da Redação DiárioZonaNorte
- O Casarão teve início com o Grupo Escolar de Vila Guilherme fundado em 15 de Janeiro de 1925, depois passou a ser Grupo Escolar Afrânio Peixoto, na Praça Oscar da Silva;
- De 1977 até 2005 (28 anos), a Administração Regional ( hoje Subprefeitura ) esteve instalada no prédio do Casarão, que desde 2016 passou a ser Casa de Cultura Vila Guilherme–Casarão;
- Após a mudança da Subprefeitura para o seu prédio próprio na Vila Maria Alta, o Casarão ficou vago e sem uso oficial, se deteriorando por 11 anos; e
- O fundador da Vila Guilherme, Guilherme Praun da Silva , faleceu em 1938, com 85 anos, e seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação.
A Vila Guilherme chega aos 113 anos nesta 6ª feira (12/09/2025) em meio a um contraste que salta aos olhos: de um lado, a história de um bairro que nasceu planejado para o futuro; de outro, a realidade marcada por carências que permanecem nos dias de hoje.
No momento, duas notícias são novidades e movimentam os moradores — o retorno do Festival de Cultura Tradicional “Revelando São Paulo” ao Parque do Trote/MartCenter e a promessa de uma futura estação da Linha 19-Celeste do Metrô no vizinho distrito da Vila Maria.
Os moradores têm a percepção geral é de que muitas ações divulgadas pelas secretarias da Prefeitura de São Paulo não contemplam o distrito da Vila Guilherme. Até mesmo a Casa de Cultura Vila Guilherme-Casarão não está em funcionamento pleno, o que reforça a sensação de distanciamento. A região ainda não recebeu um Centro Educacional Unificado (CEU) e sem outros equipamentos já destinados a outros territórios do município.

Desigualdade
A Rede Nossa São Paulo divulgou em junho passado o Mapa da Desigualdade 2024 (*), que permite também observar rankings temáticos em 11 áreas distintas: saúde, educação, segurança pública, direitos humanos, meio ambiente, mobilidade, trabalho e renda, habitação, cultura, infraestrutura digital e esporte.
Vila Guilherme que faz parte da Subprefeitura com os distritos da Vila Maria e Vila Medeiros já revelava números preocupantes. São 52.470 moradores (53% mulheres), mas com 760 pessoas em situação de rua, 100 moradias em áreas de risco e 23º lugar em presença de favelas. No campo da saúde, a idade média ao falecer é de 73 anos, mas os índices de mortalidade infantil (55º), materna (65º) e por doenças respiratórias (61º) expõem vulnerabilidades.
Na educação, a Vila Guilherme ocupava a 40ª posição em matrículas no ensino básico público, mas amargava o 18º lugar em abandono escolar e o 12º em fila por vagas em creches. A falta de cobertura vegetal (apenas 10%, 88ª posição) comprometia o meio ambiente, enquanto a mobilidade urbana era problemática, com 62º lugar no acesso a transporte de massa. Já na área de direitos humanos, o distrito amarga posições críticas: 83º em violência contra mulheres e 79º em violência racial.
No caso da segurança, esses dados que acabam não sendo fiéis, já que a maioria da população não registra Boletins de Ocorrências (B.Os) nas delegacias. Por outro lado, muitas vezes escondidos sob discursos oficiais, reforçam a percepção de que a Vila Guilherme sofre com a ausência de políticas públicas consistentes.
O outro lado da moeda
Mais grave ainda é a falta de atenção do poder político: os 55 vereadores da capital raramente pisam no território. Não é preciso que um único parlamentar seja “o representante” do bairro, mas é inadmissível que todos se mantenham distantes, como se o distrito fosse um feudo esquecido ou ainda uma das capitanias hereditárias do passado.
A percepção dos moradores, enquanto isso, é de que os gabinetes da Câmara Municipal seguem abastecidos com carros oficiais, assessores e recursos públicos que não se convertem em melhorias para a população, com visitas “in loco” para sentir o que acontece e o que os moradores reivindicam. Por outro lado, as emendas parlamentares devem ser dirigidas aos interesses públicos da Vila Guilherme, com muita transparência.
O esvaziamento das celebrações
Historicamente, o aniversário da Vila Guilherme foi sinônimo de festa popular. Por décadas, o dia 12 de setembro reunia moradores em barracas, shows, desfiles escolares e atividades culturais na Praça Oscar da Silva.
Hoje, os moradores comentam que o cenário mudou: as celebrações foram esvaziadas e substituídas por atos políticos superficiais, no meio da principal avenida com faixas improvisadas e palcos eleitorais financiados por dinheiro público, contratando shows musicais.

Placas da Memória Paulistana
A perda simbólica é evidente também no programa “Placas da Memória Paulistana”, do Departamento Patrimônio Histórico (DHP) da Secretaria Municipal da Cultura, que em 2022 reconheceu a Paróquia São Sebastião e o antigo Zoológico do Agenor como patrimônios locais — que foram projetos vencidos em concurso encaminhados pelo pesquisador Prof José de Almeida Amaral Júnior. Mais de três anos depois, nenhuma das placas foi instalada.
Durante o centenário da Paróquia, o padre Luiz Cláudio Vieira buscou a Secretaria Municipal de Cultura para garantir a entrega do símbolo prometido, mas não recebeu respostas. Enquanto isso, outros pontos da cidade receberam suas placas, ainda que com atraso – como no Parque do Trote, também na Vila Guilherme.

Revelando São Paulo
O Revelando São Paulo retorna neste mês ao Parque do Trote–Mart Center, coincidindo com o aniversário da Vila Guilherme. O evento, considerado o maior festival de cultura tradicional e de raiz do estado, já teve oito edições na Zona Norte.
Nas primeiras edições, sob coordenação do folclorista Toninho Macedo, da Abaçaí Cultura e Arte, o evento de culinária, artesanato e atrações populares chegou a reunir cerca de 2 milhões de visitantes. A comunidade adotou o festival como parte da família, junto com seus expositores.
Em 2019, o evento voltou para o Parque Estadual da Água Branca/Fernando Costa onde esteve entre 1998 e 2010, mas já sob a gestão da Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA). A ausência na Zona Norte gerou muitas reclamações, pedidos de retorno e até abaixo-assinados.
Neste ano, a Secretaria da Cultura do governo de São Paulo e a APAA não conseguiram renovar o contrato no Parque da Água Branca, que passou à gestão privada da Reserva Parques – grupo DC Set, também responsável pelos parques Villa-Lobos e Cândido Portinari. O valor do aluguel pretendido pela concessionária inviabilizou o acordo.
Como alternativa, os organizadores negociaram diretamente com os órgãos municipais a autorização para o uso do Parque do Trote e do Mart Center, de 25 a 28 de setembro, sem necessidade de intermediários. Uma vitória para a o distrito da Vila Guilherme e para os moradores, que voltam a ter o Revelando São Paulo novamente em seu território.
Linha 19-Celeste
Outra boa notícia: a chegada do Linha 19-Celeste do Metrô na vizinha Vila Maria, com o trajeto Anhangabaú-Guarulhos. Está prevista uma estação na Av. Guilherme Cotching junto à Praça Santo Eduardo, o que poderá futuramente facilitar os deslocamentos dos moradores da Vila Guilherme. Mas a previsão é para daqui há 10 anos, na melhor das expectativas.

O empresário que virou bairro
A origem do distrito remonta a 1912, quando o empresário Guilherme Praun da Silva, carioca de Petrópolis e filho de imigrantes alemães, decidiu transformar terras da família do Barão de Ramalho em um bairro planejado. Praun já havia se destacado como empreendedor, criando fábricas de café, sal e fubá e fundando a Companhia Central Moinhos Paulista
Com visão de futuro, ofereceu terrenos a preços acessíveis, atraindo principalmente imigrantes portugueses, conhecidos pelo trabalho árduo. Rapidamente, a Vila Guilherme se consolidou com escolas, padarias, farmácias e uma olaria, tornando-se referência de autossuficiência em uma São Paulo em expansão.
A primeira obra comunitária foi a Capela de São Sebastião – do qual o fundador da Vila Guilherme era devoto –– , iniciada em 1922 e concluída apenas em 1950, dando origem à atual Paróquia São Sebastião, que permanece como símbolo da fé e do encontro comunitário.

A polêmica do nome e a luta pela memória
Apesar de sua importância, o fundador segue lembrado apenas como “Sr. Guilherme”. As placas da Avenida Guilherme, que corta o bairro da Marginal Tietê à Rua Maria Cândida, não trazem o sobrenome Praun da Silva. Para moradores antigos, trata-se de uma injustiça ou falta de respeito.
Um dos defensores da memória local é Edgard Martins, o “Vô Ed”, de 86 anos, que há anos coleciona relatos e cobra mudanças. “As placas sujas e desbotadas não dizem nada. Para muitos jovens, o Guilherme pode ser qualquer um. É hora de reconhecer de verdade o fundador do bairro”, afirma.
A proposta de valorização inclui renomear a avenida como Avenida Guilherme Praun da Silva, até erguer um busto do fundador em frente à Paróquia São Sebastião. “Essas ações traduziriam um presente em homenagem ao bairro”, segundo especialistas e lideranças comunitárias, cujo o reconhecimento oficial seria um passo importante na preservação da identidade do bairro.

O professor universitário, pesquisador e escritor, José de Almeida Amaral Júnior, morador e amante há anos da Vila Guilherme, faz uma reflexão: “ A Vila Guilherme, por ter sido isolada do Centro por muito tempo, em virtude do grande Tietê, preservou áreas verdes, enquanto a cidade foi consumida pelas construções e especulação imobiliária; por outro lado, também foi um lugar que demorou ter transporte público, luz, asfalto, enchentes e lixões. Hoje, atiça os empreendimentos. Porém, a que preço? Qual contrapartida em infraestrutura? Sofre pela perda de sua ‘capa verde’, preserva carências na saúde, na mobilidade, na habitação… Destaca-se em violência doméstica! Penso que sua população deveria ser mais ativa coletivamente, para reivindicar melhorias e maior atenção do poder publico municipal”.
Entre orgulho e frustração
Hoje, a Vila Guilherme abriga polos empresariais – que rendem o pagamentos de muitos tributos aos cofres da Prefeitura e do Estado -, centros de compras como o Shopping Center Norte e o Lar Center, além de estar próxima ao Terminal Rodoviário do Tietê, um dos maiores da América Latina. Ainda assim, mantém o caráter de comunidade com forte presença de moradores antigos e índice elevado de idosos.
O legado de Guilherme Praun, falecido em 1938 aos 85 anos, permanece vivo, mas incompleto. Seu sonho de um bairro autossuficiente convive com ruas que ainda carecem de investimentos básicos, equipamentos públicos insuficientes e muitas promessas não cumpridas.
Ao celebrar 113 anos, a Vila Guilherme não pede apenas festas, discursos e homenagens de políticos estampadas em jornais. Pede presença, compromisso e respeito de quem governa a cidade. Mais do que números em relatórios ou placas políticas em palanques, o distrito exige que sua história seja reconhecida e que suas demandas reais sejam atendidas. Afinal, um bairro que nasceu do espírito visionário de seu fundador não pode ser tratado como mero detalhe no mapa da cidade.
(*) Mapa da Desigualdade de SP / Rede Nossa São Paulo == Além do ranking geral dos 96 distritos da capital paulista, o Mapa da Desigualdade de São Paulo permite também observar rankings temáticos em 11 áreas distintas: saúde, educação, segurança pública, direitos humanos, meio ambiente, mobilidade, trabalho e renda, habitação, cultura, infraestrutura digital e esporte. Ver íntegra: clique aqui
A Rede Nossa São Paulo (RNSP) é uma organização da sociedade civil que tem por missão mobilizar diversos segmentos da sociedade para, em parceria com instituições públicas e privadas, construir e se comprometer com uma agenda e um conjunto de metas, articular e promover ações, visando a uma cidade de São Paulo justa, democrática e sustentável.
Reportagens do DiárioZonaNorte, em referências:
- 100 anos da Capela de São Sebastião da Vila Guilherme com muitas comemorações – (09/01/2022) – clique aqui
- O fundador da V. Guilherme não é lembrado com o reconhecimento da Prefeitura de SP – (10/09/2022) – clique aqui
- Vila Guilherme completa 112 anos e seu fundador está no Cemitério da Consolação – (12/09/2024) – clique aqui
- Vila Guilherme cobra placas da Memória Paulistana ignoradas há anos pela Prefeitura – (15/07/2025) – clique aqui
Vila Guilherme história desafios Vila Guilherme história desafios Vila Guilherme história desafios Vila Guilherme história desafios.Vila Guilherme história desafios















































