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No extremo sul da capital, agricultores receberam uma nova agência financeira com cavalos, chapéus e um berrante. A cena revela uma São Paulo que produz, preserva e busca espaço para continuar vivendo da terra
O som do berrante atravessou a nova agência.
A mulher de chapéu levou o instrumento aos lábios e tocou diante de agricultores, produtores rurais, moradores e convidados. Atrás dela, as bandeiras do Brasil, de São Paulo e do Sicredi compunham o cenário de uma cerimônia que, à primeira vista, poderia ser igual a tantas inaugurações de agências bancárias.
Não era. Do lado de fora, cavalos esperavam diante da fachada. Dentro, homens e mulheres ligados à produção rural acompanhavam a abertura da primeira agência do Sicredi em Parelheiros, no extremo sul da capital paulista.

Era 22 de abril de 2026.
Cerca de 400 pessoas participaram da inauguração. Para quem chegava de outras regiões da cidade, a presença dos cavalos e o som do berrante ajudavam a revelar uma realidade que costuma desaparecer quando se fala de São Paulo: a maior cidade do país ainda guarda territórios onde a relação com a terra determina a rotina, o trabalho e a renda de milhares de pessoas.
Parelheiros reúne áreas de Mata Atlântica, propriedades rurais e produção agrícola. Frutas, hortaliças, legumes, flores e plantas ornamentais saem dali e chegam a diferentes pontos da capital.
A cidade que costuma ser lembrada por seus edifícios, avenidas e centros financeiros também depende do trabalho de quem planta, colhe e produz em seu extremo sul. Foi nesse território que uma cooperativa de crédito decidiu abrir uma agência. A chegada, porém, começou antes da inauguração.

Antes da agência, vieram os produtores
A relação do Sicredi com os agricultores de Parelheiros começou antes de a placa da agência ser instalada.
Em outubro de 2025, a cooperativa viabilizou a entrega de tratores a produtores locais por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Segundo a instituição, foi a primeira operação dessa linha registrada na cidade de São Paulo em mais de dez anos.
O crédito rural tem um peso particular em uma região onde a produção depende de investimentos que muitas vezes estão fora do alcance de pequenos agricultores.
Máquinas, infraestrutura, custeio da produção e melhorias nas propriedades exigem recursos. O acesso a esses recursos pode determinar a capacidade de uma família permanecer produzindo.
Parelheiros concentra uma parcela importante da agricultura familiar paulistana. Cerca de duas mil pessoas dependem diretamente dessa atividade na capital, segundo os dados apresentados na reportagem. Aproximadamente 600 produtores fazem parte da Associação dos Produtores Rurais de Parelheiros e Região (APRUPAR).

Para essas famílias, uma instituição financeira instalada no próprio território representa acesso mais próximo a crédito e orientação para a atividade rural.
O presidente da APRUPAR, Luciano Santos, resumiu a expectativa dos produtores durante a inauguração: “O meu desejo é que nossos agricultores façam bons negócios e que, juntos, tornemos o agro paulistano ainda mais forte.”
A frase poderia estar em qualquer cerimônia empresarial. Naquele espaço, cercada por agricultores de chapéu e botas, com mãos calejadas, ela ganhava outro sentido.

Quando o banco chega a cavalo
A cena dos cavalos diante da agência chamou atenção porque traduzia uma característica de Parelheiros que números e mapas dificilmente conseguem explicar. Aqueles animais estavam ali porque seus donos vivem de uma atividade rural dentro da cidade de São Paulo.
O encontro entre campo e instituição financeira acontecia no endereço de uma agência bancária. Dentro dela, o berrante voltava a tocar.
A cerimônia incorporou a identidade dos produtores da região. A celebração não foi construída apenas com discursos de executivos e autoridades. A presença dos agricultores fazia parte do próprio acontecimento.
Para uma comunidade acostumada a ouvir falar de desenvolvimento a partir de grandes obras, grandes empresas e grandes investimentos, a inauguração tinha outra dimensão.
Era o reconhecimento de uma atividade que existe todos os dias, mesmo quando quase ninguém da região central da cidade percebe.
Parelheiros produz, emprega e preserva. Parelheiros também precisa de crédito para continuar produzindo.

Uma São Paulo que pouca gente conhece
O distrito completa 199 anos em 2026 e conserva uma das maiores áreas rurais da capital.
A paisagem muda conforme se avança pelo extremo sul. O concreto perde espaço. As propriedades rurais aparecem entre áreas de vegetação e caminhos que levam às comunidades produtoras. A agricultura convive com a preservação ambiental e com atividades ligadas ao ecoturismo.
Essa combinação torna Parelheiros um território estratégico para São Paulo.
A produção agrícola ajuda no abastecimento da cidade. As áreas verdes contribuem para a proteção dos mananciais. As famílias que vivem da terra mantêm uma atividade econômica dentro de um território submetido a fortes pressões urbanas.
O desenvolvimento dessa região envolve, portanto, uma pergunta simples: como permitir que quem vive da terra continue vivendo dela? O crédito é uma das respostas possíveis.
Quando crédito significa continuar no território
A diferença entre ter acesso ao crédito e não ter pode aparecer em uma máquina nova, em uma estrutura melhor para produzir ou na capacidade de aumentar a atividade sem abandonar a propriedade.
O cooperativismo de crédito acrescenta outro elemento a essa relação. Na estrutura cooperativa, o usuário dos serviços financeiros também pode se tornar associado e participar das decisões da instituição. Os resultados são compartilhados de acordo com as regras do sistema e da movimentação de cada associado.
A proposta acompanha a história do próprio cooperativismo de crédito brasileiro.

Em 1902, o padre suíço Theodor Amstad ajudou a criar, no Rio Grande do Sul, uma cooperativa baseada na participação dos próprios integrantes da comunidade. A ideia atravessou mais de um século e chegou a diferentes regiões do país. Em Parelheiros, esse modelo encontra uma comunidade que procura instrumentos financeiros adequados à sua realidade.
A gerente regional da Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP, Elisângela Mancini, afirma que o trabalho com a região começou antes da abertura da unidade. “Queremos apoiar o desenvolvimento de Parelheiros. Mesmo antes da inauguração, já atuávamos na região, trazendo desenvolvimento e fortalecendo os negócios locais.”

A agência passa a concentrar serviços voltados também ao crédito rural, com atendimento especializado para produtores. O objetivo é aproximar o agricultor de linhas de financiamento e programas públicos destinados à agricultura familiar. Entre eles estão instrumentos como o Pronaf e documentos necessários para o acesso a políticas públicas.
O dinheiro que circula onde a produção acontece
O impacto do crédito não termina na propriedade rural. Quando um produtor investe, movimenta uma cadeia econômica ao redor dele.
A compra de equipamentos envolve fornecedores. A produção exige transporte. A comercialização movimenta compradores e comerciantes. O aumento da atividade gera novas necessidades dentro da própria comunidade.
Um estudo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) citado pelo Sicredi aponta que municípios com presença de cooperativas de crédito apresentam, em média, crescimento de 5,6% no Produto Interno Bruto (PIB) per capita, 6,2% no emprego formal e 15,7% no número de estabelecimentos comerciais. O levantamento também estima que cada R$ 1 concedido em crédito pelas cooperativas gere R$ 2,45 em renda para outros agentes da economia.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Em Parelheiros, porém, eles têm rosto.
São os agricultores que precisam financiar uma máquina, são as famílias que dependem da produção, são os pequenos negócios que precisam de capital para crescer. São pessoas que querem continuar trabalhando onde construíram suas vidas.
O campo dentro da maior cidade do país
O presidente da Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP, Jaime Basso, vê na chegada a Parelheiros a continuidade de uma história iniciada em uma pequena cooperativa no interior do Paraná.
A cooperativa que deu origem à instituição começou em 1988, em Palotina, com 35 associados, em um espaço cedido pela C.Vale. Quase quatro décadas depois, a instituição ampliou sua presença até chegar a Parelheiros.
A comparação feita pelo presidente ajuda a entender a proposta da expansão. “Hoje é um marco para nós. O cooperativismo de crédito começou em uma região simples do Rio Grande do Sul, em 1902, e ajudou a transformá-la em uma das mais prósperas do Brasil. O que fazemos é trazer esse mesmo propósito para Parelheiros.”

Uma instituição criada para atender necessidades econômicas de uma comunidade chega a um território onde agricultores e pequenos empreendedores também procuram acesso a recursos para desenvolver suas atividades. O cenário mudou, mas a necessidade continua reconhecível.
Uma agência para quem já estava ali
A inauguração terminou, os convidados foram embora e os cavalos deixaram a frente da agência. O berrante silenciou. Parelheiros, porém, continuou produzindo. Essa talvez seja a parte mais importante daquela manhã.
A agência não criou a agricultura de Parelheiros. Não criou os produtores. Não inventou a relação da comunidade com a terra. Essas pessoas já estavam ali.
O que mudou foi a chegada de uma instituição financeira disposta a atender uma atividade econômica que durante muito tempo esteve distante dos centros tradicionais do sistema bancário.
A agricultura familiar continua dependendo do clima, da produção, dos preços e das condições de comercialização. O acesso ao crédito não resolve sozinho esses desafios.
Pode, porém, abrir uma porta. E foi justamente diante dessa porta que os agricultores chegaram a cavalo. Dentro da agência, o berrante anunciou a inauguração. Para quem estava ali, talvez significasse algo ainda mais simples: ser visto.
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