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Na Praça da Sé, a chef transformou cozinha, empreendedorismo e solidariedade em uma rede de oportunidades
Há encontros que ficam. A jornalista Reila Criscia, fundadora da Anagrama Comunicação e Eventos, apresentou a chef Gil Gondim à autora desta reportagem em 2025, durante uma das edições do Brunch da Catedral da Sé. A identificação foi imediata.
Gil tem uma presença que chama atenção sem precisar pedir espaço. É firme nas decisões, delicada no trato e carrega um olhar atento para as pessoas. Há nela uma mistura pouco comum de força, generosidade e capacidade de realização. O que talvez mais impressione seja a maneira como a gastronomia entrou em sua vida como profissão e acabou se transformando também em instrumento de cidadania.
Gil não oferece apenas comida. Em muitos dos projetos que conduz, a comida é o primeiro gesto. Depois vêm a formação, o trabalho, a autonomia e a possibilidade de construir uma nova história.
É dessa compreensão que nasce o Instituto Marco Zero da Gastronomia.

Um marco zero para recomeçar
Presidente do Instituto Marco Zero Desenvolvimento Socioeconômico e Cidadania, Gil Gondim colocou no nome da organização uma ideia que considera essencial.
A Praça da Sé é o marco zero de São Paulo. Para as pessoas que chegam ao instituto, o nome ganha outro significado: pode representar também um ponto de partida.
Criado formalmente em abril de 2025, o instituto é uma organização sem fins lucrativos voltada à inclusão social e à autonomia por meio da capacitação profissional. A proposta é usar a gastronomia, a confeitaria, a panificação e o setor de eventos como portas de entrada para o mercado de trabalho.
Os cursos são gratuitos e têm como público prioritário pessoas em situação de vulnerabilidade, muitas delas atendidas pela Missão Belém, além de iniciativas direcionadas a grupos específicos.
A lógica é simples. Ensinar uma profissão pode abrir uma porta que um prato de comida, sozinho, não consegue manter aberta. A comida alimenta. O conhecimento pode permitir que alguém passe a sustentar a própria vida.
“Meu objetivo é a capacitação de pessoas em vulnerabilidade social, com cursos de gastronomia, panificação, confeitaria e atendimento, para que possam chegar ao mercado de trabalho e conquistar dignidade”, explica Gil Gondim.

A iniciativa oferece formação para ajudantes de cozinha, cozinheiros, padeiros, confeiteiros e profissionais de atendimento. Também estão previstos cursos de especialização em cozinha fria, cozinha para eventos e catering, confeitaria em sorveteria e formação para maître. A formação inclui ainda conteúdos relacionados à etiqueta e ao atendimento.
A proposta é preparar pessoas para uma cadeia profissional que precisa de mão de obra qualificada.
O alimento que chega à Praça da Sé
A história do instituto se conecta diretamente com outro capítulo importante da trajetória de Gil: o trabalho voluntário desenvolvido a partir da parceria com a Catedral da Sé.
A chef é voluntária e curadora do Brunch da Catedral, evento criado para arrecadar recursos destinados à conservação e manutenção do patrimônio histórico da Catedral e, ao mesmo tempo, apoiar o trabalho da Missão Belém.
A parceria também produz um resultado concreto na rotina de quem vive em situação de vulnerabilidade. São cerca de 140 refeições oferecidas diariamente às pessoas atendidas pelo Projeto Vida Nova, da Missão Belém, na região da Sé. No dia do brunch, a comida preparada para os convidados também chega à população atendida pelo projeto.
A Missão Belém mantém diferentes casas e frentes de acolhimento. Na Sé, o Projeto Vida Nova recebe pessoas em situação de rua e realiza um primeiro acolhimento antes do encaminhamento para outras unidades da organização.

O padre Luiz Eduardo Pinheiro Baronto, Cura da Catedral da Sé, explica que o trabalho parte de uma visão de acolhimento que ultrapassa a alimentação. Segundo ele, o Projeto Vida Nova atende pessoas em situação de vulnerabilidade, inclusive aquelas abordadas pelos missionários nas ruas e em regiões como a Cracolândia.
Depois do acolhimento inicial, os atendidos recebem alimentação, roupas, cuidados de saúde, atenção e acompanhamento antes de serem encaminhados para outras unidades da Missão Belém.
Para Baronto, o cuidado também passa pelo afeto. “Nem tudo se resolve com remédio. Tem coisas que são feridas no coração e só um abraço da família consegue sarar”, afirma ele. O sacerdote destaca ainda a importância dos recursos obtidos com o Brunch da Catedral para a manutenção desse trabalho. A alimentação servida às pessoas atendidas no dia do evento é preparada pela mesma equipe responsável pelo brunch.
A participação de Gil ganhou um significado especial para a Catedral.
“Hoje, quem ajuda a sustentar o maior templo católico de São Paulo e a cuidar dessas pessoas é uma evangélica”, disse, referindo-se à chef Gil Gondim. “Quando ela viu a necessidade da missão, estendeu a mão e disse: ‘Padre, eu vou ajudar’. É isso que salva vidas. É o amor em ação.” disse ele.
A parceria tornou-se uma expressão concreta de cooperação entre pessoas de diferentes tradições religiosas em torno de uma necessidade comum: cuidar de quem está em situação de vulnerabilidade.

Uma cozinha que carrega memória
Antes de criar o Instituto Marco Zero, Gil Gondim já havia construído uma carreira sólida na gastronomia.
A chef atua no setor desde 2004 e se tornou uma das banqueteiras mais requisitadas de São Paulo e do ABC paulista. À frente da Casa Gil Gondim Gastronomia, trabalha com uma cozinha marcada pela afetividade e por referências da culinária italiana.
O marido, João Marcos, é seu sócio e um de seus principais incentivadores.
A trajetória também passa pelos livros. Gil é autora de “Conservas do meu Brasil: compotas, geleias e antepastos”, lançado pela Editora Senac São Paulo em 2015. A obra reúne mais de 50 receitas e percorre ingredientes e tradições culinárias de diferentes regiões do país. O livro ganhou projeção internacional. A ApexBrasil selecionou a publicação para representar o Brasil nas feiras internacionais do livro de Milão e Medellín.
Em 2024, Gil lançou “Conservas do meu Brasil 2: mais técnicas e receitas”, desta vez em parceria com o chef Danilo Rolim. A publicação amplia a pesquisa sobre técnicas de conservação e reúne receitas brasileiras e internacionais.
Gil Gondim escolheu morar no Centro
A mudança para a região central de São Paulo foi uma decisão pessoal e empresarial.
Gil deixou Santo André, levou a família para a Praça da Sé e transferiu para a região as atividades da Casa Gil Gondim. O movimento acompanhou sua aproximação cada vez maior com os projetos sociais desenvolvidos no território.
A decisão também dialoga com o processo de transformação do Centro de São Paulo. A região vem recebendo iniciativas voltadas à recuperação de imóveis, ocupação de espaços ociosos, mobilidade, segurança, cultura e atração de novos negócios.

Chef Gil Gondim e o prefeito Ricardo Nunes – reprodução Redes Sociais
A Prefeitura de São Paulo tem desenvolvido diferentes ações de requalificação da região central, enquanto empreendedores passaram a ocupar imóveis e espaços que durante anos permaneceram subutilizados. Gil decidiu fazer parte desse movimento.
Em 2024, a Prefeitura de São Paulo reconheceu a chef com o Prêmio Cidade de São Paulo. A homenagem destacou sua atuação no Brunch da Catedral, seu trabalho social junto à Missão Belém e a decisão de levar as atividades da Casa Gil Gondim para a região da Sé. Em 2025 e 2026, vieram outros prêmios que reconheceram a importância do seu trabalho.
Entre os entusiastas pelo seu trabalho estão o prefeito Ricardo Nunes e os secretário Fabrício Cobra (Subprefeituras) e Rodrigo Goulart (Trabalho e Desenvolvimento Econômico).

Ópera: restaurante, escola e oportunidade
Dentro desse cenário surgiu o Ópera Restaurante-Escola, na Rua Formosa, 467, na Praça das Artes da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.
O conceito é direto. Quem entra no Ópera para almoçar também ajuda a financiar um projeto de formação profissional, já que a arrecadação do local é 100% revertida ao Instituto Marco Zero.

A casa trabalha com uma cozinha de afeto, pratos bem servidos, executados com produtos frescos e preços acessíveis.O cardápio tem cinco pratos fixos, duas massas com quatro opções de molhos e um especial do dia.
Todos com o preço fixo em R$ 35. Os alunos da Fundação Theatro Municipal tem descontos nos valores do cardápio. O restaurante funciona de segunda a sexta-feira, das 11h às 15h. Em breve, atenderá também aos sábados, com horário extendido até às 17h.
Na visita do DiárioZonaNorte, o escolhido foi o picadinho. Um prato aparentemente simples, daqueles que revelam rapidamente quando a cozinha sabe o que está fazendo. Exige técnica apurada.

A carne estava macia, envolvida por um molho encorpado e perfumado. As cenouras chegaram no ponto certo. O arroz branco acompanhou o conjunto sem disputar atenção, enquanto a farofa trouxe a crocância necessária.
A pimenta servida à mesa tinha outro significado. A receita veio do primeiro livro de Gil Gondim. Foi um daqueles pratos que lembram por que comida também pode ser afeto.
Entre as sobremesas, os gelatos artesanais dividem espaço com o pudim conhecido do Brunch da Catedral: liso, com uma consistência correta e doce na medida certa, além de merengue com morangos, tiramissù, bolo de chocolate e carrot cake.

Quando inclusão ganha nome e profissão
Uma das iniciativas que melhor traduzem a proposta do Instituto Marco Zero é o Gastronomia & Autonomia T21. O projeto foi desenvolvido para pessoas com Síndrome de Down, em parceria com o Instituto PAE – Programa de Atendentes Eficientes, e conta com apoio da Prefeitura de São Paulo.
As aulas trabalham conhecimentos práticos que fazem parte da rotina profissional de uma cozinha: higiene, segurança alimentar, organização, cozinha quente, cozinha fria, confeitaria, sorveteria, convivência e autonomia. São 30 alunos, divididos em três turmas de dez pessoas. O formato permite um acompanhamento mais próximo de cada participante.
O embaixador do projeto é Alesandro Cerabino, atleta com Síndrome de Down e uma pessoa próxima à chef. A primeira turma tem formatura marcada para 28 de agosto.
A experiência também abriu novos caminhos para Gil. A partir dela, o instituto começou a pensar em novas formações para públicos específicos, entre eles pessoas autistas e mulheres que vivem ou viveram situações de violência doméstica, com foco em empreendedorismo.
A ideia é ampliar o conceito de inclusão. Não basta abrir uma porta. É preciso criar condições para que a pessoa consiga atravessá-la, permaneça e encontre um caminho próprio.
Os cursos são gratuitos e, para que possam atingir mais pessoas, necessitam de patrocínio. Hoje, o Instituo Marco Zero conta com o apoio das empresas Mundial e o Azeite Andorinha.
A mulher por trás do projeto
Talvez seja esse o ponto que melhor explique por que Gil Gondim provoca tanta admiração.
Ela não parece separar a empresária da mulher que se importa com o outro.
A cozinha profissional trouxe reconhecimento, clientes, livros e negócios. A experiência acumulada também revelou uma possibilidade maior: usar aquilo que ela sabe fazer para criar oportunidades para quem precisa de uma primeira chance.
Gil trabalha com comida, mas seu projeto maior é sobre pessoas.
Há algo de muito concreto nisso. Ela colocou a empresa perto daquilo em que acredita. Mudou a própria casa. Trouxe o negócio para a Sé. Criou um instituto. Abriu espaço para formação. Transformou um restaurante em escola. Levou o trabalho voluntário para dentro de uma rotina empresarial.
O Instituto Marco Zero nasce desse percurso. O nome faz referência ao coração histórico de São Paulo, mas também traduz a ideia de recomeço. Para quem chega carregando uma história difícil, aprender a cozinhar, fazer pão, preparar doces, atender uma mesa ou trabalhar em um evento pode ser o primeiro passo para uma vida diferente.
A gastronomia, nesse caso, deixa de ser apenas profissão. Vira ferramenta, encontro e possibilidade.
Num momento em que a hotelaria, a gastronomia e toda a cadeia da hospitalidade enfrentam dificuldades para encontrar profissionais, iniciativas de capacitação podem aproximar duas necessidades que caminham lado a lado: quem precisa de oportunidade e um mercado que precisa de gente preparada.
Gil Gondim encontrou nesse espaço uma forma de empreender que também devolve à cidade. Talvez seja essa a parte mais bonita da história.
No coração da Sé, onde São Paulo começa a contar a própria história, ela decidiu criar um marco zero para outras pessoas também começarem a contar a delas.
Serviço:
Ópera Restaurante-Escola
- Rua Formosa, 467, Centro, São Paulo
- Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 11h às 15h
- Instagram: opera.restauranteescola
Brunch na Catedral da Sé
- Para datas e reservas, clique aqui
- Instagram: @brunchnacatedral
- Serviço de Valet nos fundos da Catedral – Praça João Mendes














































