.
Rede de atacarejo identifica recuperação inicial em regiões de menor renda; estudo do Itaú publicado pelo DiárioZonaNorte em 2024 ajuda a entender o debate sobre apostas e orçamento familiar
.
O dinheiro que os brasileiros destinavam às apostas online poderá voltar às compras de supermercado? A possibilidade entrou no radar do Assaí (ASAI3), uma das maiores redes de atacarejo do país, que identificou sinais iniciais de melhora no consumo durante o quarto trimestre de 2026, principalmente em cidades do interior e bairros de menor renda.
A avaliação foi apresentada pela administração da companhia em uma reunião com analistas do BTG Pactual.
Segundo relatório divulgado pelo banco em 13 de outubro, a rede considera que a proibição das bets pode estar contribuindo para aliviar a pressão sobre o orçamento das famílias, permitindo que parte dos recursos seja direcionada novamente à alimentação e a outras despesas domésticas.
A percepção surge após um terceiro trimestre difícil para o varejo alimentar, marcado pela redução do poder de compra e pela substituição de produtos habituais por alternativas mais baratas.
O relatório, entretanto, não apresenta números de vendas de outubro que permitam comprovar uma recuperação provocada pela proibição das apostas. Os sinais observados pela empresa são preliminares e ainda dependem de confirmação nos resultados financeiros.
A decisão alcança as apostas esportivas e os jogos online, incluindo plataformas operadas por empresas sediadas no exterior que atendam consumidores brasileiros. Outras modalidades lotéricas autorizadas por lei não foram abrangidas.
A partir da publicação da medida, as empresas ficaram impedidas de receber novos depósitos. Os apostadores tiveram até 5 de outubro para solicitar a retirada voluntária dos valores disponíveis em suas contas.
Os sites e aplicativos deveriam ficar indisponíveis a partir de 6 de outubro. A medida também estabeleceu procedimentos para a devolução dos saldos remanescentes, com participação das instituições financeiras e da Caixa Econômica Federal.
A proibição entrou em vigor por medida provisória, instrumento com força de lei imediata, mas que depende de análise do Congresso Nacional para se tornar permanente.
O impacto efetivo dependerá do comportamento dos consumidores. A retirada das plataformas autorizadas também não significa, necessariamente, o encerramento de todas as apostas, já que a atuação de operadores clandestinos continua sendo um desafio para a fiscalização.
O resultado do terceiro trimestre de 2026, previsto para divulgação em 5 de novembro, deverá mostrar o desempenho da rede antes da retirada das plataformas autorizadas. Os números referentes ao quarto trimestre serão mais relevantes para avaliar o comportamento do consumo após a medida.
Assaí percebe sinais de recuperação em regiões de menor renda
Na reunião com o BTG Pactual, a administração do Assaí relatou que o ambiente de consumo permanece pressionado, embora os primeiros sinais de recuperação já possam ser percebidos em determinadas regiões.
Segundo o relatório, a maior parte do movimento de substituição de produtos por versões mais baratas já ocorreu. Esse comportamento, conhecido no varejo como trade down, ganhou força nos últimos meses, quando consumidores passaram a ajustar suas compras à renda disponível.
A procura por alternativas econômicas ainda afeta algumas categorias, especialmente produtos de limpeza. O Assaí considera que a redução dos gastos com apostas poderá contribuir para melhorar o consumo de alimentos, sobretudo entre famílias de menor renda.
O intervalo entre a retirada das plataformas do ar e a reunião com os analistas, porém, foi curto. A avaliação foi apresentada poucos dias depois do início da indisponibilidade dos sites, o que limita qualquer conclusão sobre mudanças permanentes no comportamento de compra. A recuperação também dependerá da renda das famílias, do endividamento e da evolução do volume de mercadorias vendidas.
A relação entre apostas online e consumo das famílias já era discutida por economistas antes da proibição das plataformas.
Em 22 de agosto de 2024, o DiárioZonaNorte publicou uma reportagem sobre um estudo elaborado pelos economistas Luiz Cherman e Pedro Duarte, do Departamento de Análises Econômicas do Itaú.
O levantamento estimava que os brasileiros destinavam aproximadamente R$ 24 bilhões anuais, em termos líquidos, às apostas online. O valor correspondia a cerca de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB), 0,3% do consumo total e 1,9% da massa salarial brasileira.
Na ocasião, os economistas analisaram se os recursos destinados às apostas poderiam estar prejudicando o desempenho do comércio.
Os modelos utilizados pelo Itaú, que consideravam indicadores como renda, crédito, confiança do consumidor e poupança, não encontraram evidências de que as vendas do varejo estivessem abaixo do esperado em razão das apostas.
A conclusão não significava que os jogos online deixassem de comprometer o orçamento de determinados consumidores. O estudo avaliava o comportamento agregado da economia e não a situação financeira individual das famílias. Dois anos depois, a discussão ganhou uma nova perspectiva.
Com a proibição das bets, o Assaí passou a considerar a possibilidade de que parte do dinheiro antes destinado às apostas seja direcionada ao consumo de produtos essenciais.
As duas análises utilizam abordagens diferentes. O Itaú examinou indicadores econômicos nacionais em 2024. O Assaí relata percepções recentes de suas operações comerciais em 2026.
Ainda não existem dados suficientes para determinar quanto do dinheiro anteriormente gasto com apostas retornará ao comércio, nem para estabelecer se a proibição produzirá uma recuperação consistente das vendas.
Pesquisa do Sebrae mostra preocupação dos pequenos comerciantes
A discussão sobre o impacto das apostas no orçamento familiar também chegou aos pequenos negócios.
Uma pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), divulgada em outubro de 2026, ouviu 1.028 proprietários de pequenos estabelecimentos para identificar como os empresários percebiam a influência dos jogos online sobre o consumo.
PESQUISA SEBRAE | OUTUBRO DE 2026
33% perceberam queda no poder de compra dos clientes
26% associaram queda do faturamento aos jogos online
66% declararam apoio à proibição das bets
O levantamento indica que parte dos pequenos empresários considera as apostas um fator de pressão sobre a renda dos consumidores.
Os resultados, contudo, representam a percepção dos entrevistados. A pesquisa não mede diretamente quanto os clientes gastavam com apostas, nem comprova que a redução do faturamento dos estabelecimentos tenha sido provocada pelos jogos online.
Também não há dados que permitam afirmar que os pequenos comerciantes já estejam vendendo mais em consequência da proibição.
A eventual recuperação do orçamento doméstico poderá favorecer o comércio de proximidade, especialmente nos bairros onde mercados menores atendem às compras cotidianas das famílias. O comportamento dos consumidores nos próximos meses ajudará a esclarecer se essa expectativa se confirmará.
Gosta das notícias do DiárioZonaNorte?
Adicione o jornal às suas fontes preferidas no Google e acompanhe nossas reportagens.
Adicionar às fontes preferidas











































