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Com R$ 822 milhões autorizados para ações de combate às enchentes em 2025, a Prefeitura de São Paulo executou 60% do orçamento até dezembro, segundo dados apresentados em representação protocolada no Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM-SP). O documento foi encaminhado pela vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP). 

No documento, que menciona entre outras coisas, fatos recentes de alagamentos acontecidos na Zona Norte de São Paulo, região que enfrenta episódios recorrentes durante os períodos de chuva intensa, a parlamentar solicita a realização de auditoria operacional para verificar a regularidade das contas e a execução das políticas públicas de drenagem urbana.

Para 2026, a proposta orçamentária enviada pelo Poder Executivo à Câmara Municipal prevê R$ 662 milhões para as ações de enfrentamento, valor inferior ao autorizado no ano anterior.

Estudos técnicos existem desde 2016

As enchentes na Zona Norte constam em diagnósticos técnicos contratados pelo próprio poder público. Os chamados Cadernos de Drenagem são instrumentos técnicos coordenados pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras (SIURB) e elaborados pela Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH), vinculada à Universidade de São Paulo (USP).

Os estudos analisam bacias hidrográficas, identificam áreas críticas e indicam intervenções estruturais como reservatórios de contenção e ampliação de galerias.

A contratação dos levantamentos teve início na gestão de Fernando Haddad (PT) e seguiu nas administrações de João Dória (PSDB), Bruno Covas (PSDB) e Ricardo Nunes (União Brasil).

Até o momento, 37 cadernos foram publicados, oito estão em elaboração e outros 13 programados. No caso da Bacia Hidrográfica do Córrego Mandaqui, o estudo foi publicado em 2016.

Moradores da região relatam que, apesar do diagnóstico técnico, as intervenções estruturais previstas ainda não foram executadas.

Área sugerida pelo estudo para a implantação de um piscinão no Mandaqui

Mortes reacendem o debate sobre drenagem urbana

O tema voltou ao centro das discussões após a morte da costureira Alice Ferreira Conceição, de 60 anos, arrastada por uma enxurrada no Mandaqui. Ela caminhava pela Rua Larival Gea Sanches quando foi surpreendida pela força da água e ficou presa sob um carro estacionado. Socorrida e encaminhada ao Hospital do Mandaqui, não resistiu.

Em janeiro, o aposentado Romeu Maccione Neto, de 75 anos, morreu após ser arrastado por uma enxurrada no córrego Piatã na Vila Isolina Mazzei, no distrito da Vila Guilherme. A área também é citada em estudos técnicos relacionados às bacias dos córregos Carandiru e Tenente Rocha.

Mapa hidrográfico da cidade de São Paulo – 1954

O rio sob a Avenida Luiz Dumont Villares

Parte dos alagamentos recorrentes na Zona Norte está relacionada à dinâmica do rio Carajás, conhecido em parte de seu percurso como rio Carandiru. O curso d’água passa sob a Avenida Luiz Dumont Villares, na Parada Inglesa.

Antes da urbanização intensa, o rio seguia o fundo natural do vale. A canalização permitiu a implantação da via na década de 1980, durante a gestão de Paulo Maluf. A transformação alterou o funcionamento natural da drenagem.

Com a impermeabilização do solo e o confinamento do curso d’água em galerias subterrâneas, o sistema passou a operar próximo do limite em períodos de chuva intensa.

Estudos técnicos indicam que as vazões provenientes das áreas a montante encontram restrições ao longo da avenida, ampliando o risco de extravasamentos e alagamentos na região da estação Parada Inglesa do metrô.

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área interna do piscinão da SAVIC

O que é o piscinão previsto nos estudos

Entre as soluções apontadas pelos Cadernos Hídricos estão reservatórios subterrâneos de contenção, conhecidos popularmente como piscinões. Esse modelo começou a ser implantado na cidade na década de 1990 para armazenar temporariamente o volume excedente das chuvas e liberar a água gradualmente ao sistema de drenagem.

Um dos exemplos mais conhecidos na cidade  é o reservatório da Praça Charles Miller, no bairro do Pacaembu.  Na Zona Norte, moradores costumam citar o reservatório que recebe as águas dos córregos Paciência e Maria Paula. 

Localizado na Avenida Jardim Japão e inaugurado em 2021, o piscinão tem capacidade para armazenar até 106 mil m³, sendo coberto por uma laje de aproximadamente 9.500 m³ que abriga a Sociedade Amigos da Vila Constança (SAVIC) com 1.400 m² de área útil. O edifício conta com dois pavimentos, cinco salas, um salão multiuso, cozinha, sanitários e área administrativa.

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Área sugerida pelo estudo para a implantação de um piscinão na Praça Nossa Senhora dos Prazeres na Parada Inglesa.

Piscinões na Parada Inglesa e Carandiru

Para a bacia do Carajás, os estudos indicam alternativas que incluem reservatórios em áreas como Praça Nossa Senhora dos Prazeres, Centro Esportivo Jardim São Paulo e Parque da Juventude, além de reforço de galerias existentes.

Fontes técnicas estimam que a implantação de uma estrutura desse porte pode ultrapassar R$ 150 milhões, a depender das condições do terreno e de eventuais desapropriações. Não há orçamento oficial divulgado.

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Área sugerida pelo estudo para a implantação de um piscinão na Avenida General Ataliba Leonel – próximo a Escola Estadual Buenos Aires

As enchentes na Zona Norte de São Paulo constam em diagnósticos publicados há quase uma década. Os estudos apontam intervenções, estimam custos e identificam áreas prioritárias. O debate atual envolve a execução dessas medidas e a definição de cronogramas.

A reportagem procurou a Prefeitura de São Paulo para informar quais intervenções estão previstas para a região e aguarda posicionamento oficial.

Área sugerida pelo estudo para a implantação de um piscinão no Parque da Juventude

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