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Na Zona Norte, o Jaçanã comemora 150 anos e um passado de progresso

da Redação DiárioZonaNorte

“Seja bem-vindo ao Sitio Guapira”. Algum habitante há 150 anos poderia recepcionar com cordialidade um forasteiro às terras longínquas da antiga São Paulo de Piratininga.

À base de lampião, sem energia elétrica e outros benefícios, os moradores daquela região aos pés da Serra da Cantareira viveriam por anos nas dificuldades. O progresso chegava em outros pontos da cidade, mas naquele região da Zona Norte eram poucos os benefícios.

Hoje um bairro dinâmico que ostenta um nome histórico, de Jaçanã, que divide seu território com o distrito do Tremembé.

Um século e meio de história

Nesta 2ª feira (14set2020), o Jaçanã completa  um século e meio de histórias da Zona Norte-Nordeste. Um grande progresso neste tempo todo, na sua área  de quase 8 quilômetros quadrados, que concentra uma população que deve estar chegando a 120 mil habitantes – o último censo é de 2010 com cerca de 94 mil.

Um  bairro que ficou famoso no mundo inteiro com a música Trem das Onze, de Adoniram Barbosa.

Ela repercutiu tanto que é mais conhecida do que Garota de Ipanema, de Vinicius de Moraes, e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Quem não ouviu e não conhece  a exaltação ao Jaçanã e ao trenzinho da Cantareira?

O DiárioZonaNorte poderia produzir páginas e mais páginas com as histórias e muitos “causos” envolvendo o bairro do Jaçanã – e seus personagens ilustres. Mas, desta vez, ficou concentrado em algumas pinceladas históricas da formação do bairro.

O início de tudo e, principalmente, na área de saúde. E, fechando a homenagem,  duas histórias autênticas de moradores da região que clareiam alguns pontos históricos.

Um passado de sacrifícios

Com muito sacrifício e suor, no meio das estradinhas de terra, a região foi se transformando, com mais gente chegando para ficar.

Em 1870, o sítio passou a ser conhecido  somente como Guapira, que já vinha abreviado de Uroguapira, já que antes corria a notícia que no local havia ouro.

O nome Jaçanã só foi oficializado em 1930, por causa da ave da época com o mesmo nome e que era característica em grandes proporções na região.

Até hoje, o nome Guapira é lembrado na principal avenida que corta o bairro e no primeiro clube social (e principal de campo) inaugurado em 1918 , no meio das árvores — que se dizia popularmente na época “no meio do mato”.

Trenzinho da Cantareira

O lugar foi sendo povoado com a chegada do trem da Estrada de Ferro Cantareira ou Tramway da Cantareira–  que saia do Pari com destino à Cantareira, e depois com ramal até Guarulhos –, que incialmente transportava material de construção de uma adutora para fornecimento de água à cidade e, com o decorrer dos tempos,  foi abrindo para espaço passageiros – o único meio de transporte mais rápido.

Os sítios e fazendas aumentavam na região com chegada de mais famílias e trabalhadores com a criação de porcos, galinhas e outros animais. Era farta a produção de frutas e hortaliças.

E  depois foram abertos pequenos comércios (farmácia, padaria e outros) e depois  igreja, escolas e posto médico. Com a venda de terrenos de sitios e fazendas, casas foram sendo construídas nos entornos.

 O leprosário que virou hospital

E os anos passaram e, por ter bom um clima de serra, a região era excelente para asilos, sanatórios e clínicas de saúde.  O lugar passou aser referência hospitalar. Em 1904, surge o Leprosário Guapira,  da Irmandade da Santa Casa de Misericórida de São Paulo, em uma área de 160 alqueires, junto ao Sítio Guapira.

Com o tempo, o prédio projetado pelo arquiteto Victor Andrigo e finalizado pelo engenheiro Ramos de Azevedo recebeu outros seis nomes inicialmente para doentes de hanseníase e depois de tuberculose.

Em 1932, o local passou a se chamar Hospital São Luiz Gonzaga. Houve novas construções de alas e especialidades médicas durante anos seguintes. Em 1968 já era um hospital geral. Mas dois anos depois, em 1970, após uma crise financeira, o hospital foi desativado —  retornando às suas atividades, em 1988.

Nos dias atuais, o hospital da região continua atendendo os moradores do Jaçanã, Tremembé e demais bairros da Zona Norte – e até de municípios próximos, como Guarulhos e Mairiporã – e estar no atendimento de acidentes das rodovias Fernão Dias e Presidente Dutra.

O São Luiz Gonzaga guarda alguns tesouros artísticos  em suas dependências. Obras da pintora Tarcila do Amaral, Alfredo Volpi, Claúdio Felipe Bonadei, Francisco Rebolo e o artista romeno Samson Flexor .

Asylo antes e agora hospital geriátrico

E os anos passaram e, por ter bom um clima de serra, a região era excelente para asilos, sanatórios e clínicas de saúde.  E Guapira passou a ser referência hospitalar. Em seguida, veio a inauguração em 1911 do Asylo de Inválidos, também com a direção da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Chegou abrigar 600 pacientes.

Em 2005, foi transformado em Hospital Geriátrico e de Convalescentes Dom Pedro II, e além de continuar abrigando a população de enfermos sem possibilidade de alta médica, passou a prestar assistência médica e multidisciplinar especializada em geriatria, além de ser pólo de ensino e pesquisa na mesma área.

Hoje tem capacidade para abrigar 225 pacientes e oferece serviços especializados  em geriatria e cuidados prolongados com atendimento médico e de enfermagem 24 horas, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição, dentista, serviço social, psicologia e um ambulatório externo que oferece atendimento à comunidade local.

Esse hospital geriátrico passou a ser uma das mais antigas instituições assistenciais e hospitalares em funcionamento em São Paulo, cujo modelo de atendimento público, especialmente à população carente, marcou a história do desenvolvimento da região e da cidade. 

Moradores e as recordações de tempos passados

(*) por Luiz Toneti (14/10/2010) === Jaçanã, nasci, cresci e quero aqui ficar até o último suspiro desta minha vida. Quando estudei sua história no Ginásio, não acreditei que o bairro já foi terra indígena onde aves de mesmo nome habitavam de forma ordeira o que antes se chamava de Guapira, que deu origem ao Clube de Campo Guapira e à Avenida Guapira.

Lembro vagamente do hospital São Luiz Gonzaga onde se tratavam os leprosos e somente se podia entrar no bairro depois de minucioso exame médico. Guardo em minha mente cortejos fúnebres que seguiam a pé até o cemitério do bairro do Tremembé e o comércio parava por alguns minutos, baixavam suas portas em respeito aos mortos que seguiam para sua morada eterna.

Poucos devem se lembrar do acidente que ocorreu com o trenzinho do Jaçanã onde hoje é a Avenida Cabuçu. Cena triste onde perdi um tio adolescente o que fez com que meus avós vendessem imóveis situados na Avenida Guapira em razão da perda irreparável de um filho querido.

E do Tião Padeiro, que com sua carroça e buzina acordava a todos de madrugada com o cheiro de pão fresquinho. Tempo saudoso. A confiança era tanta que a quantidade de pão adquirido era marcada numa caderneta, e pagava-se no final do mês. Este Senhor, felizmente, ainda vive.

Com o passar do tempo o bairro foi se transformando e o que antes era vendido com uma carroça, passou a ser oferecido com uma Kombi, mas a buzina continuava chamando seus clientes. Eram mais de mil pães entregues diariamente de porta em porta no bairro do Jaçanã. Tião Padeiro, homem rude, rústico, mas com sua força de vontade de trabalho criou com dignidade seis filhos bem encaminhados na vida.

Não posso falar do bairro Jaçanã sem lembrar de Dona Francisca, a parteira espanhola. Quem morou no bairro se lembra muito bem que não havia médico no local e quem fazia o parto era Dona Francisca. Senhora que nos deixou saudades.

Na minha mente, além dos fatos narrados, me lembro dos eucaliptos que cercavam a rua que nos levava até o hospital São Luiz Gonzaga. Quem caminha entre a cidade de São Paulo e o Município de Guarulhos e passa pelo bairro do Jaçanã, não sabe que pisa em solo santo, que a família do médico Sebastião Laet mostrou com escavações a existência de fósseis indígenas no local.

Quem já ouviu falar na Rua Irmã Filomena, Irmã Emerenciana, entre tantas irmãs, sabiam que elas trabalhavam no Hospital São Luiz Gonzaga? Quanta história num só bairro para se escrever em tão curto espaço de tempo.

(*) por José Eduardo Soares (25/07/2006)  === Mudei para o Jaçanã em 1961. Era tudo muito diferente. A Av. Guapira era bem estreita e a maioria dos imóveis eram residenciais. A Guapira e praticamente o bairro terminavam na esquina com a Luis Stamatis (naquele tempo era Av. Edu Chaves), no imenso portão do Asilo dos Invalidos D. Pedro II. Atrás do Asilo ficava o Ginásio Julio Pestana e mais além, depois da linha do trem e do antigo campo do Guapira (hoje Av. Antonio Cesar Neto) ficava o Hospítal São Luiz Gonzaga, antigo Hospital dos Leprosos. Íamos muito ao Cine Coliseu na av. Edú Chaves e ao Cine Aparecida na Av. Jaçanã.

Em 1964 foi inaugurado o GEPEF que abrigou os alunos do ginásio. O Julio Pestana ficou só com o primário juntamente com o Grupo Escolar de Santa Terezinha. Do lado direito de quem desce a Guapira entrava-se pela R. Francisco Rodrigues onde havia 2 chácaras e um imenso terreno de onde se tirava argila para a Aremina (industria de tijolos refratarios). No final dessa rua ficava a Cinematografica Maristela que com tantos filmes bons alegrou gerações. Nessa época já estava abandonada.

Tinha também os bailes do Guapira na av. Luis Stamatis (ainda está lá) onde a moçada se encontrava. A rivalidade dos alunos do GepefSanta Rita e Aparecida era grande no futsal. Quando jogavam, os colégios ficavam repletos de alunos das duas partes porque geralmente o pau quebrava. Isso sem contar com o Colégio Albino Cesar e o Cedom. O Gepef tinha uma seleção de Futsal que jogava aos sábados à tarde.

Quem chegava tarde não conseguia entrar tamanha multidão. Em dois anos só perdeu um jogo, para o CPOR. Era um time maravilhoso que até hoje permanece na memória de quem viu. Para terminar não posso deixar de falar do famoso trem do Jaçanã, que virou o trem do Adoniram só por causa da rima. Ele nunca morou lá. Me lembro da ultima viagem. Ele passou por onde hoje é a Av. Abilio Pedro Ramos por volta das 18.00hs tocando insistentemente seu apito. Era a Maria Fumaça dando seu adeus.


(*) Antigos moradores do Jaçanã e região publicaram suas memórias nas páginas do “São Paulo, Minha Cidade (clique em cima), produzido pela São Paulo Turismo-SP Turis.

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