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Antes de se tornar um dos principais centros de compras da Grande São Paulo, o terreno às margens da Rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos, abrigou uma das fábricas mais emblemáticas da história industrial brasileira: a Olivetti.
Da máquina de escrever ao computador
A Olivetti foi sinônimo de máquina de escrever no Brasil. Ao longo de mais de 50 anos de atuação no país, vendeu mais de 10 milhões de unidades. A marca atravessou gerações e se tornou parte da cultura de escritórios, escolas e redações.
No entanto, a partir dos anos 1990, a popularização dos computadores tornou as máquinas de datilografar obsoletas. Apesar de tentativas de reinvenção, a empresa enfrentou dificuldades financeiras e tecnológicas, especialmente diante da concorrência de gigantes como a IBM.
No Brasil, a produção foi encerrada em 1996. Em 2003, a Olivetti fechou definitivamente suas fábricas no país, marcando o fim de um ciclo histórico.
Mundialmente, a marca sobreviveu ao ser incorporada ao grupo Telecom Italia, redirecionando sua atuação para soluções corporativas, equipamentos de impressão e tecnologia da informação.
Uma fábrica que ajudou a desenhar Guarulhos
A chegada da Olivetti ao Brasil, ainda na década de 1950, coincidiu com um momento de forte industrialização do país. Inaugurada em 1959, a unidade foi símbolo de modernidade, inovação arquitetônica e desenvolvimento econômico, ajudando a transformar a paisagem urbana e social do município.
Guarulhos, então em expansão, reunia fatores estratégicos: proximidade com a capital paulista, acesso à recém-inaugurada Rodovia Presidente Dutra, eixo vital entre São Paulo e Rio de Janeiro, e disponibilidade de grandes áreas para implantação industrial.

A Rodovia Presidente Dutra e o corredor da modernidade
A Dutra não foi apenas uma estrada. Ela se tornou um verdadeiro corredor do progresso, concentrando fábricas, centros logísticos e complexos industriais que ajudaram a impulsionar a economia paulista. Ao longo de seu traçado, instalaram-se gigantes da indústria e da tecnologia.
Foi também às margens da Dutra que funcionaram as instalações da Philips do Brasil, onde jornalistas brasileiros acompanharam, em 1969, a transmissão histórica da chegada do homem à Lua.
Próxima dali, a antiga fábrica da Duchen, com projeto assinado por Oscar Niemeyer, reforça o valor arquitetônico e simbólico dessa região, marcada por obras de grandes nomes da arquitetura moderna.
Nesse contexto, a fábrica da Olivetti se destacava não apenas pelo porte industrial, mas pela proposta inovadora de integrar arquitetura, conforto ambiental e bem-estar dos trabalhadores.

Marco Zanuso e uma fábrica à frente do seu tempo
O projeto da fábrica de Guarulhos foi assinado pelo arquiteto italiano Marco Zanuso, um dos principais nomes do design e da arquitetura industrial do século 20.
Parceiro de longa data de Adriano Olivetti, fundador da empresa, Zanuso trouxe ao Brasil uma visão que rompia com o modelo tradicional de “grande galpão fabril”.
A fábrica foi concebida como uma estrutura modular, flexível e adaptável às constantes mudanças da produção industrial.

O coração do projeto eram as chamadas unidades celulares, organizadas a partir de módulos triangulares equiláteros de 12 metros de lado. Essas unidades formavam abóbadas de cerâmica armada, apoiadas em colunas ocas de concreto armado.
Essas colunas tinham função estrutural e técnica: abrigavam dutos de ar-condicionado, energia e drenagem, eliminando a necessidade de grandes sistemas aparentes.

A solução permitia vencer grandes vãos, garantir iluminação e ventilação naturais e oferecer maior conforto térmico aos trabalhadores — um cuidado raro para a época.
Vista de cima, a fábrica ficou famosa por lembrar uma máquina de escrever, numa clara alusão aos produtos que ali eram fabricados.
Não por acaso, a construção passou a ser reconhecida como patrimônio arquitetônico, não pela fachada, mas pela inovação estrutural e tecnológica.

Trabalho, memória e identidade
A fábrica da Olivetti foi também um importante polo social. Famílias inteiras de Guarulhos trabalharam no local, e muitos funcionários passaram a morar na cidade atraídos pela força da indústria.
Em seu auge, a unidade empregou mais de mil pessoas e produziu centenas de milhares de máquinas de escrever por ano, abastecendo o mercado brasileiro e outros países da América Latina.
A empresa era conhecida por sua política avançada de bem-estar social. Além dos direitos trabalhistas, oferecia refeitório, enfermaria, áreas de lazer, clube para as famílias e até iniciativas educacionais. Para muitos ex-funcionários, trabalhar na Olivetti era motivo de orgulho.
Uma fotografia histórica de Massami Kishi, registrada em 1959, ajuda a preservar essa memória ao mostrar como era o complexo industrial na época de sua inauguração, quando a Dutra ainda dividia espaço com poucas casas e grandes vazios urbanos.
Da fábrica ao shopping: transformação e controvérsia
Com o fechamento da unidade industrial, o complexo foi vendido e, anos depois, transformado no Internacional Shopping Guarulhos. O projeto de reconversão, conduzido pelo escritório Coltro Ferrari, preservou parte das coberturas em abóbada e do sistema estrutural original, aproveitando iluminação e ventilação naturais.
Apesar disso, a intervenção gerou controvérsia. Um pedido de tombamento do conjunto pelo Condephaat não impediu que grande parte das fachadas e volumes originais fosse demolida em 1997.
Apenas as coberturas e estruturas de sustentação acabaram tombadas, o que resultou em uma descaracterização considerada irreversível por especialistas em patrimônio.
Hoje, letreiros, fachadas temáticas e referências cenográficas convivem com fragmentos de uma arquitetura industrial pioneira, levantando reflexões sobre preservação, memória do trabalho e identidade urbana.
Um patrimônio que segue presente
Mesmo transformada, a antiga fábrica da Olivetti permanece viva na memória de Guarulhos. Ela simboliza um tempo em que indústria, arquitetura, design e responsabilidade social caminharam juntos.
Valorizar essa história é também reconhecer a importância do patrimônio fabril como parte fundamental da identidade da cidade.
Entre abóbadas preservadas e lembranças de quem viveu aquele tempo, a Olivetti segue como um marco silencioso de inovação, trabalho e modernidade.
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