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Crônica do Cotidiano: A bíblia dos pecadores

Tempo de Leitura: 4 minutos

bíblia

por Rafic Ayoub (*)

<Crônica 3> === Os usos e costumes foram e tem sido decisivos para determinar certos padrões de comportamento que, com o tempo, acabaram incorporados nas tábuas das leis estabelecidas ao longo desta fascinante aventura do homem sobre a face da terra.

Moisés, o mítico patriarca hebreu é, supostamente,  o autor dos cinco primeiros capítulos do Velho Testamento – Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio que, somados ao Gênesis, formam o chamado Pentateuco, palavra de origem grega que significa “livro de cinco volumes”, e que fornecem a base de todo o restante do conteúdo bíblico.

O Novo Testamento também se refere, em várias citações, à existência do Pentateuco, como em Mateus 12:5; Marcos 12;26; Lucas 16:16, João 7:19 e os Gálatas 3:10. Segundo Lucas (24:27) , Jesus ensinou as Escrituras “começando por Moisés”, e João (5:46), afirma que o próprio Jesus atribuiu a autoria do Pentateuco a Moisés, além das indicações nos textos do próprio Pentateuco do  seu papel como seu redator (Êxodo 24:3-7), Deuteronômio 31:24-26.

Essa autoria, porém, vem sendo contestada por vários estudiosos da Bíblia que alegam que o Pentateuco é uma combinação de diversos outros escritos produzidos no primeiro milênio antes de Cristo. E nessa linha,  segundo alguns desses autores, Moisés teria bebido na fonte do conhecimento de Akhenaton, faraó egípcio  da 18ª Dinastia e  também conhecido como Amenófis IV,  que governou o Egito entre os anos de 1352 a. C  e 1336 a.C.

Considerado o primeiro reformador religioso da humanidade, Akhenaton, contrariando todo poder dominante da classe sacerdotal egípcia, aboliu  o politeísmo praticado por todas as demais dinastias que o precederam e instituiu o monoteísmo como a religião oficial do antigo Egito,  estabelecendo o culto ao deus Aton (deus Sol)  que durou até a sua morte, quando foi substituído no trono pelo seu filho  Tutancâmon que, cedendo ao poder sacerdotal,   restabeleceu o politeísmo  no país.

A crença  num único deus, ou seja, a prática do  monoteísmo , também foi incorporada e imposta por Moisés  a seu povo, após a sua libertação da escravidão no Egito e posto à prova ao longo de todo o período de travessia rumo à terra prometida de Canaã.

Acredito que o  desdobramento  dessa história  é de conhecimento geral, principalmente porque foi consagrada até pelo cinema no filme “Os Dez Mandamentos”, uma superprodução de Hollywood  dos anos 50/60 e  produzido pelo célebre Cecil B. de Miles e protagonizado pelo  grande astro  canastrão Charlton Heston, no papel de Moisés.

Moisés e as Leis Divinas

Porém, existe um trágico episódio que não está oficialmente registrado tanto no Velho quanto no Novo Testamento, que narra o que aconteceu com Moisés, depois  que ele  voltou do alto do Monte Sinai para  onde havia subido para meditar e receber de Deus as famosas  Tábuas da Lei gravadas em  pedra bruta e consagradas  como os  “Os Dez Mandamentos “.

Segundo o consagrado “Pai da Psicanálise”, Sigmund Freud, de origem judaica, em seu famoso livreto “Moisés e o Monoteísmo”, Moisés acabou sendo  morto pelo seu próprio povo que, aproveitando-se de seu longo retiro no Monte  Sinai, voltou  à prática do politeísmo e à adoração material do célebre “bezerro de ouro”.

E esses fatos,  que teriam provocado toda ira e inconformismo de Moisés após seu retorno,  acabaram  responsáveis pelo seu próprio assassinato,  marcando assim, a violação do sexto mandamento de Deus que é o de  “Não Matarás”.

Segundo a Bíblia, Os Dez Mandamentos consistem em dez regras dadas por Deus  aos homens para que tivessem uma vida mais feliz e próspera.

A Bíblia dos Pecadores

Porém, seria cômica se não fosse trágica,  uma recente notícia divulgada pela imprensa internacional sobre um anúncio de uma respeitável  universidade da Nova Zelândia, de ter encontrado um raríssimo exemplar da Bíblia que ficou famosa   por conter um dos mais graves erros da história editorial.

Lançada na Inglaterra, em 1631, essa Bíblia conhecida como a “Bíblia Perversa” ou a “Bíblica dos Pecadores”, cometeu o grave pecado de omitir a palavra “Não” do sétimo dos dez mandamentos bíblicos, que estabelece “Não cometerás adultério”, erro este que, por motivos indiscutíveis, acabou com a carreira do impressor oficial do rei inglês Charles 1º, chamado Robert Barker.

Segundo essa universidade neozelandesa, foram impressos mil exemplares dessa  famosa Bíblia dos Pecadores com o erro, que foi descoberto apenas um ano depois e, mesmo após quase todas destruídas, cerca de 20 delas continuaram em circulação em  alguns lugares desconhecidos do mundo  como, sabidamente, no Reino Unido e, desconfio, até mesmo no Brasil.

Em razão disso, não é de todo improvável que no Brasil  esse tipo de erro bíblico tenha se perpetuado não só em relação ao 6º quanto ao  7º mandamentos, principalmente quando nos deparamos com notícias tão insólitas e absurdas de um pastor evangélico e ex-ministro da Educação que, além de integrante da fanática “Bancada da Bíblia” no Congresso Nacional , revelou-se também  um   integrante da  perigosa “Bancada da Bala”, fato que se confirmou ao ser ele  flagrado  portando e disparando uma arma de fogo  em pleno saguão de um dos mais  movimentados aeroportos do país.

Outros pecadores

Adicionalmente, temos acompanhado, dia sim e outro dia também, notícias que nos sugerem que a tal “Bíblia Perversa”  continua inspirando outros personagens da vida pública brasileira  a cometerem a violação sistemática de outros importantes mandamentos bíblicos, como  o de “Não roubarás”.

Esse é o caso dos pastores e ativistas bolsonaristas  Arilton Moura e Gilmar dos Santos, denunciados por diversos prefeitos  de cobrar propinas, em dinheiro e até mesmo em barras de ouro, para intermediar junto ao Ministério da Educação e Cultura (MEC), mesmo não tendo oficial e legalmente  nenhuma autoridade nesse ministério,  a liberação de recursos para projetos de interesse de seus respectivos municípios, junto ao bem fornido  Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Os altos índices de criminalidade registrados em todo o País, que incluem um abominável crime atribuído a uma  pastora evangélica e deputada federal do Rio de Janeiro,   acusada de mandar matar o próprio marido, também pastor, aliados ao desrespeito a outros mandamentos  como, por exemplo, os de não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, etc. reforçam  crescentes  suspeitas de que alguns exemplares dessa malfadada “Bíblia Perversa”  continuam circulando  restritamente entre nós!    Miserere Nobis!

Comentários e sugestões: redacao@diariozonanorte.com.br


(*)  Rafic Ayoub, jornalista pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade pela FESPSP – Faculdade Escola de Sociologia Política de São Paulo, é também poeta, dramaturgo e autor do recém-lançado livro  “ Miserere Nobis – Crônicas do Cotidiano”.

Atualmente é consultor especializado em Comunicação Corporativa Integrada.


Nota da Redação: O artigo acima é totalmente da responsabilidade do autor, com suas críticas e opiniões, que podem não ser da concordância do jornal e de seus diretores.

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