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Entre muros e pontes: o Brasil que acolhe refugiados e o papel do cooperativismo na inclusão real

Brasil refugiados cooperativismo inclusão
Tempo de Leitura: 5 minutos

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  • Em 2025, Brasil recebeu 156.612 pessoas reconhecidas como refugiadas
  • Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP oferece Curso de Alfabetização de Língua Portuguesa para Estrangeiros e promove inclusão real

O deslocamento forçado atingiu níveis recordes no mundo. Segundo o relatório Tendências Globais – Deslocamento Forçado, divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), 122,1 milhões de pessoas vivem hoje longe de seus países de origem contra a própria vontade — o maior número já registrado e o décimo ano consecutivo de crescimento.

Diante desse cenário, as políticas migratórias deixaram de ser apenas instrumentos administrativos e passaram a refletir modelos de poder, economia e valores. As escolhas feitas por cada país impactam não apenas fronteiras, mas também crescimento econômico, inovação e coesão social.

A tradição diplomática brasileira

O posicionamento do Brasil no tema migratório não é episódico. Ele se ancora em uma tradição diplomática histórica. Em 1907, durante a Segunda Conferência Internacional da Paz, em Haia, Rui Barbosa defendeu o princípio da igualdade soberana das nações, ideia que se tornaria um dos pilares do multilateralismo contemporâneo.

Esse legado orienta até hoje a diplomacia brasileira, marcada pelo equilíbrio, pela mediação e pelo respeito aos direitos humanos — mesmo em um contexto internacional cada vez mais tensionado pela postura unilateral de grandes potências.

O Brasil e os números do acolhimento

De acordo com o relatório Refúgio em Números, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 68.159 novas solicitações de reconhecimento da condição de refugiado em 2024, um aumento de 16,3% em relação a 2023.

Ao final do ano, o país contabilizava 156.612 pessoas reconhecidas como refugiadas pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) na última década. Desde 2015, mais de 450 mil pedidos de refúgio, de 175 nacionalidades, foram apresentados no Brasil.

A maior parte dos reconhecimentos em 2024 foi de cidadãos da Venezuela, seguidos por pessoas do Afeganistão, da Colômbia e da Síria. Aproximadamente 40% dos reconhecimentos simplificados envolvem crianças e adolescentes, o grupo mais vulnerável dentro de uma população já fragilizada.

O Brasil também se destaca internacionalmente pela produção contínua, transparente e baseada em evidências científicas de seus dados migratórios, por meio do Observatório das Migrações (ObMigra), referência no monitoramento e na formulação de políticas públicas.

Estados Unidos: endurecimento e deportações em alta

Enquanto o Brasil amplia sua política de acolhimento humanitário, os Estados Unidos adotam uma estratégia oposta, baseada no endurecimento das regras migratórias.

Segundo informações do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), divulgadas pela agência Reuters, mais de 180 mil pessoas foram deportadas apenas nos primeiros nove meses de 2025 — o maior número registrado desde 2019.

A Reuters também reportou a ampliação de barreiras físicas e tecnológicas na fronteira com o México, além do aumento das operações de remoção e do endurecimento dos critérios para permanência de imigrantes, inclusive aqueles em situação de regularização provisória.

Essas medidas reacenderam o debate internacional sobre os impactos sociais, humanitários e econômicos das políticas migratórias restritivas adotadas por Washington.

Migração em números. Clique em cima da imagem para ampliá-la

Migração, economia e desenvolvimento

Diversos estudos internacionais apontam que políticas migratórias mais abertas tendem a impulsionar inovação, produtividade e crescimento econômico, especialmente em setores estratégicos. O próprio histórico de economias centrais mostra que a migração qualificada foi, por décadas, um dos motores do desenvolvimento tecnológico e do empreendedorismo.

Ao restringir fluxos migratórios, países reduzem o acesso a capital humano e ampliam gargalos em áreas como saúde, tecnologia e serviços. O desafio, portanto, não está apenas em acolher, mas em integrar com planejamento, educação e acesso ao trabalho.

Nesse ponto, o Brasil ainda enfrenta uma lacuna importante: acolhe, mas integra de forma desigual.

Quando o acolhimento vira inclusão: o papel do cooperativismo

É justamente nessa transição entre política pública e vida real que iniciativas locais ganham relevância. Um exemplo concreto é o projeto da Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP, que criou o Curso de Alfabetização de Língua Portuguesa para Estrangeiros, em Palotina/PR.

A iniciativa parte de uma constatação central: a língua é a principal barreira enfrentada por estrangeiros em situação de vulnerabilidade. Sem domínio do idioma, o acesso a direitos, serviços e oportunidades se torna limitado.

Educação como ponte para a autonomia

O projeto teve início em 2024 com uma turma de 20 alunos no nível básico e evoluiu para duas turmas de iniciantes e uma de nível intermediário, reunindo 48 alunos de diferentes nacionalidades.

Além da alfabetização, os participantes aprendem sobre a cultura brasileira e o cotidiano do país, ampliando a capacidade de inserção social e econômica.

A construção é coletiva. A Faculdade Uniguaçu, por meio do curso de Pedagogia, participa com alunas que atuam como professoras, enquanto o Comitê Mulher da Sicredi organiza as inscrições, faz a busca ativa por estudantes e oferece suporte durante as aulas. Também é de responsabilidade do Comitê Mulher a impressão das apostilas, pagamento das horas aulas e organização do local da aula.

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Integrantes do Comitê Mulher da Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP em Palotina/PR

Esse projeto nasceu com o objetivo de cooperar com os estrangeiros que escolheram a nossa região para viver. Quando conhecem melhor a língua portuguesa, eles conseguem se comunicar com mais segurança e participar de forma mais ativa do dia a dia local. O grande foco é a inclusão, totalmente conectado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que preconizam a educação de qualidade e a igualdade”, afirma Cláudia Bonatti, gerente de desenvolvimento do cooperativismo na Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP.

O projeto começou ano passado, em parceria com a Uniguaçu, através do curso de Pedagogia. A primeira turma foi de iniciantes! Esse ano tivemos 2 turmas, uma para iniciantes e outra para intermediário! Para o próximo ano, além dos dois perdurais existentes, teremos também, o avançado. Desta forma vamos favorecendo a integração com a comunidade local“, finaliza Claúdia.

Da direita para a esquerda: Claúdia Bonatti – gerente de desenvolvimento do cooperativismo e Elisangela Mancini – gerente regional de desenvolvimento Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP

Inclusão que gera dignidade

Ao concluir o nível intermediário, os participantes avançam em vocabulário, compreensão de textos e conversação, facilitando desde situações simples do cotidiano até o acesso a novas oportunidades de trabalho e estudo.

Foi um momento único para os formandos e para a cooperativa, que busca a inclusão deste público, que encontrou em Palotina a oportunidade de construir uma vida mais próspera”, destaca o diretor executivo Moacir Niehues.

Moacir Niehues, diretor executivo da Sicredi Vale do Piquiri Abcd PR/SP

Escolhas que definem futuros

Em um mundo marcado pelo crescimento do deslocamento forçado, o contraste entre muros e pontes se torna cada vez mais evidente. Os dados mostram que acolher é fundamental — mas integrar é o que transforma vidas, economias e sociedades.

Entre políticas de exclusão e iniciativas de inclusão, o Brasil reafirma uma escolha histórica. E são experiências concretas, como a da Sicredi, que mostram como essa escolha pode sair do discurso e ganhar forma no cotidiano.

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