da Redação DiárioZonaNorte
- A Pax Aeroportos é uma empresa concessionária, pertencente ao fundo XP Infra IV, administrado pela XP Asset Management, uma gestora do grupo XP Inc.;
- A empresa é responsável pela operação e infraestrutura dos aeroportos de Jacarepaguá, (RJ) e o Campo de Marte (SP);
- Campo de Marte é o primeiro aeroporto com localização privilegiada em área central da maior capital do país, dedicado exclusivamente à aviação de negócios; e
- Até 2052 o Aeroporto deverá receber cerca de 218 mil passageiros por ano.
Como tantas vezes se repete, decisões que afetam diretamente o território e o meio ambiente foram tomadas em “portas fechadas”, sem qualquer aviso ou comunicado aberto à população.
Desde junho passado, atrás dos muros do Aeroporto Campo de Marte, em Santana (Zona Norte), máquinas abriram caminho para o corte de centenas de árvores. Caminhões deixavam o local carregados de troncos, enquanto moradores do entorno – principalmente junto aos prédios da Avenida Braz Leme – tentavam entender o que acontecia. Informações obtidas apontam que mais de 200 árvores já foram derrubadas.

O desmatamento afeta um raro remanescente verde da zona norte de São Paulo. Apesar das justificativas técnicas apuradas pelo DiárioZonaNorte, o cenário de devastação gerou revolta.
Moradores da região, especialmente da Avenida Braz Leme, relataram indignação com o desaparecimento súbito da vegetação nativa, que acontece há um mês. “Foi como se tivessem tirado um pedaço da memória do bairro”, lamentou Maria José Godói Ferreira, moradora há mais de 40 anos no entorno.
Outra moradora, Márcia Santos, enviou a nossa redação imagens de uma área do aeroporto onde existe um mangue, onde houve remoção da mata do entorno, prejudicando os pássaros que ficavam no local.
Reestruturação do aeroporto
A empresa PAX Investimentos em Aeroportos, concessionária responsável desde 15 de agosto de 2023 pela administração do aeródromo pelo período de 30 anos, confirmou a retirada e que segue um plano de reestruturação para ampliar a segurança operacional.
A remoção das árvores acontece em um terreno paralelo à pista principal. De acordo com fontes ouvidas pelo DiárioZonaNorte, o objetivo é transformar o espaço em pátio de manobras para aeronaves executivas e helicópteros.
A utilização da área não afetaria a visibilidade das operações, já que a altura máxima permitida para construções no local — até 3 metros — não interfere nem no campo visual, nem na segurança das aeronaves

Em nota, a empresa alega que “cumpre o atendimento aos Regulamentos Brasileiros da Aviação Civil (RBACs) e as obrigações previstas no Contrato de Concessão. Essas ações são fundamentais para eliminar obstáculos que atualmente comprometem as Superfícies de Aproximação e de Transição da pista, impactando diretamente a segurança de pousos e decolagens“.

De acordo com o estudo de mercado, encomendado pela Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC em 2023 – quando da concessão do Campo de Marte, o movimento do aeroporto deve aumentar de 94 mil passageiros ano para 218 mil passageiros ano até 2052.
Situação fitossanitária
A Rumo Soluções Ambientais foi a responsável pelo levantamento da situação fitossanitária de 990 árvores nas dependências do Aeroporto Campo de Marte. De acordo com laudo da empresa, 220 exemplares arbóreos apresentaram problemas como troncos ocos, podridão, cupins e brocas, risco de quedas, entre outros.
O levantamento revelou ainda que dos 220 exemplares identificados para corte, 102 espécies são “exóticas invasoras” ou seja, não são nativas da região e sua proliferação causa prejuízos ambientais, além de ameaçar o ecossistema local composto predominantemente de exemplares remanescentes da Mata Atlântica – parte de um corredor ecológico interligado às áreas verdes do Parque da Juventude.

Reuniões e autorizações
A PAX Aeroportos afirma ter realizado reuniões públicas sobre o tema antes do início das intervenções. O DiárioZonaNorte ouviu “in loco” alguns moradores da região da Braz Leme (principal concentração de domicílios vizinhos ao aeroporto) que negaram ter conhecimento destas reuniões.
Em resposta a este jornal, a concessionária PAX Aeroportos informou que “a remoção de vegetação no Aeroporto Campo de Marte está sendo feita com todas as autorizações necessárias, emitidas pela Cetesb (ASV nº 152938/2025 de 03/04/2025) e com aprovação da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), seguindo as normas ambientais e regulatórias em vigor”.
Secretaria do Verde e Meio Ambiente
A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) encaminhou nota à nossa Redação, confirmando ter recebido o levantamento realizado pela Rumo Soluções Ambientais e “autorizado a supressão de 194 árvores e que foi motivada por questões fitossanitárias, risco de queda e pela presença de espécies exóticas invasoras, que totalizam mais de 50% destes exemplares”. Continua a nota “como compensação ambiental, deverá ser executada a substituição integral das árvores com espécies nativas e em áreas adequadas no mesmo local”.
A SVMA acrescentou que a autorização foi publicada a no Diário Oficial, da Cidade (DOC) de 07/03/2025, com o despacho nº 344/2025, e o replantio tem prazo de 12 meses, ou seja, até março de 2026.

Cetesb
Para dar andamento na remoção das árvores e nas obras de ampliação do aeroporto, a PAX celebrou um acordo com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo – Cetesb, se comprometendo a cumprir uma série de obrigações ambientais. A autorização foi publicada no Diário Oficial do Estado em abril de 2025.
Em nota, a Cetesb confirmou a autorização para o corte de vegetação no Aeroporto Campo de Marte. E completou: “ como compensação, a concessionária deverá recuperar cerca de 520 mil metros quadrados — ou seja, 51,97 hectares de área verde em três locais“. O tamanho da compensação equivale a 63 campos de futebol.
Três locais receberão novas árvores
No acordo celebrado com a concessionária, a Cetesb indicou o futuro Parque Municipal Campo de Marte, ao lado da obras no aeroviário, e também no Refúgio da Vida Silvestre Anhanguera, em Perus (Zona Noroeste da cidade) e no Projeto Rio do Peixe – que fica na cidade paulista de Socorro, a 132 kms de São Paulo.

Legislação
Embora a PAX Aeroportos e autoridades afirmem que os cortes obedeceram aos trâmites legais, especialistas ressaltam que a presença de árvores centenárias de espécies nativas configura área de proteção permanente. Urbanistas e botânicos sustentam que não é somente compensar com mudas, mas deve-se considerar o valor ecológico e histórico dessas árvores, muitas delas com mais de cem anos.
Mesmo com as aprovações, ambientalistas ouvidos pelo jornal, afirmam que a substituição é insuficiente diante da perda imediata e lembram que o corte de árvores em áreas de remanescentes florestais urbanos levanta questionamentos sobre a eficácia da Lei da Mata Atlântica (11.428/2006), que deveria proteger a vegetação nativa e estabelecendo critérios rígidos para intervenções.
PMMA
A cidade de São Paulo conta com um Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA), instituído como exigência legal para municípios que possuem fragmentos desse bioma.
O PMMA define áreas prioritárias para proteção e recuperação da vegetação nativa, e deveria guiar toda intervenção pública ou privada em remanescentes florestais.

Zona Norte como laboratório de perdas
O caso do Aeroporto do Campo de Marte não é isolado. Em menos de um ano, a Zona Norte perdeu mais de 300 árvores em consequência de temporais e intervenções urbanas. A ausência de políticas consistentes de arborização, manutenção preventiva e inventário de árvores acentua a vulnerabilidade da cobertura vegetal urbana. Com isso, a cidade assiste a uma “substituição silenciosa” da natureza por concreto.
Enquanto isso, em outras regiões da cidade, surgem alguns projetos de recuperação e restauração da Mata Atlântica com apoio de ONGs e universidades. A desigualdade na gestão das áreas verdes reflete a ausência de uma política unificada de conservação.
A promessa de criar o Parque no Campo de Marte ainda é só isso: uma promessa. A população local segue aguardando mais que promessas e compensações técnicas. Quer respeito à história viva que resistia enraizada naquelas árvores centenárias. (Veja reportagem: “Agora vai? Parque Campo de Marte sai do papel e Zona Norte entra no Top 5 da cidade – 23/01/2025“ – clique aqui )
Nota da Redação: A Infraero foi procurada por este jornal e enviou a seguinte nota: “O Aeroporto de Campo de Marte foi concedido pelo governo federal à iniciativa privada e, desde agosto de 2023, está sob a responsabilidade da nova concessionária. Sugerimos apurar os questionamentos à nova operadora do aeroporto, responsável pelo aeroporto desde o final da transição da gestão da Infraero“.
Histórico da Concessão do Aeroporto Campo de Marte: rever reportagem publicada há três anos – em 18/08/2022: “Sob nova direção: XP arremata Aeroporto Campo de Marte em leilão da ANAC” – clique aqui
Campo Marte corte árvores Campo Marte corte árvores Campo Marte corte árvores Campo Marte corte árvores















































