
- Problemas no terminal expõem falhas da concessão e colocam em dúvida futuro do empreendimento
Quem passa pelo Terminal de Ônibus integrado à Estação Santana do Metrô, na Zona Norte de São Paulo, encontra hoje um cenário que mistura promessa de modernização com problemas básicos ainda sem solução.
Relatos de escuridão à noite, sujeira, mau cheiro e sensação de insegurança são frequentes entre usuários que circulam diariamente pelo local. O terminal recebe cerca de 130 mil pessoas por dia e opera no limite de uma estrutura antiga, inaugurada em 1975, que já não acompanha o volume atual de passageiros.
A situação chama atenção porque, desde 2019, a área está sob responsabilidade da Unitah Empreendimentos e Participações SPE S.A., que assumiu a operação, manutenção, limpeza e segurança dentro de um contrato de concessão com o poder público. A concessionária também é responsável pelo Terminal Parada Inglesa.
Ao mesmo tempo, o local é peça central de um projeto maior, que prevê a construção de um shopping center integrado ao terminal e à estação. A proposta, no entanto, enfrenta uma série de entraves técnicos e legais e está longe de sair do papel.

Usuários relatam escuridão e falta de manutenção
As reclamações mais recorrentes envolvem a iluminação do terminal, especialmente no período noturno. Usuários relatam dificuldade de circulação em áreas pouco iluminadas e aumento da sensação de insegurança. Nas redes sociais, perfis da região reproduzem relatos de usuários vítimas de roubos de celulares, na área do terminal.

Também são frequentes as queixas sobre limpeza, principalmente no entorno dos quiosques, com relatos de mau cheiro em pontos onde há venda de alimentos.
Um trabalhador que atua no local, ouvido sob condição de anonimato, afirma que a percepção de quem convive com o terminal diariamente é de piora após a concessão. Segundo ele, a iluminação era mais eficiente quando a administração era feita pela Companhia do Metropolitano de São Paulo.

Metrô admite falhas, aponta fiscalização e confirma multa
Em nota ao DiárioZonaNorte, a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) afirma “que os terminais de Santana e Parada Inglesa fazem parte do conjunto de 13 equipamentos concedidos e que a responsabilidade pela operação e manutenção é da Unitah Empreendimentos e Participações SPE S.A.
Segundo a empresa, há fiscalização contínua do contrato, com registros mensais e evidências fotográficas. As irregularidades são formalizadas e devem ser corrigidas pela concessionária dentro de prazos estabelecidos.
O Metrô confirma que já houve processo de sanção administrativa contra a concessionária por falhas em conservação, manutenção, vigilância, limpeza, fiscalização e jardinagem. O caso foi encerrado com aplicação de multa.
Sobre a iluminação, a companhia informa que a concessionária foi notificada em março de 2026 e que o problema já teria sido corrigido.
Apesar disso, usuários ouvidos pela reportagem afirmam que a iluminação segue insuficiente em diferentes pontos do terminal, principalmente à noite.
A empresa também destaca que qualquer intervenção no local depende de autorização do Departamento do Patrimônio Histórico e do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, e que questões relacionadas ao projeto devem ser tratadas diretamente com a concessionária.

Projeto de shopping esbarra em patrimônio tombado
O novo terminal de ônibus depende diretamente do futuro Shopping Santana, previsto como parte da exploração comercial da área e que enfrenta dificuldades legais desde a fase inicial. No projeto, ele ocuparia toda a área embaixo do empreendimento.
A Estação Santana e seu entorno são protegidos por tombamento municipal, o que impõe regras rígidas para qualquer intervenção. A legislação exige preservação das características arquitetônicas, das áreas livres e da visibilidade da estrutura original.
Na prática, isso limita o tipo de construção possível e obriga adaptações que impactam diretamente o projeto.

Processo aponta incompatibilidade do projeto
O pedido de construção do shopping tramita desde 2020 sob o processo nº 6025.2020/0014784-4.
Pareceres técnicos do Departamento do Patrimônio Histórico apontaram incompatibilidade entre o projeto apresentado e as diretrizes de preservação. Entre os principais problemas estão a proximidade excessiva da construção em relação à estação e a interferência na leitura da estrutura de concreto.
Mesmo após revisões, as análises mantiveram restrições, indicando que as exigências não foram plenamente atendidas.

Exigências técnicas aumentam custo e complexidade
A eventual aprovação do projeto depende do cumprimento de diretrizes que alteram o desenho original.
Entre as exigências estão o afastamento da construção em relação à estação, a conexão preferencialmente subterrânea, a preservação das áreas livres e a diferenciação arquitetônica entre os edifícios.
Há um ponto que chama atenção. A própria concessionária indicou que a conexão subterrânea não estava prevista no contrato original, o que revela um descompasso entre o que foi licitado e o que passou a ser exigido.

Obras irregulares agravaram situação
Outro fator que pesa contra o avanço do projeto é o histórico recente de intervenções irregulares.
O processo nº 6025.2021/0005677-8 trata de obras realizadas sem autorização na área tombada. Vistorias identificaram danos ao patrimônio e à ambiência do entorno.
O caso resultou em multa e levou à assinatura de um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, que prevê a correção das irregularidades.

Quiosques viram foco de conflito
Os quiosques instalados no terminal são um dos principais pontos de tensão.
Dos 110 existentes, cerca de 60 foram removidos por estarem em áreas que comprometiam a preservação do patrimônio. Os demais permanecem de forma temporária, com prazo limitado e sujeito a revisão. Em março de 2026, a concessionária solicitou uma prorrogação do prazo para a retirada dos quiosques (que já estão vazios) e foi atendida pelo órgão do patrimônio.
A permanência dessas estruturas depende do cumprimento das obrigações assumidas pela concessionária junto aos órgãos de preservação.

Futuro do Terminal Santana segue indefinido
Apesar da concessão e das promessas de transformação, o Terminal Santana segue em um cenário de indefinição.
O projeto do shopping ainda depende de ajustes relevantes para atender às exigências técnicas. Ao mesmo tempo, problemas operacionais continuam sendo relatados por quem utiliza o espaço diariamente.
O caso expõe falhas de planejamento na concessão, que não considerou plenamente as restrições do patrimônio tombado.
Enquanto isso, a modernização prometida segue sem prazo claro para acontecer.
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