Piscinão Lauzane Desapropriação Projeto
Localização do Piscinão do Córrego Lauzane: Av. Direitos Humanos e pelas ruas Amaro Alves Tenório e Rodrigues Alvarenga
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A região do Lauzane Paulista, na Zona Norte de São Paulo, deve  passar por uma transformação importante nos próximos anos.

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA), deu o primeiro passo para a construção de um reservatório (piscinão) para conter cheias na sub-bacia do córrego Lauzane, área que há décadas enfrenta problemas recorrentes de alagamentos.

Estudo de Viabilidade Ambiental – EVA tem data de novembro de 2025 e foi publicado pela SVMA em março de 2026,  exatos dez anos após a Prefeitura divulgar os resultados de um outro estudo chamado Caderno de Bacia Hidrográfica (CBH) Mandaqui – um instrumento de planejamento e gestão que trata exclusivamente da questão da drenagem urbana, de autoria da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH) .  

O projeto faz parte do plano de metas do município para o período de 2025 a 2028 e está sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras – (SIURB). A proposta ainda depende de licenciamento ambiental, onde o EVA é ferramenta essencial,  mas já revela um diagnóstico detalhado sobre a origem das enchentes e as possíveis soluções.

enchentes
Bacia Hidrográfica do Córrego Mandaqui

Uma região moldada pela água e pela urbanização

A história da bacia do córrego Mandaqui, onde está inserido o Lauzane, ajuda a explicar o problema atual. A extensão total de seus cursos d’água é de aproximadamente 63 Km.  Antes da urbanização, a região era formada por vales naturais, áreas alagáveis e vegetação abundante. Os cursos d’água seguiam seu fluxo natural e tinham espaço para absorver as chuvas.

Com o crescimento da cidade, principalmente a partir da década de 1950, esse cenário mudou. O avanço dos loteamentos, a pavimentação das ruas e a ocupação dos fundos de vale reduziram drasticamente a capacidade do solo de absorver água.

O que antes era área de drenagem natural passou a concentrar construções e vias importantes. O córrego foi canalizado e, em muitos trechos, perdeu sua função original de amortecer as cheias. O resultado aparece todos os anos no período de chuvas.

Onde está o problema hoje

A sub-bacia do córrego Lauzane apresenta diferentes níveis de risco de alagamento. As áreas mais críticas estão justamente nos pontos mais baixos, onde a água naturalmente se acumula.

Esses pontos coincidem com vias de grande circulação, como a Avenida Direitos Humanos, a Avenida Engenheiro Caetano Álvares, a Avenida Imirim e a Avenida Conselheiro Moreira de Barros. Quando chove forte, o impacto não é só para quem mora na região. O trânsito de toda a Zona Norte sofre.

Segundo o estudo, eventos de chuva intensa geram prejuízos sociais e econômicos, além de comprometer a mobilidade urbana.

Piscinão Lauzane Desapropriação Projeto
planta base do futuro piscinão do córrego Lausane

A proposta na prática

A principal solução apresentada é a construção de um reservatório de contenção de cheias, conhecido como piscinão. Ele será do tipo “off-line”, ou seja, não fica diretamente no leito do córrego, mas conectado a ele para armazenar o excesso de água durante as chuvas.

O local escolhido fica no bairro do Imirim, em uma área delimitada pela Avenida Direitos Humanos e pelas ruas Amaro Alves Tenório e Rodrigues Alvarenga – na área de abrangência da Subprefeitura Santana/Tucuruvi/Mandaqui.

Nos anos 2000, a área era utilizada como apoio às atividades da empresa de ônibus Sambaíba, nas proximidades de uma garagem na rua Quirinópolis nº  62.

De acordo com o projeto, o reservatório deverá ter uma área de 4 mil m², com capacidade de armazenamento de aproximadamente 100 mil m³. Terá o formato de trapézio, com 32 metros de profundidade.

Parque Linear ou aproveitamento da laje

Ao contrário do proposto no  Caderno de Bacia Hidrográfica (CBH) Mandaqui , que transformaria a área do piscinão em um parque linear (veja a ilustração), o EVA propõe que o reservatório seja coberto por uma laje que abrigaria uma área de utilização pública, tal qual o piscinão da  Savic – no Jardim Brasil, que retém as cheias do Córrego da Paciência.

Piscinão Lauzane Desapropriação Projeto
Proposta de parque linear para o piscinão Caderno de Bacia Hidrográfica (CBH) Mandaqui

Não é uma escolha aleatória, já que o terreno funciona, naturalmente, como ponto de acúmulo de água desde antes da urbanização da região.

Durante uma chuva forte, o reservatório receberá parte do volume que sobrecarregaria o córrego. Depois, essa água é liberada de forma controlada, reduzindo o risco de enchentes.

O estudo também menciona soluções complementares, como jardins de chuva e áreas de infiltração, que ajudam a diminuir o volume de água escoando para o sistema.

Os benefícios esperados

A principal promessa é a redução dos alagamentos na região. Com isso, a expectativa é diminuir prejuízos para moradores, comerciantes e motoristas.

Além disso, o projeto pode trazer ganhos indiretos, como melhoria na circulação viária e maior segurança em períodos de chuva intensa. Também há previsão de geração de empregos durante a execução da obra.

Piscinão Lauzane Desapropriação Projeto
Reprodução Diário Oficial da Cidade de São Paulo – Dezembro 2023

Os entraves que podem travar a obra

O projeto, no entanto, está longe de ser simples. Um dos principais desafios é a desapropriação da área onde o reservatório será construído. O terreno é privado e já foi ocupado pela garagem da Sambaíba.

A área foi declarada de utilidade pública (DUP) pela Prefeitura de São Paulo, em 21 de dezembro de 2023, por meio do decreto nº  63.060,  mas esse tipo de processo costuma ser demorado e pode enfrentar disputas judiciais.

Outro ponto crítico é o custo. O estudo classifica o reservatório como de média a alta capacidade, o que indica um investimento elevado. Em um cenário de restrições orçamentárias, isso pode impactar o cronograma.

Há ainda os impactos locais durante a obra e os moradores da região já estão traumatizados pelo impacto das obras do corredor de ônibus da Avenida Imirim. 

Ruído, aumento de tráfego de caminhões, interferência em redes de infraestrutura e incômodos para moradores estão previstos.

Impactos sociais e ambientais em jogo

O próprio estudo reconhece efeitos negativos, como desapropriação de imóveis e pressão sobre a infraestrutura local. Ao mesmo tempo, aponta que esses impactos podem ser mitigados com programas específicos, incluindo comunicação com a população e compensações ambientais.

Na prática, o sucesso do projeto depende menos do desenho técnico e mais da execução. Sem gestão eficiente, obras desse tipo tendem a atrasar ou não entregar o resultado prometido.

Um problema antigo que exige solução estrutural

A análise histórica mostra que o problema das enchentes não surgiu agora. Ele é resultado de décadas de ocupação urbana sem planejamento adequado para drenagem.

O reservatório proposto tenta corrigir esse desequilíbrio. Ele não resolve tudo sozinho, mas pode reduzir significativamente os impactos.

A questão central é em quanto tempo a cidade conseguirá avançar do estudo para a obra? Mais uma década?  Sem isso, o diagnóstico se soma a outros que já apontaram o mesmo problema ao longo dos anos.

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