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Falar de pizza em São Paulo é falar de tradição, afeto e disputa de narrativas. Mas falar de boa pizza exige ir além da borda inflada ou do recheio generoso.
Exige olhar para processos, escolhas técnicas e uma constância que não se constrói da noite para o dia. É exatamente nesse território — menos visível, porém essencial — que a 1900 Pizzeria se consolidou como uma das maiores referências do país.

Reconhecimento internacional e um legado em construção
Com 42 anos de história e uma trajetória marcada por evolução contínua, a marca coleciona honrarias: pela oitava vez foi eleita pela Datafolha – por meio de voto popular – a “Melhor Pizza” de São Paulo, ostenta a 14ª posição entre as 50 melhores redes de pizzarias artesanais do mundo, segundo o ranking internacional 50 Top Pizza 2024, além de receber o prêmio de Melhor Performance do Ano.
Um reconhecimento que não nasce do acaso, mas de um trabalho silencioso, persistente e profundamente técnico. Mais do que prêmios, a marca consolidou um papel de liderança: seja na forma de produzir, de operar delivery, de tratar equipes ou de dialogar com o mercado. Pensar em pizza artesanal de qualidade no Brasil passa, inevitavelmente, pela história da 1900 — e pela visão técnica de Erik Momo.

Erik Momo, o generalista que mudou o jogo da pizza brasileira
CEO da 1900 Pizzeria – rede com 14 unidades em São Paulo, mentor de empreendedores e atual presidente da Associação Nacional de Restaurantes – ANR Brasil, Erik Momo nunca se definiu como chef. E não é falsa modéstia.
Na adolescência, queria ser piloto de caça… Foi impedido pelo astigmatismo. Sua formação não passa por uma faculdade tradicional de gastronomia, mas por um percurso raro: marketing pela ESPM, um pouco de geofísica na USP, cinema na FAAP, um MBA em gestão, cursos técnicos, extensão acadêmica e uma curiosidade quase obsessiva pelo funcionamento das coisas.
Essa postura explica muito. Em vez de buscar atalhos ou rótulos, Erik mergulhou naquilo que sustenta a pizza de verdade: farinha, fermentação, hidratação, tempo e método. Fez cursos rápidos (não tão rápidos assim….), estudou análise técnica de farinhas, frequentou laboratórios, dialogou com moinhos e participou ativamente de um processo que mudaria o mercado brasileiro.
“Eu me considero um bom pizzaiolo. Fico confortável nesse lugar”, resume.
A revolução da farinha e a longa fermentação
Essa inquietação não surgiu por acaso. Ela se consolidou a partir de um momento muito específico, fora do país, quando a observação atenta encontrou método e estudo.
Muito antes de a pizza artesanal virar tendência, Erik já insistia em algo que parecia impraticável para muitos: fermentações longas, estabilidade do produto e padronização técnica. Em um mercado acostumado a massas rápidas, pouco hidratadas e de digestão pesada, ele decidiu fazer o caminho inverso.
Foi durante uma viagem técnica à International Pizza Expo, nos Estados Unidos, que Erik Momo percebeu que a pizza brasileira podia ir além do que se praticava até então. Mais leve, mais digestiva e mais próxima da tradição italiana — não por reprodução, mas por domínio técnico do processo.

Recusa do atalho e paciência
De volta ao Brasil, ele não correu para o forno. Preferiu investigar o ponto mais determinante e menos visível da pizza: a farinha.
Ingressou no curso Análise Técnica das Farinhas de Trigo, da Unicamp, onde passou a comparar, de forma sistemática, farinhas italianas e brasileiras. O diagnóstico foi preciso: faltava ao mercado nacional um insumo capaz de sustentar os tempos, hidratações e controles exigidos pelas pizzarias de longa fermentação.
Dialogou com produtores, explicou processos, provocou melhorias e ajudou a aproximar o Brasil das técnicas italianas de moagem. O resultado foi uma mudança estrutural: farinhas mais estáveis, adequadas a fermentações de até 48 horas, capazes de entregar leveza, sabor e digestibilidade.

Não é tudo farinha do mesmo saco
Desse aprofundamento nasceu uma das palestras mais influentes do setor, “Não é tudo farinha do mesmo saco”, que ajudou a traduzir um debate técnico complexo para profissionais de todo o país.
Na sequência, veio uma parceria inédita com a indústria nacional, culminando no lançamento, em 2017, da Farinha Anaconda Pizza Longa Fermentação. Em apenas dois anos, as vendas triplicaram — não como modismo, mas como resposta direta a uma demanda reprimida por qualidade e estabilidade no mercado brasileiro.
Esse movimento também redefiniu os rumos da própria 1900 Pizzeria. Desde 2015, após cursos na Scuola Italiana Pizzaioli, Erik Momo vinha estruturando a implementação da fermentação longa na operação da casa.
A transição foi conduzida com método e paciência: equipes passaram por meses de treinamento para que a mudança fosse percebida exatamente onde importa — na leveza da massa, sem ruptura no sabor que sempre definiu a identidade da marca.
Nada ali aconteceu por impulso. Cada decisão respeitou o tempo necessário para amadurecer — como a pizza que só revela sua excelência depois de esperar. É essa lógica, construída fora dos holofotes, que sustenta a 1900 até hoje.

Quando a excelência começa antes da massa chegar ao forno
Um dos efeitos mais perceptíveis desse trabalho aparece no prato — e no corpo. Massas bem fermentadas, feitas com farinha adequada, resultam em pizzas mais leves, menos agressivas ao organismo. Não é milagre, é técnica.
“Tem gente que acha que não pode comer pizza por causa do glúten. Às vezes, o problema não é o glúten, é o processo”, explica Erik.
Na prática, isso significa permitir que o cliente coma duas ou três fatias sem aquela sensação de peso imediato. Um detalhe que faz toda a diferença na experiência.
A 1900 em Santana: técnica, treino e cultura de equipe
Na unidade da 1900 Pizzeria em Santana, na Zona Norte de São Paulo, esse cuidado se revela também na operação. Aberta em dezembro de 2025, sua chegada faz parte da transformação da região em um polo de gastronomia de excelência, ao lado de casas como o Nōzu, Làssu, O Compadre e o pioneiro Mocotó, do chef Rodrigo Oliveira.
O forno funciona como um balé afinado: abertura de massa, montagem, giro, entrada e saída sem choques, sem atropelos. Nada ali é improviso.

Há treinamento, repetição, paciência e método. E isso começa pela cultura interna. Erik Momo faz questão de explicar o “porquê” das coisas — quantas vezes forem necessárias.
Depois, cobra. Não por rigidez, mas por respeito ao processo. Essa cultura forma equipes engajadas, orgulhosas do que fazem e alinhadas à essência da marca.

Sabores e aromas
Na 1900, o cardápio parte de um princípio simples: não existe uma única forma de fazer pizza bem feita. Por isso, a casa trabalha com três estilos distintos, cada um com identidade própria, técnica específica e um jeito diferente de chegar à mesa.
As napoletanas seguem a tradição do sul da Itália, com bordas altas, textura macia e coberturas delicadas, pensadas para não pesar.
Entre os destaques está a Carbonara, que leva mozzarella de búfala Levitare, guanciale, gema de ovo, queijo pecorino romano e pimenta-do-reino — uma combinação intensa, mas equilibrada, em que a massa leve sustenta o protagonismo dos ingrediente

Já a Pizza in Pala alla Romana aposta em outra leitura. Feita com trigos italianos especiais, passa por fermentação longa e é assada em forno elétrico.
O resultado é uma pizza crocante por fora, macia por dentro, mais alta que as versões tradicionais e surpreendentemente leve — daquelas que praticamente se dissolvem na boca.

A terceira vertente é a Paulistana, a mais afetiva e urbana das três. Ícone das mesas compartilhadas, ela aparece nas versões Clássicas e Especiais, em tamanhos variados e com a possibilidade de até três sabores na mesma pizza.
A massa é leve e crocante, disponível nas versões tradicional, integral ou sem glúten, respeitando o jeito paulistano de comer pizza: junto, sem pressa e com variedade.

A essência que nunca muda
Se o DNA da 1900 vem do bom atendimento e do cuidado com o produto, a pizzaria do século XXI exigiu novos pilares: ambiente de trabalho saudável, relações transparentes, operação ética e gestão profissional.
É possível fazer pizza de alta qualidade, pagar bem, trabalhar com fornecedores corretos, emitir nota, ganhar dinheiro e ainda ser referência. A 1900 faz questão de levantar essas bandeiras — e de contar também os erros cometidos ao longo do caminho.

A carta de vinhos da 1900: entre o Velho e o Novo Mundo
Assim como acontece com as pizzas, a carta de vinhos da 1900 não está ali por acaso. Ela foi pensada para acolher diferentes paladares, momentos e níveis de conhecimento, sem intimidar quem quer apenas beber bem — e, ao mesmo tempo, oferecendo boas descobertas a quem gosta de explorar.
O equilíbrio começa pela curadoria. A casa transita com naturalidade entre rótulos do Velho Mundo, especialmente Itália, Espanha e Portugal, e vinhos do Novo Mundo, com destaque para Argentina, Chile, Brasil e África do Sul. É um passeio que respeita tradição, mas não se fecha ao contemporâneo.
Entre os tintos, a Itália marca presença com nomes clássicos como Sangiovese, Barbera e Primitivo di Manduria – representado pelo rótulo comemorativo e em edição limitada Millenovecento 40 Anos, além de rótulos que dialogam muito bem com pizzas de fermentação longa, massas leves e coberturas mais estruturadas.
Do outro lado do mundo, Malbecs argentinos, Carménères e Cabernets chilenos oferecem fruta, equilíbrio e ótima relação entre qualidade e preço — perfeitos para quem busca conforto sem abrir mão de personalidade.
A carta também conversa com o ritmo da cidade e do salão ao oferecer vinho em taça e meia garrafa. Um convite claro para quem quer harmonizar sem exageros, experimentar algo novo ou simplesmente acompanhar uma pizza sem o compromisso de uma garrafa inteira. É um gesto de hospitalidade — e de inteligência gastronômica.
Nos brancos, rótulos frescos e versáteis acompanham pizzas mais delicadas, queijos, entradas e até sobremesas. Já os rosés surgem como uma escolha descomplicada e elegante, especialmente para quem busca leveza e frescor. O espumante nacional fecha a seleção com alegria e equilíbrio, ideal para brindar ou abrir a experiência à mesa.
Nada aqui é engessado. A carta da 1900 foi construída para harmonizar com o que a casa é hoje: pizzas de longa fermentação, massas leves, sabores bem definidos e um serviço que não constrange. O vinho entra como parceiro — nunca como protagonista arrogante.
No fim, a sensação é clara: na 1900, beber vinho é tão prazeroso quanto comer pizza. E isso, convenhamos, é uma arte.

Pizza é prato popular. Fazer bem é escolha.
No fim, talvez a maior contribuição da 1900 e de Erick Momo seja lembrar que pizza não é simples “disco de massa com recheio”. É técnica, ciência, cultura e generosidade no conhecimento.
Contar essa história é também uma forma de combater o velho complexo de vira-lata e valorizar o que se constrói aqui — com método e propósito, sem endeusar uma marca.
É registrar um capítulo da pizza brasileira, que começou em 1983, em um galpão construído em 1900 onde funcionava uma antiga garagem de bondes na Vila Mariana, com o maestro Giovanni Paolo Momo e sua esposa Kátia… que foi escrito com paciência, método e uma fé quase teimosa de que o melhor sempre pode ser melhorado. E isso, no fundo, também é uma forma de amor.
Serviço:
1900 Pizzeria – Unidade Santana
- Rua Dr César n. 1288 – Santana – São Paulo – SP
- 2ª a Domingo – das 18h às 00h
- e-mail: [email protected]
- Capacidade: 104 lugares
- Serviço de Vallet
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