da Redação DiárioZonaNorte
- O nome 14 Bis foi assim denominado porque Santos Dumont utilizou o Balão nº 14 para testes de estabilidade de voo e o aparelho seria o segundo nº 14;
- O voo do 14-Bis percorreu mais de 200 metros em um aparelho mais pesado que o ar, sem auxílio de trilhos ou impulsos externos, decolando e voando por seus próprios meios; e
- O voo de Santos Dumont foi considerado o primeiro voo sem propulsão externa, ao contrário dos primeiros voos dos americanos irmãos Wright que necessitavam de assistência, como o uso de uma catapulta.
<< EM PRIMEIRA MÃO>> === Depois de um hiato de um ano e nove meses, um dos símbolos mais emblemáticos da Zona Norte de São Paulo está retornando ao seu lugar de destaque. Nesa 5ª feira (18/09/2025), no período da tarde, um caminhão disponibilizado pela Aeronáutica realizou o transporte das estruturas da réplica do 14 Bis até ao seu espaço original na Praça Campo de Bagatelle, em Santana, acesso do bairro pela Avenida Santos Dumont.
Com esse deslocamento no transporte de partes da réplica do 14 Bis, apesar da pouca distância, houve o auxílio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), no movimentado trânsito local. Por questões de acertos com a equipe de restauradores, a montagem do 14 Bis e a reinstalação do monumento será realizada em definitivo nos próximos dias.

O monumento, que se tornou referência visual para quem cruza a região diariamente, volta a ser parte da paisagem após uma ausência que deixou moradores e motoristas sem o cartão-postal habitual.
A Prefeitura de São Paulo estuda a possibilidade de uma solenidade de reinauguração oficial com a presença do prefeito e seus assessores com autoridades da Aeronáutica, além de outros representantes da sociedade civil.
Durante esse período, a réplica símbolo do feito histórico de Alberto Santos Dumont — considerado o “pai da aviação” — percorreu um curto “voo” de cerca de 800 metros, quando foi transportado em cima de um caminhão da Aeronáutica até um dos galpões do Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA), ao lado do Campo de Marte, onde recebeu cuidados técnicos em um espaço preparado especialmente para abrigar a restauração.

O tempo pedia restauro
O monumento, inaugurado há mais de cinco décadas, já mostrava sinais do desgaste provocado pelas intempéries do tempo. Além disso, havia sofrido danos após uma forte e atípica ventania que atingiu a região, acelerando a necessidade de intervenções.
A decisão oficial para restaurar a peça foi publicada em fevereiro deste ano, quando a Prefeitura de São Paulo, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), autorizou a abertura do processo, sem interferência política.
A obra ficou a cargo da Julio Moraes Conservação e Restauro Ltda., empresa especializada em bens culturais, sediada no bairro Jardim São Paulo, também na Zona Norte.
Essa empresa de restauração, que é reconhecida pela experiência técnica, assumiu a responsabilidade pela recuperação completa da réplica, dentro de um contrato de R$ 179 mil – que, segundo especialistas, um valor baixo pelo tempo do material (50 anos), a complexidade do trabalho e o tempo exigido.

Como foi a restauração
Sob a coordenação do sócio da empresa, o renomado restaurador Claus Ignácio, uma equipe de especialistas trabalhou intensamente nos últimos seis meses, em um processo que exigiu rigor técnico e atenção minuciosa.
Cada detalhe da réplica foi tratado segundo critérios éticos e padrões adotados internacionalmente para a conservação de bens históricos. O objetivo foi devolver ao monumento a integridade visual e estrutural, garantindo também a preservação de sua importância cultural para a cidade.
A restauração envolveu uma série de procedimentos criteriosos. O trabalho começou com a limpeza química e mecânica de toda a estrutura metálica, utilizando hidrojateamento de baixa pressão e detergente neutro para remover sujeiras acumuladas pelo tempo e pela poluição. Em seguida, foram tratados os pontos de oxidação com abrasão controlada e aplicação de conversor de ferrugem para evitar o avanço da deterioração.
As partes mais comprometidas da estrutura foram substituídas, enquanto outras receberam reforço. Toda a réplica foi repintada com tinta poliuretano, garantindo proteção e durabilidade. O pedestal de granito passou por higienização completa, com revisão das juntas. Já os suportes auxiliares, em concreto armado, foram avaliados e tratados conforme o grau de desgaste.
Outro ponto importante foi a readequação da base do busto de Santos Dumont, garantindo estabilidade e alinhamento estético com o conjunto. Para assegurar transparência, cada etapa do restauro foi registrada fotograficamente, acompanhada de relatório técnico detalhado. Todo o processo seguiu normas internacionais de conservação, respeitando critérios de reversibilidade, mínima interferência e fidelidade à obra original.

A praça e sua história
Criada em 5 de julho de 1974 (há 51 anos), a Praça Campo de Bagatelle foi batizada em homenagem ao local em Paris onde Santos Dumont realizou seu voo histórico com o 14 Bis, em 23 de outubro de 1906. Antes disso, era conhecida como Praça dos Bandeirantes. A mudança fez parte das comemorações do centenário de nascimento do inventor brasileiro e reforçou o desejo de eternizar ali a importância de sua contribuição.
Mais de três décadas depois, em 2006, a praça recebeu a tão aguardada réplica em tamanho real, junto ao busto do aviador. A obra, de grandes dimensões — cerca de 10 por 12 metros —, foi desenvolvida pelos artistas Oswaldo e Enivaldo Luppi, com a supervisão de Luís Morrone. Desde então, tornou-se um marco visual e emocional na “Porta de Entrada da Zona Norte”.

Entre o Campo de Marte e as invenções
O retorno do avião à Praça Campo de Bagatelle dialoga com a vizinhança histórica. O Campo de Marte, logo ao lado, é testemunha silenciosa de épocas da aviação brasileira. Ali se formaram gerações de pilotos e se registraram capítulos importantes da aviação nacional.
E não é difícil imaginar que a réplica, erguida a poucos metros desse espaço, guarde um elo invisível com a trajetória de Eduardo Chaves, amigo de Santos Dumont, aviador pioneiro que mantinha uma fazenda (hoje o bairro leva o seu nome na Zona Norte) com campo de pouso frequentado pelo inventor. Ainda na Zona Norte, outro ponto que lembra a aviação é a histórica Igreja Nossa Senhora do Loreto, na Vila Medeiros, que vista do alto tem o formato de um avião.
E nessa mesma paisagem da memória, cabe lembrar outro visionário brasileiro que mudou o rumo da história: o Padre Roberto Landell de Moura (1861-1928), reconhecido como o inventor do rádio e pioneiro das transmissões de voz sem fio, um pouco antes – em 1899. Na mesma região de Santana, Landell de Moura trabalhou em em suas experimentações e testes junto à Capela Santa Cruz e do antigo Colégio Sagrado Coração de Maria, onde era capelão
Naquela lugar, Landell abriu os caminhos da comunicação moderna, aproximando continentes e unindo pessoas por meio das ondas invisíveis. A presença do 14 Bis, tão próximo do Campo de Marte, ecoa também esse espírito de invenção e ousadia que marcou o Brasil na início do século XX. Junto ao primeiro aeroporto de São Paulo, o Campo de Marte, outro símbolo histórico é o AeroClube de São Paulo, desde 1931 (há 94 anos) formando centenas de jovens apaixonados pela aviação.

Um voo que não termina
Mais do que um simples objeto decorativo, o 14 Bis da Praça Campo de Bagatelle é um marco para a memória paulistana e brasileira. Para os moradores da Zona Norte, sua volta representa a recuperação de um símbolo de identidade local.
Já para os visitantes, trata-se de um convite para recordar a ousadia de Santos Dumont, que em 1906 fez história ao decolar com o 14 Bis em Paris, dando ao mundo a primeira demonstração pública de voo em um avião mais pesado que o ar.
Com a réplica do 14 Bis novamente fixada sobre seu pedestal, não será apenas a retorno de um monumento. Será a reabertura de uma janela para o passado, lembrando que, antes dos arranha-céus e das vias expressas, existiram homens que olharam para o céu e ousaram desenhar caminhos invisíveis.
E talvez a cena seja ainda mais poética: o avião que nunca levantará voo, mas que insiste a ensinar à cidade que a grandeza de um povo também se mede pela forma como cultiva sua memória. Entre motores, buzinas e faróis, as asas do 14 Bis volta a flutuar sobre Santana, como um convite diário a acreditar que o sonho — assim como o voo — precisa sempre de espaço para decolar.
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