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Tucuruvi faz 122 anos e relembra o tempo das chácaras, trilhos e o ar puro da Cantareira

Vista aérea do Tucuruvi e destaque do Shopping Metrô Tucuruvi.
Tempo de Leitura: 6 minutos

 

da  Redação DiárioZonaNorte

Na alvorada fria de outubro de 1903, o silêncio das chácaras e o canto dos pássaros ainda dominavam a paisagem ao norte de São Paulo. A cidade crescia tímida, com ruas de paralelepípedo, lampiões a gás e o tilintar dos bondes misturando-se às carroças de leite e hortaliças. Foi nesse cenário que nasceu o Tucuruvi, um nome de origem tupi que significa “gafanhoto verde” — símbolo de uma natureza viva que hoje quase não se vê.

Feliz aniversário, Tucuruvi!, ao completar 122 anos nesta 6ª feira (24/10/2025), o bairro-distrito segue de pé, mesmo que parte de sua memória tenha ficado pelo caminho. Que as próximas gerações conheçam suas origens, que o poder público reconheça sua importância e que os moradores voltem a celebrar o aniversário com o orgulho de quem sabe de onde veio.

Porque, mais do que prédios da forte exploração imobiliárias e avenidas, o Tucuruvi é história viva — feita de lembranças, de lutas e de gente que resiste.  E enquanto a brisa da Cantareira ainda sopra pelas ruas estreitas, o gafanhoto verde continua voando — invisível, mas presente — sobre o bairro que nunca deixou de sonhar.

Foto geral do Tucuruvi antigo e o casario da época

O mundo e São Paulo em 1903

O início do século XX era de descobertas e contrastes. No mundo, o brasileiro Alberto Santos Dumont deu a volta com o dirigível na Torre Eifell e fazia experimentos para realizar mais adiante o primeiro voo histórico do 14 Bis; no Brasil, Rodrigues Alves assumia a presidência; e em São Paulo, a economia cafeeira alimentava o progresso e atraía ondas de imigrantes europeus — sobretudo italianos, portugueses e espanhóis.

Em 1903, a capital paulista tinha pouco mais de 240 mil habitantes, e a Zona Norte ainda era sinônimo de campo e pureza do ar. O bonde elétrico começava a circular no centro, mas nas bordas da cidade, os bairros se formavam em torno de estradas de terra, riachos e trilhos. A Tramway da Cantareira, inaugurada no fim do século XIX, seria o fio condutor que ligaria o coração da cidade ao futuro bairro do Tucuruvi.

Mapa do Tucuruvi com as divisas na Zona Norte

O começo de tudo

O responsável por dar forma ao território foi o inglês William Harding, empresário que enxergou no norte de São Paulo uma região fértil e promissora. Ele comprou grandes extensões de terra e construiu o Palacete dos Hardings, uma residência imponente cercada de jardins, estábulos e pequenas chácaras. O local virou ponto de referência na região, que recebia o momento de engenheiros e trabalhadores britânicos da linha férrea Cantareira.

Ao redor da propriedade dos Hardings, brotaram os primeiros núcleos de moradia e trabalho. Italianos ergueram pequenas casas de tijolo cru e começaram a cultivar verduras e criar gado leiteiro para abastecer a cidade. O ar puro e o clima fresco da serra atraíam famílias inteiras que buscavam refúgio do calor e da poeira do centro.

Com o tempo, o Tramway da Cantareira – que tinha a finalidade principal no transporte de  materiais para a construção dos reservatórios de água na Serra da Cantareira – passou a transportar também passageiros — estudantes, comerciantes, músicos e curiosos — conectando o Tucuruvi ao centro. Era o início de uma vida de bairro, com mercearias, armazéns, sapateiros e alfaiates que atendiam com elegância uma clientela cada vez maior.

Trem da Cantareira – Tramway com transporte de passageiros.

O bairro cresce e o distrito nasce

O crescimento foi rápido. O italiano Henrique Mazzei adquiriu uma grande área de chácaras e dividiu o terreno em lotes — nascia a Vila Mazzei, um dos marcos da urbanização do Tucuruvi. Já nos anos 1920, o movimento urbano era intenso, e o bairro se emancipou de Santana, tornando-se distrito independente em 1925.

Entre os pioneiros que ajudaram a formalizar o novo distrito estavam Manuel Gomes, João Gualberto de Almeida Pires e outros moradores que reivindicaram autonomia administrativa e investimentos públicos.

Durante décadas, o Tucuruvi foi conhecido por seus bailes e salões de dança, que revelaram duplas sertanejas e ajudaram a popularizar o estilo caipira dentro da capital paulista. Ao mesmo tempo, a região se tornava referência no comércio de tecidos, roupas de cama, alfaiatarias e sapatarias — um verdadeiro centro de consumo da Zona Norte.

Tucuruvi 122 anos Cantareira
Movimento no passado (década de 70) da Av. Tucuruvi

O clima saudável e o charme do subúrbio

Nos anos 1940 e 1950, morar no Tucuruvi significava ter qualidade de vida. A brisa da Serra da Cantareira refrescava as casas, o verde predominava e as famílias se reuniam nas praças para conversar, tocar violão e assistir, a partir de 1976,  aos desfiles da Escola de Samba Acadêmicos do Tucuruvi, cujo mascote, o gafanhoto, homenageia as raízes indígenas do bairro.

Aos poucos, os bondes deram lugar aos ônibus, e as ruas passaram a receber pavimentação. O progresso, inevitável, foi empurrando para longe as antigas chácaras. Ainda assim, até os anos 1970, havia terrenos grandes, quintais com jabuticabeiras e o costume de deixar as portas abertas com passarinhos em gaiolas.

Tucuruvi 122 anos Cantareira
Condominio Valparaizo do passado (antes do Tri-Mais Places) na Avenida Tucuruvi

O bairro e seus limites

O distrito do Tucuruvi faz divisa com Tremembé (ao norte), Jaçanã (leste), Vila Medeiros (sudeste), Santana (sudoeste), Mandaqui (oeste) e Vila Guilherme (sul).
Dentro dele, estão incorporados mais de 17 bairros e vilas tradicionais: Parada Inglesa, Vila Dom Pedro II, Jardim França, Jardim Kerlakian, Jardim Barro Branco, Jardim Dona Leonor Mendes de Barros, Vila Gustavo, Vila Nivi, Vila Constança, Vila Santa Terezinha, Parque Vitória, Jardim Maria Antônia, Parque Rodrigues Alves, Vila Pedrosa e Vila Cachoeira, entre outros.

Essa malha de bairros interligados fez do Tucuruvi uma zona de transição entre o urbano consolidado e o sopé da Cantareira, servindo como elo natural entre a cidade e a montanha.

Tucuruvi 122 anos Cantareira
O Palacete dos Hardings que virou Subprefeitura Santana/Tucuruvi/Mandaqui

Da memória à demolição

Infelizmente, a história nem sempre teve abrigo garantido. O Palacete dos Hardings, símbolo da fundação do bairro e marco da presença inglesa, foi demolido sem cerimônia. No terreno, ergue-se hoje o prédio da Subprefeitura de Santana/Tucuruvi/Mandaqui, na Avenida Tucuruvi, próxima da Estação do Metrô Tucuruvi.

Não há sequer uma placa de memória que conte quem foi William Harding – o homem que deu origem ao bairro. Seu nome resiste apenas em uma rua sem saída, escondida atrás do Shopping Metrô Tucuruvi, sem referência histórica ou homenagem adequada.

É como se o passado tivesse sido varrido para debaixo do asfalto. As ruas trazem nomes femininos e masculinos — Maria, Hebe, Neri, Vicenza, Oriosto César — mas sem explicação alguma sobre quem foram esses personagens que ajudaram a construir a identidade do lugar.

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Linha 1-Azul do Metrô Tucuruvi

Do Tramway ao Metrô

Em 1998, a inauguração da Estação Tucuruvi da Linha 1-Azul do Metrô — ligando as Zona Norte e Sul —  marcou o início de uma nova era. Junto  à estação tornou-se terminal estratégico de transporte público, conectando milhares de moradores à região central e aos municípios vizinhos, como Mairiporã e Guarulhos.

Ao redor da estação, surgiram shoppings, condomínios e edifícios altos. O comércio se modernizou, e antigos armazéns viraram supermercados, enquanto casarões históricos desapareceram. O Condomínio Valparaízo, por exemplo, ocupa o terreno que abrigou o Supermercado Big, o Carrefour e, desde 2020, o novo shopping com hipermercado  Tri-Mas Places : um retrato fiel das metamorfoses do bairro.

O Tucuruvi é hoje um dos pilares urbanos da Zona Norte. Reúne grande diversidade social, comércio vibrante, escolas, igrejas, hospitais, clubes e vida noturna. Mesmo com o avanço da verticalização, ainda é visto como um bairro-ponte entre o passado bucólico e a cidade moderna, guardando a memória de uma São Paulo que cresceu olhando para a serra.


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