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A modernização do Campo de Marte, na Zona Norte de São Paulo, abriu uma nova frente de impacto sobre a cidade. O avanço da infraestrutura aeroportuária, que promete melhorar a operação da aviação executiva, passou a interferir diretamente no mercado de construção civil, afetando projetos em praticamente toda a capital e em municípios vizinhos.

O ponto de tensão está na mudança do modelo de operação do aeroporto, que deixa de funcionar apenas sob regras visuais e passa a operar também por instrumentos. Esse tipo de navegação exige trajetórias mais longas e precisas para pousos e decolagens, o que amplia as áreas de proteção no entorno e impõe novas análises para edificações.

Na prática, empreendimentos localizados a até 20 quilômetros do aeroporto poderão precisar de autorização do Comando da Aeronáutica. Isso inclui boa parte da cidade de São Paulo e regiões metropolitanas como Guarulhos, Osasco e Barueri.

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Ilustração artística do Campo de Marte, após a privatização

Novas regras de altura mudam lógica de projetos

Para o Ministério de Portos e Aeroportos, o projeto insere o Campo de Marte em uma agenda mais ampla de requalificação da infraestrutura aeroportuária voltada à aviação regional e executiva, segmento que ganha relevância com a saturação de terminais como Aeroporto de Congonhas.

Com a transição para operações por instrumentos, foram definidos limites técnicos para construções no entorno do aeroporto.

Em áreas mais próximas, dentro de um raio de cerca de 3,5 quilômetros, edificações acima de aproximadamente 40 metros (entre 12 e 13 andares) passam a exigir autorização. Em regiões mais amplas, dentro do raio de 20 quilômetros, o limite gira em torno de 100 metros (entre 25 e 30 andares), podendo variar conforme a topografia.

Essas regras não significam proibição automática de novos projetos, mas introduzem uma etapa adicional no licenciamento.

Cada empreendimento precisa ser analisado individualmente pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), órgão do Comando da Aeronáutica (Comaer), responsável por avaliar interferências na navegação aérea.

Esse novo cenário altera a lógica de desenvolvimento imobiliário em São Paulo. Projetos que antes seguiam parâmetros urbanísticos municipais agora precisam considerar também variáveis do espaço aéreo.

Obras no Campo de Marte resultou no corte de 220 árvores na área próxima da Braz Leme

Licenciamento mais lento e incerteza no setor

O impacto já é sentido no mercado. Incorporadoras relatam dificuldade para obter respostas técnicas sobre o gabarito permitido em seus projetos. Segundo o Secovi-SP, há casos em que os processos ficam sem definição enquanto os estudos do espaço aéreo seguem em andamento.

A consequência direta é a paralisação de parte dos lançamentos. Estimativas do setor indicam que entre 20 e 30 empreendimentos já foram afetados nas últimas semanas, especialmente em bairros como Bela Vista, Perdizes, Barra Funda e regiões próximas ao eixo central.

Há também um impacto potencial mais amplo. A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias calcula que até 90% dos projetos previstos para a cidade possam passar por análise do Comando da Aeronáutica. Em valores de mercado, isso representa cerca de R$ 85 bilhões em vendas.

Por que o impacto vai tão longe

A explicação está na forma como funcionam os voos por instrumentos (IFR).   Diferentemente da navegação visual, que depende das condições climáticas, esse modelo utiliza sistemas eletrônicos que guiam a aeronave desde distâncias maiores até a pista.

Isso exige corredores aéreos livres de obstáculos relevantes. Edificações muito altas ao longo dessas rotas podem comprometer a segurança das operações, o que justifica a ampliação do perímetro de análise.

Apesar disso, especialistas reforçam que o mapeamento não estabelece um bloqueio automático. Ele cria uma base técnica para avaliação caso a caso.

Obras entregues e próxima etapa depende de órgãos reguladores

A modernização do aeroporto foi conduzida pela PAX Aeroportos, empresa controlada pela XP Asset. As obras incluíram nova taxiway, requalificação da pista, melhorias na drenagem e sistemas de apoio à navegação.

O investimento, na casa de R$ 120 milhões, prepara o aeroporto para operar com maior regularidade, reduzindo cancelamentos em dias de baixa visibilidade.

Agora, o início efetivo das operações por instrumentos depende de homologação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e autorização do DECEA. Não há prazo definido para essas etapas.

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Campo de Marte – 1940

Aeroporto estratégico para São Paulo

Inaugurado em 1929, o Campo de Marte é um dos principais polos da aviação executiva do país. Além disso, abriga operações essenciais, como voos policiais, transporte de órgãos e atividades de formação de pilotos.

A modernização reforça o papel do aeroporto dentro do sistema aéreo da capital, especialmente em um cenário em que terminais como Congonhas operam próximos do limite.

A expectativa do setor aeroportuário é que o local absorva parte da demanda e abra espaço para novas tecnologias, como aeronaves elétricas de decolagem vertical.

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Campo de Marte – 1940

Entre o avanço da aviação e o desafio urbano

A transformação do Campo de Marte expõe um conflito típico das grandes cidades. De um lado, a necessidade de modernizar a infraestrutura e ampliar a capacidade de mobilidade aérea. De outro, a dinâmica do mercado imobiliário, que depende de previsibilidade para investir.

Hoje, o que se vê é um período de transição. As regras ainda estão em consolidação, os estudos técnicos seguem em andamento e o setor de construção aguarda definições mais claras.

Enquanto isso, projetos ficam em compasso de espera e a cidade passa a redesenhar, na prática, seus limites de crescimento vertical.

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