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Estação da CETESB em Santana é a única na ZN para monitorar 11 distritos e 280 bairros

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da Redação DiárioZonaNorte
  • A exposição a poluentes atmosféricos pode causar doenças respiratórias, cardiovasculaes, câncer e até mesmo aumentar a mortalidade;
  • A poluição do ar pode afetar a saúde dos trabalhadores, reduzindo a produtividade e causando absenteísmo; e
  • É necessário implementar políticas que incentivem a redução da poluição do ar e promovam a saúde da população. 

A má qualidade do ar em grandes metrópoles como São Paulo representa uma ameaça concreta e cotidiana à saúde pública. Nos períodos mais críticos, especialmente no outono e no inverno — quando o ar fica mais seco, frio e estagnado —, os riscos aumentam: partículas inaláveis e gases nocivos se acumulam, agravando doenças respiratórias e cardiovasculares, provocando alergias e sobrecarregando os serviços de saúde.

Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas estão entre os mais vulneráveis. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), respirar ar poluído está entre os principais fatores de risco ambiental para mortes prematuras no planeta. Já o Ministério da Saúde,  juntamente com outras instituições, monitora a qualidade do ar no Brasil, com foco nos impactos na saúde pública. A qualidade do ar é considerada um direito de todos, e o Ministério da Saúde busca conscientizar a população sobre os riscos da poluição e a importância do monitoramento. 

Apesar da gravidade do tema, a Zona Norte da capital, onde vivem cerca de 3 milhões de pessoas, conta  apenas com uma estação oficial de monitoramento da qualidade do ar, mantida pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), que é a empresa  responsável pelo controle, fiscalização, monitoramento e licenciamento de atividades geradoras de poluição no Estado de São Paulo.

Estação em Pinheiros, na CETESB – igual à instalada no PAMA, em Santana. Foto: Divulgação

Essa estação automática está localizada junto ao Parque de Material Aeronáutico (PAMA), ao lado do Campo de Marte, no bairro de Santana. Em uma região marcada por altos índices de tráfego, zonas industriais, queima irregular de resíduos e áreas geograficamente vulneráveis, esse único ponto de vigilância é insuficiente para garantir um diagnóstico preciso e ações eficazes de prevenção.

É o único aparelho  da CETESB na Zona Norte, que abrange 11 distritos (Casa Verde / Cachoeirinha/ Limão, Santana / Tucuruvi / Mandaqui ,  Jaçanã / Tremembé e Vila Maria / Vila Guilherme / Vila Medeiros) e os 280 bairros que compõem a Zona Norte. Nesta relação, inclui-se na Vila Maria o Parque Novo Mundo, região próximo da movimentada Rodovia Presidente Dutra, da Marginal e do Terminal de Cargas da Fernão Dias no Parque Novo Mundo – onde é notório a intensa poluição.

A poluição do ar é (in)visível e prerudicial aos moradores.

A gerente da divisão de Qualidade do Ar da Cetesb, Maria Lúcia Guardani, lembra que “essas estações representam o que a população está respirando, 24 horas por dia. Elas captam o ar, processam os dados e nos mostram se o ambiente está seguro ou se exige cuidados”.

 Cadê a Estação do Tremembé?

A situação se agrava com a ausência da Estação Meteorológica do Tremembé do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da Prefeitura de São Paulo, que estava localizada na Av. Maria Amália Lopes de Azevedo, dentro do Parque Estadual da Cantareira, desativada há mais de um ano e após ser alvo de furto. Até agora sem qualquer providência para sua reinstalação.

Segundo informe da GCE ao DiárioZonaNorte, a estação meteorológica automática do Jaçanã/Tremembé foi alvo de vandalismo e furtos de equipamentos por três vezes, o que levou à sua paralisação em 15 de julho do ano passado.  Uma nova estação será instalada em outro local até o final de agosto de 2025, conforme decisão dos técnicos do CGE, em parceria com a Defesa Civil do Tremembé e a Subprefeitura do Jaçanã / Tremembé”. E acrescentou que “a capital paulista dispõe da ajuda de diversas estações meteorológicas automáticas, sendo mais duas  delas na Zona Norte:  Santana/Tucuruvi/Mandaqui e Vila Maria/Guilherme/Vila Medeiros”.

Essa estação não aufere qualidade do ar — como acontece também com a Estação Metereológica do Mirante de Santana, que mantido pela Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) –, mas monitoram chuva, temperatura, umidade relativa, vento e pressão, que seria fundamental para entender o comportamento dos ventos, umidade relativa e a dispersão de poluentes no microclima do Vale do Rio Cabuçu. No contexto macro, sabe-se a direção predominante dos ventos.

Mas dentro de uma região urbana como o Vale do Rio Cabuçu, com topografia mista e concentração de poluentes móveis e fixos, a leitura meteorológica local se torna essencial. Sem a Estação do Tremembé, não se pode mapear com exatidão a origem, a intensidade nem o comportamento desses poluentes — o que fragiliza as políticas públicas ambientais e de saúde.

Pesquisas anteriores e atuais corroboram essa necessidade. Propõe-se, então, uma estação fixa no Vale do Rio Cabuçu para monitorar poluentes das rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias, aeroporto de Cumbica, aterro de Guarulhos e indústrias, que afetam toda a região.

O tráfego aéreo é intenso com prejuízos ao ar e fuligem da região.

Aviões e  o efeito estufa

Segundo levantamentos da Associação Paulista dos Gestores Ambientais (APGAM), a região tem relevo acidentado. Na mesma região, junto a Guarulhos, é o caminho aéreo das aeronaves no aeroporto internacional: a queima de combustível em motores de aeronaves libera gases de efeito estufa, como dióxido de carbono, contribuindo para a poluição e as mudanças climáticas.

Lembrando que ao lado estão bairros localizados em áreas altas e baixas, rodeados por edificações e fontes diretas e indiretas de emissão. E ainda agravante com o aterro sanitário de Guarulhos, a apenas três quilômetros quilômetros da Rodovia Fernão Dias, cujos queimadores de gás metano impactam diretamente a atmosfera da região. No contexto macro, sabe-se a direção predominante dos ventos.

CETESB Estação Santana
Área de aterro sanitário (“lixão”) que contribui com a má qualidade do ar.

A APGAM ATENTA NA ZONA NORTE

Mas dentro de uma região urbana como o Vale do Rio Cabuçu, com topografia mista e concentração de poluentes móveis e fixos, a leitura meteorológica local se torna essencial. Sem a Estação Metereológica do CGE no Tremembé, não se pode mapear com exatidão a origem, a intensidade nem o comportamento desses poluentes — o que fragiliza as políticas públicas ambientais e de saúde.

José Ramos de Carvalho, da APGAM

No Vale do Rio Cabuçu, o “Sensor Jd. Brasil” revela baixa qualidade do ar, impactando a saúde de crianças e idosos. A CETESB precisa urgentemente identificar e quantificar fontes de monóxido de carbono, dióxido de enxofre e nitrogênio”, chama atenção o gestor ambiental e  diretor da APGAM, José Ramos de Carvalho, morador da Zona Norte e profundo conhecedor de toda a região.

Ramos complementa: ” Pesquisas anteriores e atuais corroboram essa necessidade. Propõe-se, então, uma estação fixa no Vale do Rio Cabuçu para monitorar poluentes de rodovias (Dutra, Fernão Dias), aeroporto de Cumbica, aterro de Guarulhos e indústrias, que afetam toda a região”. E um dado importante que ele acrescenta: essa região em termos arbóreos registra 3,6 % do patrimônio de todo o município São Paulo. 

A situação é agravada por relatos constantes de queima de lixo na Avenida do Poeta, próxima ao Terminal de Cargas Fernão Dias, e pela atuação de indústrias com emissão de fumaça visível à noite, especialmente na confluência entre a Avenida Luiz Stamatis e a Avenida Edu Chaves.

O projeto acadêmico de monitoramento efetuado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), confirmou os índices já auferidos por sensores espalhados, conforme gráfico abaixo, entre os quais temos o “Sensor Jd. Brasil” instalado há um ano na sede da APGAM.

CETESB Estação Santana
Sensor Jd. Brasil: 53 µg/m³ de PM2.5 às 14h54 de 18/07/25 — Qualidade do ar ruim. As linhas estão fora da faixa verde. O dado preocupa por afetar crianças e idosos nas UBS/UPAs.

 CETESB quer controlar

Segundo a CETESB, em todo os estado de São Paulo, são mantidas 84 estações de monitoramento, sendo 62 automáticas e 22 manuais. Elas compõem o que os técnicos chamam de “pulmões eletrônicos” da cidade, capazes de medir em tempo real os níveis de poluentes como dióxido de enxofre (SO₂), ozônio (O₃), monóxido de carbono (CO), material particulado (MP10), óxidos de nitrogênio (NO₂, NOx) e hidrocarbonetos não-metânicos (NMHC), além de temperatura, umidade e direção dos ventos.

A informação é que esses dados são divulgados diariamente, às 11 horas, no site e aplicativo da CETESB, com boletins que funcionam como um “semáforo do ar, através de cores: verde (boa qualidade), amarela (moderada), laranja (ruim), vermelha (muito ruim) e roxa (péssima).

CETESB Estação Santana
FONTE: CETESB

A qualidade do ar em cada estação é determinada pelo poluente em pior situação. Quando os níveis ultrapassam os limites seguros, a CETESB aciona protocolos de emergência:

  • Estado de Atenção: ar muito poluído, sem previsão de dispersão.
  • Estado de Alerta: índices mais altos e persistência das condições ruins.
  • Estado de Emergência: risco direto à saúde da população.

Esses alertas têm impacto real: recomendam a suspensão de exercícios físicos, fechamento de ambientes escolares, restrições temporárias a indústrias e até suspensão de atividades poluentes. No ano passado,  foram registrados cinco episódios de Estado de Atenção em São Paulo, Mauá, Santa Gertrudes e Cubatão — todos associados à estiagem, indústrias e queimadas.

Nas ruas e estradas, a poluição com a emissão de gases dos veículos

 Os controles no tempo

A história do controle da poluição do ar em São Paulo começa nos anos 1970 com ações como a Operação Branca e a Operação Inverno, e evolui com a criação do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (PROCONVE), do governo federal. Graças à adição do etanol à gasolina e à retirada do chumbo tetraetila dos combustíveis, os níveis de monóxido de carbono e chumbo caíram drasticamente ao longo das décadas. Hoje, a rede monitora continuamente, inclusive com estudos sobre aldeídos, enxofre reduzido e metais pesados, em parceria com instituições como a Universidade de São Paulo ( USP).

Mas o avanço da tecnologia de nada adianta se a estrutura local estiver desmontada ou ignorada. A planilha de abril de 2025, com o status das estações meteorológicas de São Paulo, mostra que, além do Tremembé, a estação de São Mateus também está inativa há anos — ironicamente, próxima à Usina de Capuava, uma das maiores fontes industriais de emissão do estado.

CETESB Estação Santana
Fábricas e suas tradicionais chaminés que ainda poluem o ar

A ausência dessas estações, somada à omissão do poder público diante das denúncias de poluição industrial e doméstica, tem impacto direto nos dados de saúde da população local. No Vale do Rio Cabuçu, por exemplo, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) já apontou aumento expressivo nos atendimentos de crianças com menos de 5 anos por doenças respiratórias, conforme dados do Programa de Vigilância em Saúde Ambiental Relacionado a Populações Expostas à Poluição do Ar (VigiAr), da Secretaria Municipal da Saúde – no momento, os boletins diário estão parados desde de maio passado. Essas síndromes — como bronquites, rinites, Rsmas e alergias severas — também afetam idosos, agravando comorbidades e provocando internações.

Em reportagens passadas, a região do Tremembé foi citada entre as áreas com índices alarmantes de doenças respiratórias em crianças. Para quem vive nessas áreas, a poluição do ar não é apenas uma estatística ambiental — é uma dor diária, um pesadelo silencioso e recorrente.

Enquanto isto, a Zona Norte de São Paulo segue respirando no escuro. Com apenas uma estação de monitoramento da CETESB ativa e a Estação Meteorológica do Tremembé desativada há um ano. Enquanto passa, a região não tem segurança sobre o que está de fato no ar.

A ausência de dados compromete diagnósticos e impede respostas rápidas diante do agravamento da poluição. Sem vigilância técnica, não há como proteger a saúde da população. É urgente a reativação de estações, ampliação da rede de monitoramento e fiscalização efetiva. Respirar não pode ser um risco diário invisível.


<<Com apoio de informações/fonte: CETESB , APGAM e CGE – Prefeitura de São Paulo >>

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