.
NaN6ª feira, 19 de dezembro, a Catedral da Sé foi palco de um almoço solidário em apoio ao trabalho da Missão Belém, movimento católico que há 20 anos acolhe pessoas em situação de rua com algo que vai além de um teto ou de um prato de comida: acolhimento, pertencimento e amor.
Inspirada pela passagem do Evangelho de Lucas — “quando der um banquete, convide os pobres” —, a ação uniu empresários que acreditam que o bem, quando construído em conjunto, transforma realidades.

A iniciativa celebrou a caminhada de pessoas em processo de restabelecimento e reinserção social, mostrando que ações coletivas, quando bem organizadas, geram impacto real. Foi um encontro de fé, solidariedade, gastronomia e compromisso social, em um dos espaços mais simbólicos da cidade de São Paulo.

O fio condutor da solidariedade
A ação começou a ganhar forma a partir de uma ligação. Do outro lado da linha, o empresário Romeu Cianciarulo, sócio do IMMA Restaurante, manifestava o desejo de realizar uma ação beneficente em prol de alguma entidade.
Quem recebeu o chamado foi Reila Criscia, diretora da Anagrama Comunicações e Eventos. “Não pensei duas vezes. Tinha que ser a Missão Belém. Conheço o trabalho, já que no início do Brunch da Catedral, a Anagrama era a responsável pela divulgação“, disse ela. Ela ainda, traduziu o espírito da Missão Belém: não se trata de assistencialismo, mas de dignidade.
Reila fez, mais uma vez, o que sabe fazer de melhor: agregar pessoas em torno de uma causa. Ao projeto, somaram-se Casa Flora Importadora, Resorts Brasil, Marli Trouva Boutique de Negócios, o empresário Alexandre Camponatto, Casa Gil Gondim, Boreda Produto Sustentável e Sabrina Guimarães, responsável pela belíssima árvore de Natal que decorou o salão onde o almoço para cerca de 100 pessoas foi realizado.

A mesma comida, a mesma dignidade
Antes do almoço, Padre Delmo abençoou os presentes. A Chef Gil Gondim, responsável pelo menu do almoço, serviu aos convidados alguns dos pratos consagrados, que normalmente figuram no Brunch da Catedral, com o mesmo serviço primoroso de salão.
Emocionada, a chef falou sobre a valorização das pessoas: “Tudo faz sentido para nós quando, através dos nossos talentos, podemos transformar vidas. Vocês são muito especiais… não só para nós, principalmente para Jesus”.

Missão Belém: uma família para quem não tem família
A Missão Belém é um movimento religioso católico, nascido na Arquidiocese de São Paulo e oficializado em 1º de outubro de 2005, pelo padre italiano Gianpietro Carraro, junto com a irmã Cacilda da Silva Leste.
Seu propósito é acolher pessoas em situação de rua, criando uma rede de apoio e evangelização com foco nos mais pobres. A instituição se caracteriza como uma associação privada de fiéis.

Náufrago salvando náufrago
Antes do almoço, uma missa foi celebrada pelo padre Gianpietro Carraro, reunindo os participantes do almoço na Catedral. Durante a Liturgia da Palavra, o sacerdote falou sobre o trabalho da Missão Belém e a importância do acolhimento como instrumento de transformação. “Esta é a missão que levamos ao sair desta igreja: preparar um povo bem disposto para o Senhor, a começar pelo nosso próprio coração”, disse o padre Carraro.

Com o lema “uma família para quem não tem família”, e 20 anos de atuação ininterrupta, a Missão Belém já acolheu mais de 110 mil pessoas em situação de rua e dependência química.
Hoje, mantém 200 casas familiares dedicadas à acolhida da população em situação de rua, com atuação no Brasil e no Haiti. São mais de 2.400 ex-moradores de rua vivendo em período integral nessas casas, a maioria na cidade de São Paulo.
Desses, 700 são doentes crônicos, que recebem cuidados na Casa Guadalupe. Muitos são idosos, sem laços familiares. Em julho de 2022, o DiárioZonaNorte acompanhou o trabalho da Casa Guadalupe, instalada no bairro do Belenzinho, na Zona Leste de São Paulo.

Funciona como uma casa enfermaria… Um espaço de simplicidade espartana, onde o amor que emana entre aquelas paredes e por aqueles que ali trabalham é gigantesco.
“É náufrago salvando náufrago… Enquanto a gente luta com a gente mesmo, a gente ajuda os que aqui chegam”, disse um dos voluntários, à época da reportagem.
Indiferença: a dor invisível das ruas
Pessoas em situação de rua são vítimas de um dos sentimentos mais dolorosos que o ser humano pode experimentar: a indiferença.
Tornam-se invisíveis para uma sociedade centrada no próprio umbigo… uma sociedade que “olha para cima”, desviando o olhar de quem dorme nas calçadas das nossas cidades.
São muitos os motivos que levam alguém para a rua: conflitos familiares, vícios, perdas, desilusões, doenças mentais. Cada pessoa carrega uma história. E histórias envelhecem. “São os nossos vôzinhos”, como costumam dizer, ao se referirem aos idosos acolhidos pela Casa Guadalupe, uma das casas da Missão Belém.

Onde Deus entra, a droga sai
Além do conforto material, os assistidos da Missão Belém recebem conforto espiritual, propósito de vida e pertencimento. Recebem um teto, carinho e passam a fazer parte de uma família. Também têm a oportunidade de se formar como cuidadores de idosos, conquistando uma profissão, dignidade e autonomia.
Esse é o verdadeiro milagre.
“Vocês são uma comunidade católica missionária que sai às ruas, vai aos que estão caídos nas drogas e na miséria, e diz a cada um: ‘Deus ama você. Levante-se, nós vamos ajudar você’. Isso faz a pessoa perceber que a vida tem sentido”, afirmou o arcebispo de São Paulo, cardeal Dom Odilo Scherer, sobre o trabalho dos missionários, durante a missa em celebração aos 20 anos da Missão Belém, em 4 de outubro de 2025.

Brunch na Catedral: quando gastronomia, arte e fé se encontram
A Missão Belém não recebe ajuda governamental. Seus recursos vêm exclusivamente de doações. Parte importante dessa arrecadação é originária do Brunch na Catedral da Sé, um projeto que une gastronomia, arte, cultura e solidariedade.
Mais do que “sentar e comer”, o brunch propõe uma experiência única. Afinal, a Catedral não é um restaurante — é patrimônio histórico, espiritual e cultural da cidade. O projeto contribui para a conservação da Catedral da Sé e auxilia diretamente o trabalho desenvolvido pela Missão Belém.

O Brunch acontece em três edições mensais, com menus diferentes, exceto no mês de março, em respeito ao período da Quaresma. O evento começa com missa — às 12h aos sábados e às 11h aos domingos — seguida pelo brunch nos salões superiores da Catedral e um tour guiado por espaços normalmente restritos ao público.
O menu leva a assinatura da chef Gil Gondim, voluntária no projeto e titular da Casa Gil Gondim Gastronomia, uma das banqueteras mais requisitadas da cidade. Sua cozinha é de afeto, com influência italiana, onde sabores e aromas nutrem o corpo e o espírito.

O buffet reúne mais de 20 opções de pratos, entre estações frias e quentes, carnes, massas, saladas, queijos, charcutaria, sobremesas, além de sucos, refrigerantes, vinhos e espumantes. Tudo servido à vontade, pelo valor de R$ 410 por pessoa, incluindo o brunch completo e o tour guiado.

Parte desse valor cobre custos operacionais do evento. O restante é revertido para a manutenção da Catedral e para a produção de marmitas distribuídas aos atendidos pela Missão Belém, preparadas pela equipe da chef Gil Gondim.
Quem é do meio gastronômico sabe: esse valor representa apenas uma fração do custo real de um evento desse porte. Ele só é possível graças ao apoio de empresas parceiras que doam ou fornecem insumos a preço de custo.

Hoje, os 190 lugares por edição se esgotam rapidamente. Mas nem sempre foi assim. Em 2017, quando o projeto começou, a realidade era outra. “Era dezembro, e a Catedral da Sé não tinha recursos para pagar o 13º dos 21 funcionários. A manutenção de um imóvel tombado é caríssima”, relembra Roseli Cáceres, diretora voluntária da Associação Amigos da Catedral Metropolitana de São Paulo e idealizadora do projeto.

Dar visibilidade à causa
Para o padre Luiz Eduardo Pinheiro Baronto, cura da Catedral da Sé, o Brunch tem um sentido muito claro de existir. Ele existe para dar sustentação concreta a um trabalho que acontece todos os dias, longe dos holofotes… na Catedral, nas ruas e nas casas de acolhida da Missão Belém.
Segundo ele, o valor arrecadado tem três finalidades claras. A primeira é cobrir os custos do próprio evento. “Nem tudo é doação. Temos parceiros importantes que nos ajudam, mas nem tudo é de graça”, pontuou.

A segunda finalidade é a manutenção da Catedral da Sé. Diferente das paróquias de bairro, onde a comunidade se reúne semanalmente e consegue promover bingos ou quermesses, a Catedral é uma igreja de passagem, frequentada principalmente por turistas e pessoas que circulam pelo Centro.
Mas é na terceira finalidade que o coração do projeto se revela por inteiro.
“A terceira parte do ingresso existe porque nós somos a Igreja Católica em São Paulo e temos um projeto ligado à Missão Belém: o projeto Vida Nova”, que funciona no Edifício Nazaré, explicou o padre, referindo-se ao prédio de 11 andares localizado na Praça da Sé, onde 1.500 pessoas em situação de vulnerabilidade são atendidas todos os meses.
“Nossos missionários vão às calçadas da cidade, entram na Cracolândia, olham para essas pessoas e fazem um convite: ‘Se você quiser, venha’. Eles trazem para essa casa, onde recebem roupa nova, alimentação, exames, dedicação, afeto, abraços e uma família”, disse. E completa: “Porque nem tudo se resolve com remédio. Existem feridas no coração que só um abraço de família consegue sarar.”
O padre ainda destacou a força da união e do amor que atravessa crenças religiosas. “Hoje, quem ajuda a sustentar o maior templo católico de São Paulo e a cuidar dessas pessoas é uma evangélica”, disse, referindo-se à chef Gil Gondim. “Quando ela viu a necessidade da missão, estendeu a mão e disse: ‘Padre, eu vou ajudar’. É isso que salva vidas. É o amor em ação.”

Como colaborar
Mesmo sem participar do Brunch, é possível colaborar com a Missão Belém por meio de doações ou se voluntariando ao projeto – acesse aqui.
Empresários interessados em apoiar o Brunch da Catedral podem entrar em contato pelo WhatsApp (11) 98496-9702.
Catedral Sé Missão Belém Catedral Sé Missão Belém Catedral Sé Missão Belém
















































