da Redação DiárioZonaNorte
- Quando se enxerga a idade como experiência e oportunidade, a saúde física e mental tende a melhorar; o contrário abre espaço para doenças;
- Em várias culturas asiáticas, a idade é vista como virtude e fonte de conselhos, ao contrário de lugares que valorizam só o novo; e
- O preconceito contra pessoas mais velhas, chamado de etarismo, provoca solidão, piora da saúde e pode até reduzir a expectativa de vida.
No Dia Internacional da Pessoa Idosa, organizações e movimentos realizam um Cortejo Cultural até a Câmara Municipal de São Paulo. A concentração acontece na 4ª feira (01/10/2025), às 9 horas, na Praça Dom José Gaspar, ao lado da Biblioteca Mário de Andrade. A saída está prevista para 10 horas, seguindo pelo Viaduto Jacareí. No destino, será entregue e protocolada uma Carta Aberta em defesa dos direitos da pessoa idosa. O documento cobra a efetivação do Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003).
O ato busca garantir respeito e políticas públicas para quem envelhece na cidade.
O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Em 2000, os indivíduos com 60 anos ou mais representavam 8,7% da população; em 2023, já somavam 15,6%. Na cidade de São Paulo, segundo o IBGE (Censo 2022), os idosos já são 17,7% da população — mais de 2,17 milhões de pessoas — e a projeção para 2030 é de 2,3 milhões.
Esse envelhecimento impõe desafios urgentes ao poder público e à sociedade civil, exigindo adaptação urbana, combate ao idadismo (discriminação por idade) e oferta de serviços de saúde e convivência.
A tecnologia virou a nova “caligrafia” do cotidiano. As antigas “cartinhas com essas mal traçadas linhas” foram substituídas por mensagens instantâneas, aplicativos, reconhecimento facial em bancos, consultas e exames on-line.
A adesão cresce: entre 2016 e 2023, o uso de internet por pessoas de 60 anos ou mais saltou de 24,7% para 66%. Mas a exclusão digital ainda impede que milhões acessem serviços públicos e programas sociais.
A saúde é eixo central. A Estratégia Saúde da Família cobre cerca de 70% da população brasileira e é decisiva para reduzir desigualdades e proteger idosos. Mas a mera cobertura não basta. O país precisa de cuidado contínuo e integrado: reabilitação, apoio psicológico, prevenção de quedas, controle de doenças crônicas e suporte a cuidadores.
Em São Paulo, o Centro de Referência do Idoso da Zona Norte – CRI Norte é referência, mas carece de divulgação e horários mais amplos para atender moradores de bairros distantes.

Zona Norte: distritos e realidades
A Zona Norte reúne 11 distritos oficiais: Casa Verde / Cachoeirinha / Limão – Santana / Tucuruvi / Mandaqui – Jaçanã / Tremembé – Vila Maria / Vila Guilherme / Vila Medeiros. Em todos, cresce a presença de moradores com 60 anos ou mais e os desafios variam:
- Santana / Tucuruvi / Mandaqui concentram a maior rede de saúde e transporte, além do CRI Norte, mas a divulgação limitada e os horários restritos dificultam o acesso de quem vive em áreas mais afastadas.
- Casa Verde / Cachoeirinha / Limão apresentam alta densidade populacional e calçadas irregulares, aumentando o risco de quedas e restringindo a mobilidade de quem depende de ônibus.
- Jaçanã / Tremembé combinam áreas urbanas e de mata, exigindo longos deslocamentos até serviços especializados; em alguns trechos, a falta de iluminação e de pontos de ônibus adaptados torna o trajeto inseguro.
- Vila Maria / Vila Guilherme / Vila Medeiros vivem crescimento industrial e comercial, mas carecem de espaços de convivência e lazer acessíveis, fundamentais para prevenir isolamento social.
Em todos esses distritos, cresce a demanda por atendimento geriátrico, alfabetização digital, transporte adaptado e moradias seguras. Faltam, no entanto, políticas integradas que levem em conta as características de cada território, para que Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e o CRI Norte se tornem portas de entrada reais para o envelhecimento saudável.

Rede socioassistencial e mobilidade
Além do CRI Norte, administrado pelo governo estadual, a Prefeitura de São Paulo mantém serviços e equipamentos voltados à população idosa, mas ainda insuficientes para garantir bem-estar e qualidade de vida nos 11 distritos da Zona Norte.
O Conselho Municipal de Direitos da Pessoa Idosa (CMI) e o Fundo Municipal do Idoso (FMID), com normas atualizadas, financiam e planejam ações permanentes. Entretanto, a execução prática, sobretudo nas áreas periféricas, segue limitada.
Na ponta do atendimento, os Núcleos de Convivência de Idosos (NCIs) oferecem oficinas, atividades culturais e acompanhamento domiciliar. Um exemplo é o NCI Santo Expedito, no Limão, que fortalece vínculos e ajuda a prevenir o isolamento social.
Já para idosos com dependência leve ou moderada, a rede municipal mantém Centros Dia para Idosos (CDIs) — cerca de 16 em toda a cidade, com 30 vagas cada —, que funcionam como proteção social diurna, evitando institucionalização e promovendo a inclusão. O acesso é validado pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS).
Outro recurso fundamental são as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), que oferecem moradia, alimentação e cuidados diários a pessoas com mais de 60 anos em situação de vulnerabilidade social, sem suporte familiar ou com fragilidades físicas ou cognitivas. Existem ILPIs públicas, filantrópicas e privadas; nas públicas, o acesso também depende de avaliação do CREAS.
A mobilidade é outro ponto-chave. O Bilhete Único da Pessoa Idosa assegura gratuidade em ônibus municipais a partir de 60 anos e no transporte metropolitano a partir de 65, permitindo deslocamentos entre bairros e corredores viários importantes, como Voluntários da Pátria, Engenheiro Caetano Álvares e Braz Leme. Mesmo assim, calçadas quebradas, pontos de ônibus sem cobertura e iluminação precária continuam dificultando o acesso.
Para quem precisa de equipamentos de apoio, a cidade dispõe da Paraoficina Móvel, que realiza reparos gratuitos em cadeiras de rodas, bengalas, muletas, órteses e próteses — mais de 28 mil consertos desde 2019, com atuação em bairros como Santana, Jaçanã e Tremembé. Quando é necessário confeccionar ou adaptar equipamentos, a rede municipal de Órteses, Próteses e Meios de Locomoção (OPM) oferece agendamento e acompanhamento pelo SUS.
Apesar desses recursos, o acesso real ainda é desigual. O CRI Norte segue como principal referência em saúde especializada para Santana, Tucuruvi e Mandaqui, mas a distância e o transporte dificultam a chegada de moradores de distritos como Tremembé ou Vila Medeiros. NCIs, CDIs e ILPIs cumprem papel importante, mas ainda carecem de mais unidades e melhor integração com a rede de saúde.

Desafios locais
As dificuldades observadas na Zona Norte refletem tensões de todo o Brasil. Mesmo com leis avançadas, como o Estatuto do Idoso, o cotidiano de quem envelhece ainda é marcado por obstáculos: filas intermináveis, transporte caro e inseguro, falta de calçadas acessíveis e atendimento fragmentado.
A violência também preocupa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 6 idosos sofre algum tipo de violência — física, psicológica, financeira ou negligência. No dia a dia, violência também é a senha on-line intransponível, o ônibus inacessível, a demora extrema no atendimento de saúde.
Por fim, é preciso desmontar mitos: não há espaço para um “novo” Li Ching-Yuen, o chinês que teria vivido 256 anos com 14 esposas e 200 filhos. A longevidade saudável não é milagre; é fruto de políticas consistentes, ambientes acolhedores e vínculos sociais.
Caminhos possíveis
Divulgar de forma ativa o CRI Norte, ampliar horários, garantir transporte adaptado, fortalecer as UBSs, instalar novos NCIs, CDIs e ILPIs, melhorar calçadas e iluminação e monitorar indicadores por distrito são passos imediatos. Ao mesmo tempo, é fundamental ampliar o acompanhamento com dados locais para planejar intervenções precisas e efetivas.
O Brasil e sua maior metrópole já são territórios idosos em formação. O futuro começa agora, com políticas que cheguem ao bairro, respeitem a realidade de cada um dos 11 distritos da Zona Norte e escutem as vozes dos mais velhos. É a partir dessas escolhas, e não de lendas, que se constrói uma vida longa com dignidade.
Serviço
- Centro de Referência do Idoso da Zona Norte – CRI-Norte – Rua Voluntários da Pátria, 4301 – Santana / Hospital do Mandaqui /Telefone: (11) 2972.9200 – site: clique aqui
- “Vovôs Pontocom ensina tecnologia para idosos com cursos gratuitos, vídeos explicativos e dicas de segurança online” – Reportagem DiárioZonaNorte – clique aqui
- Núcleo de Convivência de Idosos (NCI) Santo Expedito – Rua Brigadeiro Xavier de Brito, 335 – Limão, São Paulo – Telefone: (11) 3857-9485
- Mais endereços do NCI na Zona Norte — clique aqui
<< Com apoio de pesquisas do Centro de Informações/Arquivo DiárioZonaNorte / Fontes: Governo de SP / CRI-Norte / Prefeitura de SP >>















































