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Vila Guilherme cobra placas da Memória Paulistana ignoradas há anos pela Prefeitura

Tempo de Leitura: 8 minutos
da Redação DiárioZonaNorte
  • O fundador da Vila Guilherme, Guilherme Praun da Silva, planejava todos os serviços no local: igreja, escola, posto de saúde, padaria e outros.
  • Ficou no esquecimento o Grupo Escolar da Vila Guilherme que  abriga  hoje a Casa de Cultura Vila Guilherme – Casarão; e
  • Outro esquecido: padre cientista brasileiro Roberto Landell de Moura, inventor do rádio e foi opároco da Capela Santa Cruz (130 anos), junto ao Colégio Santana/Sagrado Coração de Maria, em Santana.

Boas ideias, quando não executadas com seriedade, viram apenas encenações institucionais. É exatamente o que ocorre com o projeto Placas da Memória Paulistana, lançado em 2019 pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC) e coordenado pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

Mais um nova e triste história surgiu no meio do caminho: mais de quatro anos do projeto e 355 placas ainda não foram instaladas na cidade, entre elas duas da Vila Guilherme: Capela/Paróquia São Sebastião e Zoológico do Sr. Agenor, que foram aprovadas em 2021 .

Depois de muitos anos do lançamento, a Secretaria Municipal da Cultura (SMC) da Prefeitura de São Paulo responde ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) que, se tudo der certo, as instalações das duas placas da Vila Guilherme — e outras na Zona Norte —  ocorrerão somente no primeiro semestre de 2027.

Decorridos mais de 1.800 dias, sem um eficiente planejamento, a justificativa foi a falta de verba e a necessidade de cumprir o cronograma técnico e orçamentário. O novo prazo amplia ainda mais a frustração da comunidade local e dos defensores da preservação da memória paulistana.

Ainda ao MP-SP, a SMC apresentou uma série de outras justificativas. Entre as informações, destacou que o programa conta com 517 narrativas inventariadas, das quais 162 já foram instaladas (a conferir) e 49 estão sob análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

Segundo confirmou o atraso, as demais 355 narrativas homologadas estão ainda pendentes, mas que foram divididas em blocos para fins de planejamento e execução. A partir dessa divisão, foi elaborado um cronograma de implantação que prolonga mais a solução de implantação das placas para 2017.

Placas Memória Paulistana
Em janeiro de 2022, a Paróquia comemorando os 100 anos sem a placa da Memória Paulistana

Sem muitas justificativas

O DiárioZonaNorte solicitou novamente o posicionamento da SMC, que retornou de forma lacônica depois de mais de 48 horas, nesta 3ª feira (15/07/2025), às 16hs45: “A Secretaria de Cultura e Economia Criativa informa que a Capela/Paróquia São Sebastião e o Zoológico do Sr. Antenor foram reconhecidos como locais de Memória Paulistana. O processo licitatório para colocar as placas está em andamento“. Nem mesmo entrou em detalhes com os argumentos prestados ao Ministério Público.

Apesar da proposta legítima de valorização da identidade cultural de São Paulo, o projeto ficou longe de cumprir seu objetivo. Não houve ampla divulgação dos locais que receberiam as placas, sem publicidade, e nem inaugurações com a presença  politica do prefeito da cidade, seus aliados ou outras autoridades — nem mesmo fotos com o Secretário Municipal da Cultura.

A metrópole mais rica e populosa do país, que abriga uma diversidade de histórias, vê seu patrimônio cultural negligenciado pela própria gestão pública — dando prioridade à visualização no centro da cidade e esquecendo os bairros periféricos, como a Zona Norte.

Em uma cidade como São Paulo, conhecida por apagar sua própria história, o atraso é preocupante. O papel da Secretaria Municipal de Cultura e do DPH deveria ser o de garantir agilidade e compromisso com a preservação da memória. A lentidão na instalação das placas, apesar da homologação oficial, revela descaso com pesquisadores e comunidades. Considerando o peso econômico da capital paulista, a demora soa ainda mais injustificável. A expectativa é de que a atual gestão conclua com responsabilidade o que iniciou“, observou o Prof. José de Almeida Amaral Júnior, autor de livros e profundo conhecer da história da Vila Guilherme, que participou das indicações de pontos históricos ao Inventário da Memória Paulistana.

A Vila Guilherme esquecida

Na Vila Guilherme, bairro fundado há mais de um século na Zona Norte, a frustração é evidente. A comunidade aguarda há mais de mil dias a instalação das duas placas já aprovadas e homologadas no Diário Oficial da Cidade em 27 de novembro de 2021: uma para a Capela/Paróquia São Sebastião — primeira construção do bairro, com 100 anos completados em 20 de janeiro de 2022, que tinha a promessa de receber a placa no dia da comemoração — e outra para o Zoológico do Sr. Agenor, segundo zoológico particular da cidade, famoso entre 1942 e 1975. As indicações, feitas por meio de concurso público, foram aprovadas, mas a maioria jamais executadas.

O indignado Padre Luiz Claudio Vieira, administradorresponsável pela Paróquia São Sebastião da Vila Guilherme, que fez várias cobranças à SMC e ficou sem respostas, comentou: “É vergonhoso a Secretaria Municipal da Cultura alegar não ter verba para instalar esta placa. Se compararmos o custo da placa e os valores gastos nos eventos culturais realizados com patrocínio da prefeitura, constataremos o descaso”.

E complementou: “Tenho consciência das questões orçamentárias, mas, gastam milhões em outros eventos culturais e não tem R$400,00 para confeccionar uma placa da Memória Paulistana com os 100 anos da Paróquia São Sebastião! “.

Placas Memória Paulistana
Esboço da placa que deveria ser instalada no Capela São Sebastião

Só o Parque do Trote foi lembrado

O programa foi apresentado à população como ação de valorização da memória paulistana, com direito a mapa interativo via plataforma GeoSampa. Porém, o que se vê na prática é uma simulação: o mapa aponta a existência de placas que nunca foram instaladas.

Na Vila Guilherme, por exemplo, foram selecionados cinco pontos históricos. Desses, apenas um — o Parque do Trote — recebeu a instalação, e mesmo assim com atraso, depois de muitas cobranças, e sem qualquer cerimônia ou divulgação institucional. Os demais seguem apenas como “pontos virtuais” no sistema, gerando falsa percepção de que o projeto foi realizado plenamente.

E no total 24 pontos históricos na Zona Norte, que foram aprovados, mas não executados, entre eles as indicações da Sociedade PestalozziFábrica Nadir Figueiredo (produtora do copo americano) e o conjunto habitacional para seus funcionários, mais e a sede da antiga TV Excelsior.

Esboço da placa que deveria ser instalada no Zoológico do Agenor

No meio de tudo, desculpas

Frente à morosidade da administração municipal, o DiárioZonaNorte enviou ofícios e questionamentos ao longo de 2023 e 2024, recebendo apenas respostas padronizadas e evasivas da Secretaria Municipal da Cultura (SMC). Em setembro de 2024, após nova cobrança, a SMC admitiu que 163 placas haviam sido instaladas até aquele momento.

A omissão levantou dúvidas sobre os critérios adotados para escolha dos locais, especialmente quando a maioria das placas visíveis  — e que deram um pouco de divulgação — está concentrada no centro da cidade, em áreas de maior circulação e visibilidade, como Avenida Ipiranga com São João (referência à música de Caetano Veloso), Praça Roosevelt (show de estreia de Elis Regina), Largo do Paiçandu (sanduíche Bauru) e Vale do Anhangabaú (Comício das Diretas Já).

A SMC passou a alegar que os concursos realizados em 2020 e 2021 serviram apenas para seleção de verbetes e que todos os indicados ainda dependiam de nova análise técnica do DPH e de deliberação do CONPRESP. A justificativa contrariava as publicações no Diário Oficial da Cidade, que já homologavam os pontos escolhidos. Além disso, as informações publicadas no site oficial do programa indicavam que a instalação era uma etapa seguinte natural após a homologação.

Inquérito Cvil do Ministério Público encaminhado á SMC

O MP-SP pede explicações

O sentimento de abandono levou o DiárioZonaNorte a protocolar representação junto ao Ministério Público do Estado de São Paulo, que instaurou o Inquérito Civil nº 0482.0000637/2024, sob responsabilidade da Promotora de Justiça do Meio Ambiente, Dra. Yolanda Alves Pinto Serrano.

A investigação foi aberta em 20 de fevereiro de 2025 com o seguinte resumo: “Atraso e falta de transparência no programa Inventário Memória Paulistana, que teve somente 163 placas em pontos históricos instaladas até o momento, de um total de 467 previstas (hoje já são 517)”. O caso foi formalmente encaminhado à Secretaria Municipal da Cultura. 

Placas Memória Paulistana

As duas placas foram aprovadas rapidamente, sem nenhum problema

Os casos especiais

Inesperadamente sem demora e de rápidas aprovações, no final de junho de 2025, a Prefeitura de São Paulo liberou a implantação duas novas placas que constavam na relação oficial e que estavam na pendência: uma em homenagem ao Bar Queen (de nº 79) e outra à Caneca de Prata (de nº 93), em celebração ao Movimento LGBTQIAPN+. A divulgação ocorreu próximo da 29ª Parada do Orgulho LGBTQIAP+ de São Paulo.

Ainda no período de implantação do projeto Inventário Memórias Paulistanas, a SMC contratou o Estúdio Crua para realizar uma intervenção artística online, no valor de R$ 275 mil, incluindo imagens com drones na página oficial do programa. Embora esse serviço tenha gerado uma experiência visual inovadora, não foram divulgados outros gastos ou relatórios de impacto. Se considerado apenas o valor estimado de R$ 401,00 por confecção de placa (informado em 2021), o custo total  somente das 519 previstas ultrapassaria os R$ 208 mil, na época.

Importante destacar que o projeto foi concebido ainda na gestão de Bruno Covas e atravessou várias administrações sem continuidade efetiva. Passou por três titulares da Secretaria Municipal da Cultura: Alê Youssef (2019-2022), Aline Cardoso (2022-2024) e atualmente está sob responsabilidade de Antônio Silva Parente – Totó Parente.

Nenhum deles conseguiu dar encaminhamento e efetividade ao Inventário da Memória Paulistana, e não houve cobrança visível aos responsáveis do DPH ou ao CONPRESP. E mais: nenhum dos 55 vereadores e de toda a grande infraestrutura da Câmara Municipal de São Paulo  acompanhou o processo e nem fez cobranças.

Placas Memória Paulistana
Placas escolhidas para implantação na Zona Norte. Fonte: DPH/PMSP

Placas privatizadas

Além disso, a Prefeitura de São Paulo agora impõe a necessidade de autorização formal dos proprietários dos imóveis onde as placas seriam instaladas, e inclusive sugere que esses proprietários possam arcar com os custos da confecção — 10 locais não mais autorizaram. A medida contradiz o caráter público do programa e transfere a responsabilidade da preservação patrimonial à iniciativa privada.

Enquanto isso, a Zona Norte segue esquecida no circuito oficial da memória paulistana. A ausência das placas simboliza a falência de políticas culturais inclusivas e o descompromisso da gestão com bairros afastados do centro. A comunidade da Vila Guilherme, que esperava comemorar os 100 anos da paróquia  com dignidade histórica, se depara com um enredo de promessas não cumpridas.

Uma incoerência vai de encontro às desculpas e dificuldades orçamentarias, a SMC ainda tem a capacidade desafiar e convocar os moradores da cidade para participar do Inventário da Memória Paulistana:  “solicitar inclusão de placa com sugestões que devem ser encaminhadas pelo Portal SP 156, acessando o link:  clique aqui

O “Faz de Conta“, expressão geralmente usada em histórias infantis, passou a definir a realidade da memória paulistana: uma encenação oficial que esconde o abandono da história real da cidade.


Relação oficial, em PDF, da Secretaria Municipal da Cultura-DPH-CONPRESP, listando todos os 517 pontos históricos com indicações “instalados”, “pendentes”” e  “não autorizados”: clique aqui para acessar


Adendos/Referências:

  • (*)  Reportagem: Padre Landell: de Santana para o mundo, a invenção do rádio realizada por um brasileiro – (16/07/2024) – clique aqui

Mais informações/matérias do DiárioZonaNorte:

  • Prefeitura de São Paulo promete, mas não reconhece pontos históricos da Vila Guilherme – 25/08/2024 –  clique aqui
  • 112 anos da Vila Guilherme e o desprezo pelo aniversário, história e placas da memória – 11/09/2024 – clique aqui
  • Vila Guilherme: o “Faz de Conta” e o futuro incerto das Placas da Memória Paulistana – (29/09/2024) – clique aqui

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