Em um cotidiano marcado por variações de preço que mudam de um dia para o outro — tanto nas prateleiras físicas quanto nos carrinhos virtuais — o consumidor paulista enfrenta uma maratona silenciosa para equilibrar o orçamento.
A experiência de comprar alimentos, produtos de higiene ou itens de limpeza tornou-se um exercício permanente de vigilância. No ambiente digital, o desafio é ainda maior: o preço pode parecer vantajoso, mas o valor final sofre impacto do frete, das taxas extras e dos ajustes dinâmicos das plataformas.
Nesse contexto, a Fundação Procon-SP divulgou um monitoramento inédito dos preços praticados nos supermercados online, revelando diferenças expressivas que ultrapassam 200% para produtos idênticos.
Realizado nos dias 30 e 31 de outubro, o levantamento analisou 77 itens essenciais comercializados por doze grandes redes que atuam com venda pela internet. A metodologia adotada foi rigorosa: apenas itens absolutamente equivalentes — mesma marca, tipo, embalagem e gramatura — puderam entrar na comparação.
As referências nas compras
Trata-se de um recorte preciso que busca isolar variáveis e entregar ao consumidor uma régua confiável de preços. O objetivo é claro: oferecer referências sólidas para decisões de compra, especialmente em um momento em que a inflação está dentro da meta, mas o custo de vida das famílias segue pressionado e suscetível a oscilações.
A pesquisa nasce de uma percepção crescente entre técnicos e consumidores: as compras do mês migraram de forma definitiva para o ambiente digital.
O hábito, que ganhou força durante a pandemia, consolidou-se como parte da rotina. De bebidas a hortifruti, de produtos de limpeza a itens perecíveis, o consumidor passou a confiar no carrinho virtual para a reposição completa do lar.
Com isso, o ato de “fazer compras” tornou-se mais rápido, mas também mais complexo: é preciso interpretar diferenças de preço, avaliar prazos de entrega, entender políticas de substituição e calcular o impacto do frete — itens que não estavam no radar de quem percorria corredores físicos.

Diferenças até 200%
Os números levantados pelo Procon-SP deixam claro o tamanho dessa complexidade. O caso mais extremo foi o quilo do alho a granel: enquanto um site vendia por R$ 59,87, outro oferecia o mesmo produto por R$ 19,90 — uma diferença de 200,85%.
Esse salto não é isolado. O preço da batata variou 155,56% entre fornecedores; o da cebola, 151,26%; o do sabonete Johnson’s, 150,31%; e o do papel higiênico Personal (pacote com quatro unidades), 129,10%. Diferenças dessa magnitude fazem com que uma compra simples se transforme em uma equação delicada, exigindo comparação e planejamento.
Ao oferecer esses dados de forma transparente, o Procon-SP busca fortalecer a autonomia do consumidor, destacando que comprar on-line exige estratégia. O valor final não é determinado apenas pelo preço exposto.
Há um conjunto de fatores que alteram a percepção de economia: a tarifa de entrega que se dilui ou não no volume de itens, o prazo mais longo de envio que compromete produtos frescos, e até a possibilidade de substituição automática de itens, prática comum em algumas redes.
Para famílias que dependem de um orçamento ajustado, uma diferença de poucos reais por item pode significar o comprometimento de toda a previsão mensal.
Compras às cegas
O ambiente digital também introduziu um novo desafio: a compra às cegas. Diferentemente do varejo físico, o consumidor não escolhe a fruta mais firme, o tomate menos machucado, a embalagem sem amassados. A seleção é feita por funcionários do supermercado, e o grau de cuidado varia entre as redes.
Por isso, o Procon-SP reforça que, ao receber a compra, é essencial conferir imediatamente a integridade das embalagens, o peso e a validade dos produtos.
Caso algo esteja incorreto, o consumidor tem o direito de contestar e solicitar substituição — e, pela legislação, pode exercer o direito de arrependimento em até sete dias após o recebimento da compra realizada de forma remota.
O levantamento também lança luz sobre um fenômeno silencioso: a digitalização do varejo ampliou o impulso de compra. Plataformas usam notificações, banners, recomendações personalizadas e promoções relâmpago para estimular a adição de itens ao carrinho — muitas vezes sem planejamento.
O clique fácil, aliado à sensação de comodidade, pode levar o consumidor a gastar mais do que gastaria numa compra presencial, na qual o contato direto com o produto e a noção de volume são mais evidentes.
Nesse sentido, o estudo do Procon-SP funciona como instrumento de educação financeira, lembrando que a racionalização do carrinho digital é tão importante quanto a comparação dos preços.

A pesquisa dos dois lados
Para o setor supermercadista, a pesquisa também serve como retrato competitivo. A comparação direta entre sites cria um mapa atualizado sobre faixas de preço, comportamento dos concorrentes e sensibilidade dos consumidores.
Essa transparência tende a estimular ajustes, revisões e aprimoramento nas políticas comerciais das redes, contribuindo para um mercado mais equilibrado.
No fim, o recado que emerge do estudo é simples, mas decisivo: no mundo das compras digitais, a economia não está apenas no desconto, mas na informação.
Pesquisar, comparar e verificar o que se recebe são etapas inseparáveis de uma boa experiência de compra. Em tempos de orçamento apertado, cada escolha — cada clique — faz diferença. O monitoramento do Procon-SP é uma ferramenta valiosa para que essa diferença seja positiva no bolso do consumidor.
Orientação aos consumidores
O Procon-SP recomenda que o consumidor compare preços entre diferentes supermercados, observando qualidade, peso, preço e o custo do frete.
- Ao receber os itens verifique o prazo de validade, peso, qualidade e integridade das embalagens. Outro ponto importante é ficar atento à política de troca ou devolução, principalmente quando comprar produtos perecíveis;
- Ao comprar de forma remota, os produtos não são selecionados pessoalmente e, dependendo da política de seleção e entrega do supermercado, pode não haver a mesma garantia de frescor para perecíveis;
- Só confirme o recebimento após verificar as mercadorias;
- O consumidor deve saber que produtos fabricados e embalados pelo estabelecimento (doces, tortas, salgados e bolos) devem ter informações sobre data de validade, peso, ingredientes e se contém glúten e alergênicos; e
- No caso das compras online, a legislação prevê o direito de se arrepender e cancelar a compra em até sete dias após a aquisição ou após o recebimento dos produtos.
OS SUPERMERCADOS NA PESQUISA: A coleta de preços foi efetuada em doze sites: Andorinha Supermercado, Atacadão, Carrefour, D’Avó Supermercados, Extra Mercado, Supermercado Hirota, Supermercados Mambo, Nagumo Supermercados, Pão de Açúcar, Sonda, Tenda Atacado e Trimais Supermercados.
Veja o Relatório completo – incluindo tabela de produtos — clique aqui
<<Com apoio de informações/fonte: Assessoria de Comunicação | Procon-SP – Ricardo Muza >>
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