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Com 95 anos, 470 cooperados e faturamento de R$ 283 milhões, empresa aposta em pesquisa genética, vinhos mais leves e novos produtos para responder às transformações do clima e do consumo. Estratégia foi apresentada na ProWine São Paulo 2026.
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As mudanças climáticas estão levando a indústria mundial do vinho a reconsiderar decisões tomadas há décadas, desde a escolha das variedades cultivadas até o momento da colheita. Na Serra Gaúcha, onde a viticultura sustenta gerações de famílias produtoras, a Cooperativa Vinícola Garibaldi decidiu antecipar parte dessas transformações.
Fundada em 1931, a cooperativa mantém desde 2019 um vinhedo experimental que reúne cerca de 60 variedades de uvas de diferentes países. O objetivo é identificar quais apresentam melhores condições de adaptação ao clima brasileiro, maior resistência a doenças e potencial para produzir vinhos comercialmente viáveis.
A estratégia foi apresentada durante a ProWine São Paulo 2026, realizada de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte, na Vila Guilherme, Zona Norte da capital paulista. Em entrevista ao DiárioZonaNorte, Maiquel Vignatti, gerente de marketing da Cooperativa Vinícola Garibaldi, explicou como a pesquisa passou a integrar as decisões sobre produção, sustentabilidade e posicionamento comercial.

A dimensão da operação ajuda a compreender o alcance dessas escolhas. A Garibaldi reúne 470 cooperados, responsáveis pelo cultivo de aproximadamente 1,2 mil hectares em quase 20 municípios da Serra Gaúcha. A estrutura emprega diretamente 222 profissionais e registra faturamento de R$ 283 milhões, conforme os dados apresentados pela cooperativa.
Os espumantes respondem por 44,9% desse faturamento, seguidos pelos sucos, com 30,4%. Os vinhos representam 10,6%, enquanto outras categorias somam 14,1%.

Mudanças climáticas colocam novas variedades no centro da estratégia
O vinhedo experimental funciona como um laboratório agrícola. Nele, variedades originárias de Portugal, Itália, Espanha, Geórgia, Ucrânia, Romênia, Grécia, Hungria e República Tcheca são submetidas às condições da Serra Gaúcha.
Os pesquisadores acompanham o desenvolvimento das plantas, o período de maturação, a produtividade e a resistência às principais doenças da videira. Parte das avaliações também compara os sistemas de condução em espaldeira e latada, que podem produzir resultados diferentes conforme a variedade e as condições de cultivo.
As uvas com desempenho promissor passam por microvinificações, processo no qual pequenas quantidades são transformadas em vinho para avaliar características como acidez, estrutura e perfil aromático. Em 2026, segundo a cooperativa, 22 cultivares chegaram a essa etapa.
“O primeiro grande passo é a Garibaldi ter um vinhedo experimental, onde testamos variedades do mundo inteiro. Esse teste é justamente uma resposta às novas condições climáticas”, afirmou Vignatti.
A cooperativa também participa de um fórum internacional que reúne organizações vitivinícolas de países como Itália, Espanha, Argentina, Chile e França. Segundo o executivo, as discussões sobre clima e os efeitos das mudanças no comportamento do consumidor passaram a influenciar o planejamento do setor.
Outra frente envolve a elaboração de bebidas com menor graduação alcoólica. Dependendo da variedade e do perfil desejado, a antecipação da colheita permite reduzir a concentração de açúcares que seriam convertidos em álcool durante a fermentação. A medida também pode diminuir o período de exposição das uvas a determinados riscos climáticos.
A adoção dessas práticas depende de avaliações agronômicas e enológicas, já que a antecipação da colheita também altera a maturação e as características sensoriais da fruta.

Uvas resistentes podem reduzir tratamentos e custos de produção
Entre as variedades pesquisadas estão as chamadas PIWI, desenvolvidas por melhoramento genético para apresentar maior resistência a determinadas doenças fúngicas.
Essas uvas podem reduzir a necessidade de aplicações fitossanitárias, com efeitos potenciais sobre os custos de produção e o manejo ambiental dos vinhedos. A resistência, entretanto, não elimina a necessidade de acompanhamento técnico nem garante desempenho idêntico em todas as regiões.
A pesquisa é desenvolvida com apoio da Vivai Cooperativi Rauscedo (VCR), cooperativa italiana especializada na produção de mudas para viticultura. A instituição participa da seleção de variedades com potencial de adaptação às condições brasileiras.
Entre as cultivares avaliadas estão Soreli e Muscaris, ambas brancas e pertencentes ao grupo PIWI. A Soreli apresenta, nas avaliações da cooperativa, características aromáticas associadas a frutas maduras e flores. A Muscaris reúne características semelhantes às das uvas Moscato, com resistência ampliada a doenças.
O trabalho também envolve variedades destinadas a vinhos tintos e a futuras composições de espumantes.
A Garibaldi pretende incorporar gradualmente algumas dessas uvas aos seus produtos. Parte delas poderá aparecer inicialmente em cortes, permitindo avaliar a aceitação do consumidor antes de lançamentos varietais em escala comercial.
Uma uva romena será o próximo lançamento da cooperativa
A Busuioaca de Bohotin, variedade originária da Romênia, está entre os resultados mais próximos de chegar ao mercado. O lançamento está previsto para janeiro de 2027, em uma produção inicial de aproximadamente 3 mil garrafas, segundo Vignatti.
A uva, de película tinta e características aromáticas próximas às do Moscato, dá origem a um vinho rosé. Entre os descritores identificados nas avaliações está uma nota vegetal que remete ao manjericão.
A variedade deverá integrar a linha In Veritas, dedicada a castas menos conhecidas no mercado brasileiro.
A cooperativa já comercializa o Garibaldi In Veritas Pálava, elaborado com uma uva de origem tcheca, lançado em 2024, e o In Veritas Irsai Oliver, produzido com uma variedade húngara e lançado em 2025. Ambos receberam premiações internacionais, respectivamente no Concours Mondial de Bruxelles de 2025 e no Bacchus de 2026, na Espanha.
O projeto também contribuiu para o desenvolvimento do espumante Garibaldi Viognier, premiado no Zarcillo International Wine Awards de 2025.
Outra variedade em estudo é a Alexandrouli, originária da Geórgia. Diferentemente das PIWI, seu interesse está principalmente no perfil de vinho que permite elaborar. Nas microvinificações, a cooperativa busca produzir um clarete de coloração pouco intensa, com características frutadas e menor graduação alcoólica.
A proposta acompanha o interesse por vinhos menos encorpados, embora a aceitação comercial dessas variedades ainda dependa de testes de mercado.

Conhecimento produzido pela cooperativa pode beneficiar outros viticultores
O caráter cooperativista influencia a maneira como a Garibaldi organiza sua pesquisa. Os experimentos são realizados em propriedades de associados, e os resultados podem orientar decisões de plantio de outros produtores.
Vignatti explicou que a cooperativa registra as variedades conforme as exigências aplicáveis e compartilha informações sobre o comportamento das plantas nas condições avaliadas. O acesso às mudas, porém, permanece sujeito às regras de comercialização e aos contratos firmados com os fornecedores.
A experiência permite que outros viticultores tenham referências sobre variedades ainda pouco utilizadas no Brasil, reduzindo parte da incerteza associada à introdução de novas cultivares.
“É uma resposta nossa, enquanto cooperativa, para o setor como um todo. É um estudo que não fica só para nós”, afirmou.
A iniciativa também está relacionada à continuidade das propriedades familiares. Para cooperativas que dependem da permanência dos produtores no campo, a adaptação climática envolve decisões econômicas de longo prazo, incluindo produtividade, rentabilidade e sucessão entre gerações.
Tributação preocupa o setor e entra na estratégia de negócios
A entrevista também abordou um desafio que ultrapassa os vinhedos: a tributação das bebidas alcoólicas.
Com a reforma tributária, o Imposto Seletivo (IS) incidirá sobre categorias de produtos definidas na legislação, entre elas as bebidas alcoólicas. A definição das alíquotas e seus efeitos sobre os diferentes segmentos permanece uma preocupação para representantes da indústria.
Vignatti afirmou que a discussão mais importante para as vinícolas passou a ser o percentual efetivamente aplicado ao vinho, considerando os impactos sobre preços, competitividade e sobrevivência econômica dos produtores.
Segundo ele, entidades do setor, entre elas o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), participam das discussões sobre a regulamentação e a carga tributária.
O executivo citou a defesa de uma alíquota de 4% como posição em negociação no setor, ressaltando que percentuais elevados poderiam comprometer a atividade. Trata-se de uma reivindicação setorial, não de uma alíquota definida.
A questão ganha relevância diante da escala relativamente pequena da vitivinicultura brasileira em comparação com outras atividades agropecuárias. Na avaliação de Vignatti, essa diferença limita a capacidade de mobilização política específica do segmento, embora a produção de uvas tenha importância econômica e cultural para numerosas comunidades rurais.
A discussão tributária envolve também critérios de saúde pública. O consumo de bebidas alcoólicas apresenta riscos à saúde, e a defesa de tratamento tributário diferenciado para o vinho representa uma posição da indústria, não uma conclusão médica sobre a segurança do consumo.
O consumidor brasileiro ainda decide pela origem e pelo preço
A competição com os vinhos importados constitui outra preocupação da cooperativa.
Segundo Vignatti, as pesquisas de comportamento de compra utilizadas pela Garibaldi indicam diferenças importantes entre os consumidores. Entre compradores mais sensíveis ao preço, promoções e país de origem exercem influência significativa. Nesse segmento, os vinhos chilenos ainda se beneficiam de uma percepção favorável construída ao longo dos anos.
Entre consumidores com maior familiaridade com vinho, atributos como marca, variedade de uva e perfil da bebida passam a ter maior peso na decisão.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a cooperativa investe em produtos capazes de dialogar com referências internacionais já conhecidas pelo público brasileiro.

Um exemplo é o Vinhas Vivas, apresentado na ProWine 2026. Elaborado com as variedades italianas Trebbiano e Prosecco, originando um vinho verde de baixa graduação alcoólica, leve efervescência e perfil voltado ao frescor.
A fermentação ocorre sob temperatura controlada, entre 14°C e 16°C, seguida de maturação em tanques de aço inoxidável, sem passagem por madeira. Segundo a descrição técnica da cooperativa, o resultado apresenta notas cítricas e florais, com acidez equilibrada por um toque adocicado.
A apresentação comercial do produto também foi planejada para dialogar com os vinhos verdes portugueses, categoria conhecida no mercado brasileiro. O rótulo utiliza referências visuais associadas a Portugal, buscando facilitar a identificação do estilo pelo consumidor.
“Queremos que ele entenda que o Brasil também consegue produzir um vinho com características semelhantes e custo competitivo”, explicou Vignatti.
A estratégia procura aproximar o vinho nacional de hábitos de compra já consolidados, sem depender exclusivamente do argumento da origem brasileira.

Bebidas sem álcool ampliam o alcance do portfólio
A transformação dos hábitos de consumo também aparece na expansão das bebidas sem álcool.
A Garibaldi desenvolveu produtos voltados a consumidores interessados em alternativas às bebidas alcoólicas tradicionais, incluindo espumantes elaborados a partir de mosto de uva, sem fermentação alcoólica.
O portfólio reúne versões Moscato, Moscato Rosé, Prosecco e ICE Zero Álcool, além de outras bebidas da linha.
Entre os lançamentos está o Relax Alcohol Free, apresentado pela cooperativa como o primeiro frisante sem álcool do Brasil. Elaborado com Moscato Branco, combina suco de uva e água, com leve gaseificação e sem adição de açúcares ou aromas artificiais, conforme a formulação informada pela empresa.
Esses produtos permitem à cooperativa participar de ocasiões de consumo nas quais o álcool não é desejado. As versões elaboradas sem fermentação também possuem características distintas dos vinhos tradicionais, inclusive quanto à composição e ao perfil de açúcares naturais.
Para Vignatti, a indústria precisa acompanhar as preferências das novas gerações, que procuram informações sobre composição, graduação alcoólica e características das bebidas antes da compra.
ProWine reúne pequenos produtores e grandes cooperativas em São Paulo
A participação da Garibaldi na ProWine São Paulo 2026 também serviu para apresentar sua produção consolidada.
No estande B6 do Pavilhão Azul, a cooperativa reuniu rótulos premiados, incluindo o Garibaldi Moscatel, com mais de 150 distinções acumuladas, o Garibaldi Chardonnay, com mais de 110, e o Garibaldi Prosecco, com mais de 80.
O portfólio exposto também contemplou o Moscatel Rosé, com mais de 50 premiações, e o Pinot Noir, com mais de 40, conforme os registros divulgados pela empresa.
No dia 7 de outubro, o enólogo Ricardo Morari apresentou no ProWine Fórum a masterclass “Os Vinhos do Amanhã”, dedicada aos resultados do vinhedo experimental. A atividade reuniu microvinificações de quatro cultivares e dois vinhos já comercializados pela cooperativa.
Para Vignatti, a presença de vinícolas brasileiras de diferentes portes e regiões na feira representa uma oportunidade de mostrar a diversidade da produção nacional.
O executivo destacou a participação de cooperativas tradicionais, produtores independentes da Serra Gaúcha e vinícolas de estados como São Paulo e Minas Gerais, que vêm ampliando sua presença no mercado.
A Garibaldi chega aos 95 anos com uma operação que combina escala produtiva e pesquisa aplicada. Suas decisões sobre novas variedades, produtos e posicionamento comercial revelam uma preocupação comum a boa parte da indústria do vinho: manter a viabilidade econômica da produção em um cenário de alterações climáticas, novas preferências de consumo e pressão sobre os custos.
O resultado desses investimentos dependerá da adaptação das plantas ao campo, da aceitação dos consumidores e das condições econômicas enfrentadas pelos viticultores nos próximos anos.
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