.
Cooperativa portuguesa fundada em Mafra amplia sua presença no mercado brasileiro, apresenta rótulos de diferentes faixas e enfrenta os efeitos de safras cada vez menos previsíveis.
A presença da Adega Cooperativa de Azueira na ProWine São Paulo 2026 reflete uma nova etapa da estratégia internacional de uma produtora que nasceu da união de viticultores portugueses em 1959. Localizada no concelho de Mafra, na região de Lisboa, a cooperativa busca ampliar sua distribuição no Brasil, mercado que já figura entre seus principais destinos de exportação.
A vinícola participou da feira, realizada de 6 a 8 de outubro no Expo Center Norte, na Vila Guilherme, Zona Norte de São Paulo, no espaço coletivo dedicado aos vinhos da região de Lisboa. A edição reuniu mais de 2 mil produtores expositores de 37 países, distribuídos pela primeira vez entre os pavilhões Branco e Azul.
Em entrevista ao DiárioZonaNorte, Bruno Miguel Ferreira, diretor comercial e de marketing da Adega de Azueira, explicou o porquê o Brasil ocupa uma posição importante no processo de internacionalização da cooperativa. A dimensão territorial do país, a diversidade dos mercados regionais e a necessidade de construir relações comerciais duradouras exigem uma estratégia de distribuição adaptada às características de cada região.
A participação na ProWine também permitiu à empresa acompanhar o crescimento da produção brasileira e a presença de grandes importadoras no evento. Na avaliação do executivo, a feira passou a reunir um número maior de empresas com estruturas comerciais próprias, o que influencia a dinâmica de negociação para os produtores estrangeiros.
A Adega de Azueira já mantém relações comerciais em diferentes regiões brasileiras, incluindo São Paulo, Minas Gerais e o Sul do país. O objetivo é fortalecer a atuação junto aos importadores existentes e identificar novas oportunidades de distribuição.
Do mercado português às oportunidades de negócios no Brasil
A estratégia comercial da cooperativa passou por uma reorganização há aproximadamente dez anos. O processo envolveu a revisão do portfólio, a apresentação das marcas e a estruturação de sua presença internacional.
Segundo Bruno Miguel Ferreira, a expansão brasileira precisa considerar as particularidades do consumo e da distribuição de vinhos em cada região. O trabalho com importadores e parceiros locais permite compreender melhor a demanda e direcionar os produtos aos canais comerciais adequados.
A avaliação do executivo sobre a ProWine São Paulo 2026 também considera as transformações do próprio setor. O crescimento da feira ampliou a visibilidade de produtores brasileiros e de empresas importadoras que já atuam no país, exigindo assim, planejamento comercial focado e acompanhamento dos mercados onde seus rótulos já estão presentes.
A Azueira participa desse movimento com vinhos de diferentes categorias, desde linhas de maior circulação até reservas e produções especiais. Essa diversidade permite atender distribuidores com perfis comerciais distintos e consumidores interessados em conhecer as castas portuguesas.
O Brasil integra atualmente o grupo de mercados relevantes para a cooperativa, ao lado de destinos africanos, especialmente Angola e Cabo Verde, e asiáticos, como Japão e China. A empresa também mantém relações comerciais com países europeus.
A guerra entre Rússia e Ucrânia afetou mercados da região eurasiática anteriormente atendidos pela produtora, segundo o relato do executivo. O episódio acrescentou dificuldades à atividade exportadora e reforçou a necessidade de diversificação geográfica.

Uma cooperativa fundada em 1959 que cresceu com os viticultores de Mafra
A história da Adega Cooperativa de Azueira está ligada à organização dos produtores rurais da região de Lisboa.
A viticultura local possui registros anteriores à fundação da cooperativa. No Carrascal, a plantação de vinhas remonta ao século XIX, período em que Francisco Jorge da Silva se destacou na atividade vitivinícola da região.
Na década de 1940, grandes produtores passaram a disponibilizar suas instalações para apoiar pequenos e médios viticultores. A necessidade de ampliar a capacidade de armazenamento tornou-se mais evidente nos anos seguintes, diante dos excedentes de produção. A solução encontrada foi a constituição de uma cooperativa.
Em 9 de março de 1959, 38 sócios fundadores formalizaram a Adega Cooperativa de Azueira, tendo Artur Patrocínio como um de seus principais idealizadores e primeiro presidente.
A construção das instalações levou dez anos. A atividade teve início em 1969, com uma estrutura destinada a receber e processar as uvas produzidas pelos associados.
A cooperativa expandiu sua atuação para os concelhos de Torres Vedras, Mafra e Sobral de Monte Agraço, mantendo a produção vinculada ao território onde surgiu.
Ao longo das décadas, a estrutura industrial passou por modernizações. Os antigos depósitos de cimento foram complementados por cubas de aço inoxidável, equipamentos de refrigeração para fermentação controlada e prensas pneumáticas.
Em 2012, a aquisição das instalações da antiga Junta Nacional do Vinho ampliou a capacidade logística. Quatro anos depois, novos investimentos modernizaram o processamento e o engarrafamento. Em 2018, foram inauguradas a Loja do Vinho e uma sala de provas.
A vinícola produz anualmente cerca de 11 milhões de litros, com predominância de tintos, além de uma capacidade de armazenamento de aproximadamente 20 milhões de litros. A estrutura de engarrafamento é capaz de processar até 30 mil garrafas e 5 mil embalagens bag-in-box por dia.

A influência do Atlântico nos vinhos da região de Lisboa
A localização geográfica é um dos fatores que caracterizam os vinhos produzidos pela Adega de Azueira.
As vinhas estão distribuídas por uma área de influência atlântica, com relevo predominantemente de meia encosta e solos de origem jurássica e cretácea, cuja composição argilocalcária favorece o cultivo de diferentes castas.
A proximidade com o oceano contribui para moderar as temperaturas e influencia o desenvolvimento das uvas durante o ciclo vegetativo. O clima da região apresenta, historicamente, períodos mais úmidos em novembro e dezembro e condições relativamente secas entre junho e setembro.
As principais áreas vitícolas estão próximas à Serra do Socorro, Serra da Malveira, Serra da Vila, Picanceira e Encarnação, nos concelhos de Mafra e Torres Vedras.
Entre as castas tintas utilizadas pela Adega de Azueira estão Castelão, Syrah, Aragonês, também conhecida como Tinta Roriz, Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Caladoc.
Nos vinhos brancos, destacam-se Fernão Pires, Malvasia-Rei, Seara Nova, Arinto e Chardonnay.
A combinação entre variedades portuguesas e internacionais permite à adega desenvolver vinhos de diferentes estilos, incluindo rótulos com certificação de Indicação Geográfica Protegida (IGP) Lisboa.

Capricho do Rei e D. João V mostram a diversidade do portfólio
Na ProWine São Paulo 2026, a Adega de Azueira apresentou um conjunto de rótulos que evidencia sua estratégia de diversificação.
Entre as marcas estão Folha Larga, Relvas, Aldeia Saloia, Além do Rio, Vira.me, Porta da Tapada, 7Vidas, AZ, Jasmim, Calçada da Fama, Páteo das Cantigas e Capricho do Rei.
O portfólio contempla vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes, com apresentações em garrafas convencionais e, em determinadas linhas, embalagens de maior volume.
Uma das famílias apresentadas foi a Capricho do Rei, composta por vinhos varietais que permitem explorar características específicas de cada casta.
O Capricho do Rei Arinto 2024 representa a presença de uma das variedades brancas tradicionais de Portugal. A linha também inclui o Syrah 2024, o Marselan 2023 e o Alicante Bouschet 2023.
O Marselan é uma variedade resultante do cruzamento entre Cabernet Sauvignon e Grenache, enquanto o Alicante Bouschet é conhecido pela pigmentação de sua polpa, característica menos comum entre as uvas tintas.
A linha Capricho do Rei também contempla versões de Fernão Pires e espumantes, ampliando as possibilidades comerciais da marca.
Outro destaque do estande foi a família D. João V, que leva o nome do monarca português associado ao período de construção do Palácio Nacional de Mafra, uma das referências históricas da região.
Entre os rótulos apresentados estavam o D. João V Reserva Tinto 2021 e o D. João V Reserva Branco 2023, além de versões Grande Reserva.
O catálogo identifica o D. João V Reserva Tinto como um vinho elaborado com Alicante Bouschet e Castelão, enquanto o Reserva Branco reúne Fernão Pires, Chardonnay e Alicante Bouschet, conforme a ficha apresentada no material da feira.
Nota de conferência: a composição do Reserva Branco merece validação com a adega, pois o catálogo parece indicar Alicante Bouschet em um vinho branco. Pode haver particularidade de vinificação ou erro na ficha.
A produção dos vinhos de maior categoria depende da avaliação das condições de cada colheita. Conforme explicou Bruno Miguel Ferreira, a cooperativa considera a qualidade da matéria-prima antes de definir a elaboração de determinados rótulos especiais.
O D. João V Reserva Tinto 2021 também recebeu medalha de prata no concurso Vinum Best of Portugal, ao lado do Morabitino DOC Torres Vedras 2021, segundo informações divulgadas pela cooperativa.

Mudanças climáticas alteram a previsibilidade das safras em Portugal
Entre os assuntos abordados na entrevista, Bruno Miguel Ferreira destacou as alterações observadas nas condições climáticas da região de Lisboa.
A proximidade do Atlântico historicamente proporciona alguma moderação térmica às vinhas da cooperativa. Nos últimos anos, porém, a sucessão de períodos chuvosos e temperaturas elevadas passou a exigir maior atenção ao desenvolvimento das uvas.
O executivo relatou que a safra de 2026 apresentou um comportamento diferente do esperado. Após um período de chuvas, a expectativa inicial era de uma produção com menor concentração de açúcares. As temperaturas registradas durante o verão, especialmente em agosto, modificaram essa avaliação.
De acordo com o diretor comercial e de marketing, houve dias com temperaturas entre 30 °C e 34 °C, acompanhados de noites relativamente quentes, próximas dos 20 °C a 22 °C.
Esse comportamento climático contribuiu para aumentar a concentração de açúcares nas uvas, com possíveis reflexos no teor alcoólico dos vinhos.
A preocupação está relacionada à dificuldade de antecipar os resultados de cada campanha agrícola e planejar as etapas de produção.
Bruno Miguel Ferreira recordou também a safra de 2019, quando a cooperativa registrou uma quebra expressiva de produção, estimada em cerca de 40%, embora as uvas remanescentes tenham apresentado maior concentração.
A sucessão de situações diferentes reforça a necessidade de acompanhar as condições meteorológicas e adaptar o trabalho vitícola. A discussão sobre mudanças climáticas também envolve a escolha de variedades mais resistentes às condições ambientais e a doenças da videira, as chamadas PIWI, desenvolvidas por melhoramento genético para apresentar maior resistência a determinadas doenças fúngicas.
A Adega de Azueira já trabalha com diferentes castas, incluindo variedades tradicionais e internacionais, buscando compreender seu comportamento nas condições da região.
A organização da vindima também pode ser ajustada em períodos de calor intenso.
Segundo o executivo, a cooperativa não adota regularmente a colheita noturna. Em dias de temperaturas elevadas, o trabalho pode começar por volta das 6h e ser interrompido próximo do meio-dia ou início da tarde, evitando os horários de maior exposição ao calor.
Essas decisões procuram preservar as condições de trabalho e a qualidade das uvas recebidas pela adega.
ProWine São Paulo reforça o papel do Brasil para os vinhos portugueses
A participação da Adega de Azueira na ProWine São Paulo 2026 ocorreu em um momento de ampliação da feira e de maior diversidade de empresas presentes no mercado brasileiro.
Criada a partir da ProWein, realizada em Düsseldorf, na Alemanha, a edição brasileira começou em 2019 e é organizada pela Emme Brasil, Inner Group e Messe Düsseldorf. Voltado exclusivamente aos profissionais do setor, o evento reúne produtores, importadores, distribuidores e representantes do comércio especializado.
Serviço
Adega de Azueira
- Estrada Nacional 8, Nº1 · Carrascal · Portugal ZIP: 2665-009
- Telefone +351 261 961 179
<com apoio de informações: Anagrama Comunicação & Eventos – jornalista Reila Criscia>
Adega Azueira Lisboa Prowine Adega Azueira Lisboa Prowine Adega Azueira Lisboa Adega Azueira Lisboa Prowine Adega Azueira Lisboa Prowine. Adega Azueira Lisboa Prowine












































