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Crônica do cotidiano: A última caçada

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Tempo de Leitura: 6 minutos

caçada

por Rafic Ayoub (*)

<< Crônica 6 >> === Confesso que sempre me emociona ouvir a inesquecível música “Assum-Preto,  de autoria da dupla Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, que considero um dos mais belos poemas de todo cancioneiro popular brasileiro, principalmente pelo seu  inspirado  verso que compara  o  roubo cruel  da visão  de um pássaro de cantar  maravilhoso e tornado cego com um espinho de laranjeira para que cantasse melhor, com o roubo do grande  amor do poeta, que era a luz dos olhos seus! De uma beleza simplesmente magnífica!

E toda vez que a escuto, imediatamente me vêm à memória algumas lembranças inesquecíveis dos velhos e bons tempos de menino, na querida cidade mineira de Monte Carmelo como, por exemplo, de meu querido e saudoso irmão Abdo Ayoub, cujo talento,  para o  profundo desgosto de minha mãe, era voltado para a triste arte de criar passarinhos, chegando a manter em cativeiro mais de 20 diferentes  espécies nativas da região.

Como uma prática consagrada entre todos os criadores de pássaros da cidade, esses indefesos passarinhos, além de postos para brigar entre si chegando a provocar, às vezes,  até a morte de um deles, tinham também suas gaiolas cobertas por grossas capas de pano preto durante todo o dia, para estimular  seus pungentes  cantos de dor e de tristeza.

Em minha casa, essa prática durou até que, numa linda manhã de primavera, indignada com todo esse sofrimento,  minha mãe abriu as portas de todas as suas gaiolas  e libertou para sempre  todos os passarinhos  até então mantidos em cativeiro pelo meu irmão, que chorou, esperneou e, depois de alguns convincentes  tabefes, acabou se conformando com essa tão sábia decisão dela.

A ave do amor

Curiosamente, uma cruel mentira  divulgada naquela época, afirmava  como  terna  verdade,  que o coração  torrado e transformado em pó de um anu-branco, uma ave  pouco  comum na região, de bico grosso e de cauda longa, com  cerca de 30 cm de tamanho,  se atirado sobre a garota amada, ela cairia imediata e definitivamente de amores  por quem a atingiu, fosse branco, negro, pobre ou rico!

Nem é preciso  explicar  que essa espécie  já rara de anu-branco praticamente  quase  foi à extinção em toda Monte Carmelo e região, tamanha procura e crueldade do bando de interessados em testar a eficácia do método nas conquistas amorosas que, ao contrário do prometido, provocava  mesmo era o asco e a ira das mais lindas garotas da cidade pela sujeira em  seus cabelos e em suas melhores roupas de sair!

Anos depois, percebi que talvez o mais grave problema  imposto pela adolescência,  motivado naturalmente pela pouca idade e experiência,  é a dificuldade para entender e definir sentimentos, emoções e, principalmente,  a certeza de saber diferenciar o  que é certo  do que é errado.

As peripécias de adolescentes

Além de violar e destruir caixas de marimbondos com setas de papel jornal afiladas com pontas de espinhos de babaçu, eu e meus amigos adolescentes  tínhamos outro mórbido prazer ainda pior, que era o de  simplesmente matar indefesos e inofensivos  passarinhos  a golpes certeiros de estilingues, apenas pelo prazer de produzir marcas em nossas forquilhas, numa bizarra competição para saber quem matava mais passarinhos !

Lembro-me bem e com profunda  dor  no coração e, principalmente,  na alma, de uma extraordinária caçada que eu fiz, em plena sexta-feira da paixão,  nos campos cerrados ao redor da cidade.

Armado daquela vez com uma espingarda municiada  com cargas de chumbo e pólvora, socadas  com buchas de papel ao longo de todo o cano com  uma longa vareta metálica , os tiros eram  disparados por pequenas espoletas  detonadas  por um  gatilho existente na parte superior da corona.

Meu velho e sábio pai sempre me recomendava  observar o exemplo dos animais carnívoros , que matam suas presas só para se alimentarem, enquanto que os homens, infelizmente,  matam,  na maioria das vezes,  pelo simples prazer de matar!

Porém, além do pecado de ter sido  cometido em plena sexta-feira da Paixão,  essa caçada abalou profundamente não só a minha autoestima e  segurança,  mas também,  as minhas próprias convicções religiosas e espirituais.

Tudo começou quando eu me encontrava a caçar no meio da tarde em pleno campo cerrado e sob uma fina chuva  fria,  quando avistei um solitário  anu-branco pousado no alto de um grande pé de jatobá e, aproximando-me devagarinho com a  espingarda já devidamente  carregada,  posicionei-me  bem debaixo dele, fiz a mira e disparei.

Os desacertos da pontaria

Até aquele dia, eu sempre me gabava de ser um bom caçador, de excelente pontaria, calma  e muita frieza na hora de disparar os tiros, porém, naquele momento, falhei miseravelmente, fazendo com que o anu-branco voasse para árvores cada vez mais distantes.

Perseguindo obstinadamente esse pássaro branco por todo o campo, tinha a sensação de que ele me provocava, desafiando-me a atingi-lo , pois ele aguardava que eu me aproximasse das árvores em que pousava,  esperava que eu o mirasse com a minha arma e atirasse de novo, de novo e de novo, sem nunca conseguir acertá-lo!

Já com minhas roupas completamente molhadas pela chuva  que continuava caindo fina e fria naquela fatídica sexta-feira da Paixão e preocupado em não perder de vista os deslocamentos do  anu-branco que eu perseguia cada vez mais raivosamente, não percebi  que  a capanga de algodão  em que eu carregava a minha munição também se molhara.

Finalmente, pousado sobre um velho angico, o anu-branco ficou esperando mais uma vez que eu me aproximasse, apontasse para ele, puxasse o gatilho e,  para a minha grande frustração, constatar  mais uma vez que o tiro falhara,  em razão da chuva ter molhado a carga de pólvora, papel  e chumbo no cano da espingarda.

Rogando pragas aos céus, comecei a desmontar e a retirar toda carga entupida no cano  da espingarda, com a ajuda da longa vareta metalizada e de uma agulha de costurar sacos de cereais, que era usada para limpar o “ouvido” da arma, que é o orifício conectado à base do cano da arma  e onde  se coloca a espoleta para ser detonada pelo gatilho e, assim, provocar o disparo.

Segurando na mão esquerda a agulha de costurar sacos toda suja de pólvora usada para limpar o ouvido da espingarda,  com a mão direita  eu tentava empurrar para baixo  a longa vareta metálica para atingir e desentupir as cargas de papel, chumbo e pólvora molhadas que entupiam o cano.

A mensagem deixada nos ares

E num último esforço para atingir as cargas molhadas, forcei a longa vareta com ambas as mãos superpostas,  esquecido de que tinha na mão esquerda a agulha suja de pólvora com a ponta voltada para baixo, exatamente em direção ao dedo polegar da mão direita , quando a carga no interior do cano cedeu repentinamente e a agulha, então na minha mão esquerda, desceu e penetrou meu dedo polegar da mão direita, furando-o de lado a lado.

A imagem aterrorizante de meu dedo trespassado pela grande agulha de costurar sacos toda suja de pólvora fez com que eu, de imediato, a arrancasse com um forte puxão e, curiosamente, sem  que  escorresse  uma única gota de sangue, talvez pela ação da própria pólvora, cuja cor escura trago até os dias de hoje impregnada como um selo definitivo em meu polegar da mão direita.

Atordoado pelo desfecho terrível dessa tão frustrante caçada, sentei-me  todo molhado e  trêmulo ao pé do angico, tentando amarrar  meu polegar  ferido com um paninho  de nylon sujo que eu carregava na capanga  para limpar a arma.

E, de repente,  olhando para cima, tive uma visão fantástica  e de um esplendor indescritível  que, confesso, até hoje difícil de compartilhar, sob risco de passar por mentiroso, bêbado ou drogado, porém,  que me fez enterrar ali mesmo e para sempre, a minha velha  espingarda de caça!

Fortemente emocionado e sem conseguir conter o choro, vi o anu- branco subindo de galho em  galho  até o alto daquele grande angico e olhando-me  fixamente,  transformou-se repentina e milagrosamente num lindo ser  iluminado que,  abrindo um par de asas  enormes, alçou  um último  e definitivo  voo rumo aos céus!

Perplexo  com o que acabara de testemunhar, acompanhei com o meu olhar ainda hipnotizado,  uma  pequena e delicada  pluma branca que, esvoaçando devagarinho, devagarinho por entre os galhos do grande angico,  caiu diretamente sobre a palma de minha mão ferida, provocando em mim um choro ainda mais compulsivo e doloroso,  a romper a solidão triste e silenciosa do cerrado naquela inesquecível  tarde chuvosa de sexta-feira da paixão!

Comentários e sugestões: redacao@diariozonanorte.com.br


(*)  Rafic Ayoub, jornalista pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade pela FESPSP – Faculdade Escola de Sociologia Política de São Paulo, é também poeta, dramaturgo e autor do recém-lançado livro  “ Miserere Nobis – Crônicas do Cotidiano”. Atualmente é consultor especializado em Comunicação Corporativa Integrada.


Nota da Redação: O artigo acima é totalmente da responsabilidade do autor, com suas críticas e opiniões, que podem não ser da concordância do jornal e de seus diretores.

 

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