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Obra de R$ 1,6 milhão em praça na Zona Norte levanta dúvidas e falta de transparência

Obra Praça Parque Novo Mundo
Bancos destruídos na praça; Foto: Leitor/morador
Tempo de Leitura: 5 minutos
da Redação DiárioZonaNorte

Uma reforma orçada em R$ 1,6 milhão na Praça Paulo Sella Neto, localizada nos limites do Parque Novo Mundo e Jardim Guançã, na Zona Norte, tem provocado estranhamento e insatisfação entre moradores da região. Uma praça diferente em toda a cidade, sui generis, com um enorme lago que serve aos moradores como pesca esportiva – muitas tilápias, bagres e outros já foram fisgados. Do outro lado, uma enorme pista de skate, brinquedão, quadra poliesportiva  e aparelhos de execícios.

Do lado bom, o lado triste. Um dos motivos da “bronca” dos moradores  é a demolição de dezenas de bancos de granito resistente ao tempo e em bom estado, que resistem inteiros há cerca de 22 anos — até com formas circulares e mesas com tabuleiros do jogo de damas — além da ausência de informações detalhadas sobre o projeto, o cronograma e o escopo da obra, que deverá ser executada pela empresa B&B Engenharia e Construções S/A — da Vila Medeiros.

A intervenção foi iniciada oficialmente nesta 2a. feira (29/09/2025), segundo resposta encaminhada pela Subprefeitura Vila Maria/Vila Guilherme/Vila Medeiros, e tem conclusão prevista para o primeiro trimestre de 2026 — além do prazo fixado na placa para janeiro. O campo de batalha mostra a destruição total de bancos e mesas, já no primeiro dia.

Mapa da Praça Paulo Sella Neto (Tin Tin) – Foto: Google Earth

Falta de diálogo

No entanto, moradores denunciam que o início das obras se deu sem qualquer tipo de diálogo prévio com a comunidade, divulgação nos meios jornalísticos ou de midias sociais — até mesmo nas oficiais e da Subprefeitura —,  tampouco com a apresentação pública de relatório fotográfico ou croquis da nova configuração da praça — que também foram solicitados por este jornal.

A única sinalização no local é uma placa genérica, sem os padrões visuais tradicionais da Prefeitura de São Paulo, que informa apenas: “OBRA DA PREFEITURA – EXECUÇÃO DE SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO NA PRAÇA PAULO SELLA NETO – JARDIM GUANÇÔ. Somente na parte inferior da placa, em letras miúdas, quase ilegíveis,  consta o valor total da obra: R$ 1.600.000,00 (um milhão e seiscentos mil reais), com prazo de execução de 150 dias, contados a partir de 25 de agosto de 2025 — ou seja, até janeiro de 2026.

Placa da Prefeitura – Foto: Leitor/morador

Placa com pouca informação

Entre os principais questionamentos dos moradores, que foram encaminhados pelo DiárioZonaNorte à Prefeitura de São Paulo: por que os bancos foram destruídos? Não seria possível restaurá-los ou reaproveitá-los em outras áreas? O que será instalado em seu lugar? E quais serão, de fato, as melhorias feitas na praça, que conta com lago de pesca esportiva, brinquedão infantil, pista de skate e quadra esportiva? Outra dúvida frequente diz respeito à participação do Conselho Participativo Municipal nas decisões sobre a obra: o colegiado foi consultado ou a verba sequer passou por essa instância de representação popular?

As perguntas básicas não foram respondidas à reportagem pela Subprefeitura Vila Maria/Vila Guilherme/Vila Medeiros, que apenas afirmou que ” a reforma tem por objetivo garantir melhores condições de segurança e acessibilidade”.

Obra Praça Zona Norte
Operários quebrando mesas e bancos. Foto: Leitor/morador

A ordem é “quebrar”

E ainda acrescentou sem detalhes que “a intervenção contempla a recuperação das calçadas, a instalação de orla de separação, a requalificação paisagística, a reforma da quadra esportiva, pintura geral, recuperação das escadas e instalação de corrimãos. Além disso, os bancos de mármore serão substituídos por bancos de concreto, que garantirão maior durabilidade e segurança para os usuários”.  Garantiu ainda que o brinquedão infantil será mantido, assim como deve ocorrer com o  lago e outros equipamentos.

Mas deixou de atender o pedido que consta em situações da nova paginação de uma praça que obrigatoriamente deve anexar ao projeto o relatório fotográfico anterior às obras e do croqui com suas mudanças  nos equipamentos, contrariando princípios básicos de transparência e prestação de contas na administração pública.

Obra Praça Zona Norte
Restos dos bancos. Foto:Leitor/morador

Distanciamento entre gestão pública e comunidade

A falta de clareza sobre o que está sendo feito com um valor tão significativo — sobretudo em um espaço público frequentado diariamente por famílias, jovens e idosos da região — reforça a sensação de distanciamento entre gestão pública e comunidade.

Como uma projeção para que o leitor tenha uma ideia do peso desse investimento, R$ 1,6 milhão representam, por exemplo, mais de 1.300 cestas básicas oficiais mensais – calculada pelo DIEESE – para famílias de baixa renda, ou o financiamento de cursos técnicos para mais de 220 jovens, ou ainda a entrada para a casa própria de 20 famílias.

A população, que reconhece a importância de manter e revitalizar espaços públicos, cobra transparência, participação e respeito na condução de obras que impactam diretamente seu cotidiano. “Tudo é bem vindo, desde que o povo da região tenha informações do que vai ser feito em seu benefício, com sua participação”, lembra um morador.

Obra Praça Zona Norte
Praça Paulo Sella Neto – Foto: Leitor/Morador

Os nomes na praça

A praça atualmente leva o nome do esportista Paulo Sella Neto, conhecido como Tin Tin, um jovem skatista e morador da região que frequentava e cuidava do local. Ele nasceu em 1997 e faleceu tragicamente em 2016, aos 19 anos, após cair de uma ponte junto à Rodovia Presidente Dutra, enquanto soltava pipa.

Em sua homenagem ao skatista, com base na Lei “Ruas da Memória“, desde 12/09/2017, o então vereador Eduardo Suplicy apresentou com base no Projeto de Lei 447/2016, propondo a troca do nome da praça, que até então homenageava o general Milton Tavares de Souza, oficial do Exército com histórico de atuação como torturador durante a ditadura militar.

A mudança foi aprovada pela Câmara Municipal de São Paulo e sancionada ainda em 2016, como de remover e apagar a memória de um torturador e resgatar a memória afetiva e valorizar figuras locais que representam a juventude, o esporte e o vínculo comunitário. A homenagem simboliza uma mudança de valores: de um passado autoritário para um futuro que reconhece a importância das vozes da periferia e da cultura urbana.


Álbum/portifólio com mais fotos da Praça Paulo Sella Neto. Clique para expandí-la:


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