra A espera: o guia definitivo para a saúde reprodutiva e o sucesso da gestação, escrito pelo médico especialista em reprodução humana Alfonso Massaguer e pela médica Paula Fettback. Publicado em 2024 pela Maquinaria Sankto Editora, o livro se propõe a falar sobre reprodução humana de maneira científica, mas sem transformar o leitor em aluno de uma aula de medicina.

A escolha do tema chega em um momento particularmente oportuno. O congelamento de óvulos, por exemplo, deixou de ser um procedimento pouco conhecido para entrar no radar de milhares de brasileiras. Dados recentes do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mostram que foram realizados 18.631 procedimentos de congelamento de óvulos em 2025, contra 7.872 em 2020. O crescimento foi de 136,7% em cinco anos.

O movimento também tem dimensão econômica. Segundo estudo da consultoria Redirection International, o mercado brasileiro de medicina reprodutiva, que movimentava cerca de R$ 1,3 bilhão, poderia superar R$ 3 bilhões em 2026, impulsionado pela expansão da demanda e pela evolução das técnicas.

É nesse cenário que “A espera” ganha relevância.

Um livro que começa antes do consultório

A obra não começa pelos procedimentos. Começa pelas pessoas.

Logo na introdução, os autores apresentam o chamado “dilema da mulher moderna” e discutem como as mudanças sociais alteraram a relação das mulheres com a maternidade. A gravidez deixou de ocupar necessariamente o início da vida adulta, enquanto carreira, relações afetivas, independência financeira e projetos pessoais passaram a disputar espaço com o desejo de ter filhos.

O livro acompanha quatro mulheres, com histórias, circunstâncias e aprendizados diferentes. A partir delas, os autores constroem uma narrativa que alterna experiências pessoais e explicações médicas. O leitor passa pela fertilidade feminina, envelhecimento dos óvulos, infertilidade, congelamento de óvulos, fertilização in vitro, ovodoação, reprodução assistida para casais homoafetivos, abortamento, saúde emocional e planejamento familiar.

Essa estrutura é um dos acertos da obra.

Em vez de apresentar a reprodução assistida como uma sequência fria de procedimentos, “A espera” mostra que cada exame, cada resultado e cada decisão acontece dentro de uma história de vida. Acredite, você vai se emocionar.

A ciência explicada sem assustar

O livro também cumpre uma função quase pedagógica. Explica o funcionamento do sistema reprodutivo feminino, o envelhecimento dos óvulos, as causas da infertilidade e as possibilidades existentes para quem encontra dificuldades para engravidar.

A fertilização in vitro aparece passo a passo. O mesmo acontece com a ovodoação e outras formas de preservação da fertilidade. Há ainda espaço para explicar questões financeiras e alternativas de tratamento, assunto que costuma aparecer pouco nas conversas sobre reprodução assistida, embora seja decisivo para muitas famílias. O livro reserva, inclusive, um capítulo inteiro ao “preço da fertilidade” e outro às possibilidades para quem acredita que nunca conseguirá pagar por um tratamento.

Essa preocupação com o acesso é importante. O próprio livro reconhece que os tratamentos ainda podem representar uma barreira financeira e discute alternativas como medicamentos de menor custo, MiniFIV, doação compartilhada de óvulos, atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e organização financeira.

É uma escolha editorial feliz porque aproxima a ciência da vida real.

Entre o desejo de ser mãe e o direito de escolher

Talvez esteja aqui o aspecto mais interessante de “A espera”.

O livro não trata a maternidade como obrigação. Também não transforma o congelamento de óvulos em uma espécie de apólice contra o futuro. Ao contrário, os próprios autores fazem questão de afirmar que a obra não pretende pressionar mulheres, culpá-las ou estimular uma corrida contra o tempo. A proposta é apresentar alternativas para que cada uma possa tomar suas decisões com mais conhecimento.

Essa perspectiva dá ao título uma dimensão que vai além do tratamento.

Esperar, neste caso, não significa simplesmente aguardar uma gravidez. Pode significar esperar pelo parceiro certo, pela estabilidade financeira, por uma mudança profissional, por uma decisão pessoal ou simplesmente pelo momento em que aquela mulher entender que deseja ser mãe.  A medicina entra justamente nesse intervalo entre o presente e o futuro.

O lado que ninguém vê: culpa, medo e solidão

A espera” também é um livro sobre aquilo que acontece longe dos exames.

As primeiras histórias são marcadas pela frustração de mulheres que tentam engravidar e não conseguem. Aparecem a culpa, a sensação de fracasso, o medo de decepcionar a família e até a ideia de que alguma escolha pessoal teria provocado a infertilidade.

Essa dimensão emocional é tratada com uma atenção que faz diferença. O diagnóstico de infertilidade pode atingir relacionamentos, trabalho, família e vida social, enquanto muitas mulheres atravessam esse período em silêncio. O livro lembra que nem tudo está sob controle e que procurar explicações para cada resultado nem sempre significa encontrar uma resposta.

É nesse ponto que a leitura deixa de ser apenas informativa e se torna próxima.

Uma leitura para quem está tentando, planejando ou simplesmente quer entender

Um dos méritos de “A espera” está justamente na linguagem. O conteúdo é médico, mas a construção é acessível. O leitor não precisa dominar termos de reprodução humana para acompanhar a narrativa.

A obra pode interessar a quem está tentando engravidar, a quem considera preservar a fertilidade, a quem recebeu um diagnóstico de infertilidade ou simplesmente deseja compreender melhor as possibilidades oferecidas pela medicina reprodutiva.

Também pode ser útil para quem ainda não sabe se quer ter filhos.

E talvez essa seja uma das ideias mais bonitas do livro: informação não precisa vir acompanhada de uma decisão imediata.  Conhecer as possibilidades pode ser apenas uma maneira de chegar ao futuro um pouco mais preparado.

Uma espera que também fala de esperança

A espera” é, no fundo, um livro sobre aquilo que fazemos enquanto o futuro ainda não chegou.

Massaguer e Fettback apresentam ciência, procedimentos, números e possibilidades, mas não escondem as incertezas que continuam fazendo parte da reprodução humana. A medicina avançou, as técnicas se tornaram mais sofisticadas e o acesso à informação cresceu. Ainda assim, cada história permanece única.

O livro termina onde talvez devesse começar: na compreensão de que não existe uma única maneira de construir uma família, nem um único momento correto para tomar uma decisão.

Minha impressão é que “A espera” encontra seu maior valor justamente aí. Não entrega respostas prontas para uma questão que nunca será simples. Entrega informação para que o leitor possa fazer perguntas melhores. E, quando o assunto é fertilidade, isso pode significar muito. Porque algumas escolhas precisam acontecer no presente para que, no futuro, exista liberdade para escolher.

Ficha da obra

A espera: o guia definitivo para a saúde reprodutiva e o sucesso da gestação
Autores: Alfonso Massaguer e Paula Fettback
Editora: Maquinaria Sankto Editora e Distribuidora
Ano: 2024
ISBN: 978-85-94484-32-1

Onde comprar: Amazon – link aqui

<com apoio de informações:  Fragata Comunicação – jornalista Matheus Fragata>

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