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Entrou em vigor na 5ª feira (1º/01/2026) o reajuste de 6,11% na tarifa de água e esgoto para as 375 cidades atendidas pela Sabesp. Para residências com consumo entre 11 m³ e 20 m³, o valor do metro cúbico passou de R$ 6,01 para R$ 6,40.
O aumento foi autorizado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Artesp) e marca o primeiro reajuste desde a privatização da companhia, concluída em julho de 2024 — um processo amplamente defendido pelo Governo do Estado como solução para modernizar a empresa, ampliar investimentos e garantir segurança hídrica à população.
Desde o início da desestatização, o discurso oficial tem sido repetido à exaustão: a privatização seria benéfica, não encareceria o serviço e traria eficiência à gestão da água.
Em comunicado recente, o governo afirma que o reajuste atual apenas recompõe a inflação do período e que o índice aplicado é cerca de 15% menor do que seria praticado caso a Sabesp tivesse permanecido estatal.
Discurso tecnicamente correto e politicamente conveniente
A nota reforça ainda que “não há aumento real da tarifa” e que a atualização segue as regras do novo modelo regulatório. Um discurso tecnicamente correto, politicamente conveniente — sobretudo em um cenário em que o governador, já em condição de candidato, acompanha de perto a repercussão de cada decisão que possa pesar na próxima eleição.
Na vida real, porém, a conta chega inteira ao consumidor. E chega em um contexto no mínimo contraditório: água mais cara, abastecimento irregular e bairros inteiros passando datas simbólicas, como Natal e Réveillon, sem uma gota nas torneiras, especialmente em regiões da Zona Norte de São Paulo.
Febeapá de Stanislaw Ponte Preta (ou os entendedores entenderão)
Durante a edição do SP1, da Rede Globo, exibida na sexta-feira (2/01/2026), a jornalista Mariana Aldano abriu a reportagem sobre o reajuste com a seguinte frase:
“A conta de água mais cara pode ajudar a frear o consumo, porque o saldo deixado por 2025 é muito preocupante.”
A escolha das palavras chamou atenção. Ao sugerir que o aumento da tarifa pode funcionar como instrumento de controle do consumo, a abordagem desloca o foco da gestão pública e coloca no colo da população a responsabilidade pela crise hídrica que atinge a Grande São Paulo.
A reportagem não ouviu moradores de bairros que enfrentaram dias seguidos sem abastecimento, nem consumidores diretamente impactados pela alta da conta. Tampouco aprofundou os efeitos da chamada redução de pressão, medida apresentada como economia, mas que na prática significa água que não chega a regiões mais altas da cidade.
Na prática, os efeitos do reajuste e das medidas adotadas pela Sabesp são sentidos de forma desigual pela cidade. Na Zona Norte de São Paulo, moradores de bairros como Santana, Tucuruvi, Mandaqui, Tremembé, Vila Guilherme, Vila Maria, Jaçanã, Brasilândia, Cachoeirinha e Freguesia do Ó relataram falta d’água ou abastecimento intermitente durante o Natal e o Réveillon.
Regiões mais altas, historicamente sensíveis à chamada redução de pressão, seguem entre as mais impactadas. Para esses moradores, o discurso oficial de que não há racionamento contrasta com a realidade cotidiana: a conta chega cheia, mas a água não.
Como veículo de comunicação com atuação direta na Zona Norte, o DiárioZonaNorte acompanha há meses relatos recorrentes de interrupções no fornecimento, especialmente em períodos de calor intenso — justamente quando o consumo básico aumenta e a dependência do serviço se torna ainda mais evidente.
Captação recorde, reservatórios no limite
Outro dado que merece atenção é o recorde de captação de água registrado pela Sabesp em 2025. Especialistas alertam que esse volume elevado pode acelerar o esvaziamento dos reservatórios, agravando o cenário nos próximos meses.
Informações divulgadas pela própria companhia mostram que, ao longo de 2025, os níveis médios dos reservatórios paulistas seguiram em tendência de queda, atingindo os patamares mais baixos no segundo semestre.
Sistema Cantareira opera com apenas 20,1%
O Sistema Cantareira, principal manancial do estado, opera atualmente com 20,1% da capacidade, segundo dados divulgados pela Sabesp na manhã desta 6ª feira (02/01/2026). Estamos muito próximos de entrar no volume morto dos reservatórios, como aconteceu na crise hídrica de 2014.
A queda ocorre em meio a altas temperaturas, aumento expressivo do consumo e um período de estiagem prolongada. De acordo com a Sabesp e o Governo do Estado a a principal estratégia para combater a crise hídrica é a redução de pressão, que tem funcionado na prática, como um racionamento não declarado — ainda que oficialmente o termo continue fora do vocabulário institucional.
O detalhe inconveniente é que, para milhares de moradores, essa “estratégia” significa simplesmente ficar sem água.
O Cantareira abastece cerca de metade da população da Região Metropolitana de São Paulo, além de cidades como Campinas, nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O sistema é formado pelos reservatórios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro, com capacidade total próxima de 1 trilhão de litros de água, além da interligação Jaguari–Atibainha, em operação desde 2018.
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