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Eddy Teddy, o roqueiro do Limão que fez da Zona Norte o berço do Rockabilly brasileiro

Foto: Divulgação
Tempo de Leitura: 8 minutos

 

da Redação DiárioZonaNorte
  • O termo rock’n’roll deriva da gíria afro-americana rocking and rolling (balançar e rolar). Ela se refere ao ato de dançar, curtir e se divertir;
  • Rockabilly não tem uma tradução literal, mas se refere a um gênero musical que é a fusão do rock ‘n’ roll e do country (ou “hillbilly music”);
  • Músicas de artistas como Elvis Presley, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis, especialmente as gravadas para a Sun Records, são exemplos clássicos do gênero; e
  • Coke Luxe criada devido à semelhança sonora com a palavra “coqueluche”.

Eddy Teddy era um sujeito à frente do tempo. Um músico que viveu o rock com intensidade e o tratava quase como uma crença. Certa vez, prestes a subir ao palco, alguém lhe perguntou se iria rezar. Ele riu, ajeitou o topete, respirou fundo e respondeu, com a voz rouca e firme: — “Vou sim. Rock & Roll pra mim é uma religião.”


Eddy Teddy roqueiro do Limão
Foto: Divulgação

Essa pequena história define quem foi Eduardo Alberto da Silva Moreira (1950–1997 – 47 anos) — o eterno Eddy Teddy — artista, agitador cultural, colecionador de discos e criador de um movimento que marcou a Zona Norte de São Paulo para sempre. Ele se foi, mas deixou um grande legado. Depois de 28 anos, recebeu uma grande homenagem com o livro “Eddy Teddy – O Som, a Vida e o Legado”, escrito pelo filho Luiz Teddy.

Antes da internet, quando o Brasil ainda respirava entre vinis e fitas cassete, Eddy ousou reinventar o som americano dos anos 50 com sotaque paulistano, humor de subúrbio e coração de garagem.  Foi o tempo em que o som vinha dos quintais. Assim nasceu o rockabilly com jeitão brasileiro — ritmo americano com o tempero da rua e das esquinas do Limão e da Casa Verde.

Nos anos 70 e 80, a música ecoava entre cabos improvisados e caixas de som emprestadas. Era a época dos bailinhos de garagem, das noites embaladas por Cuba Libre, Martinis e amores de fim de semana. Foi nesse ambiente que Eddy cresceu — o garoto do bairro do Limão, vizinho ao distrito da Casa Verde, começou dublando os Beatles  na televisão e logo transformou as brincadeiras em paixão e transformadas em som.

Eddy Teddy roqueiro do Limão
Foto: Divulgação

Com um contrabaixo nas mãos, sorriso largo e cabelo engomado, ele fazia o público acreditar que o rock também podia nascer no coração da Zona Norte — terra do samba, das escolas Império da Casa Verde e Morro da Casa Verde.

Enquanto o batuque ecoava das quadras, Eddy criava um novo ritmo — o rockabilly brasileiro — com letras simples e cheias do olhar cotidiano dos jovens da época, falando de trânsito, amores e tipos urbanos da cidade.

Em sua formação, passou por bandas como Espectro Azul, As Bananas e até Tutti Frutti, experiências que o afinaram como músico e frontman. Já nos anos 70, ele e a esposa abriam as portas de casa para amigos e vizinhos trocarem discos e ideias. Era o embrião do movimento.

Entre os frequentadores estavam Luiz Calanca, da gravadora Baratos Afins, e radialistas da cena paulistana. Dessas reuniões nasceram as feiras de discos que mais tarde inspiraram eventos como o Tangerina, ainda ativo, reunindo gerações em torno do vinil.

Eddy Teddy roqueiro do Limão
Foto: Divulgação

Coke Luxe — quando o rock ganhou sotaque brasileiro

Em 1981, nascia oficialmente a Coke Luxe, a primeira banda de rockabilly do Brasil, formada por Eddy Teddy (vocais), Jipp Willis (bateria), Billy Breque (guitarra, vindo da banda Pholhas) e Little Piga (baixo acústico). O nome era uma brincadeira sonora no jogo de palavras com “coqueluche” —  a  banda anterior criada também por ele, que tinha virado febre.

O estilo era inconfundível: roupas retrô, energia nos palcos e humor sarcástico sobre o cotidiano. A guitarra não era uma simples coadjuvante, mas com destaque na época, até com solo, somando força à bateria pulsante que fazia o público dançar. O primeiro compacto, É Rockabilly!, e o LP Rockabilly Bop (1984), lançados pela Baratos Afins, tornaram-se ícones da música independente.

As letras contavam as desventuras de “Roque, o Azarado”, personagem atrapalhado que se metia em brigas de bar, romances desastrosos e apagões no banheiro. Era o retrato divertido e humano do brasileiro comum — um “herói de garagem” em ritmo de guitarra.

O grupo despertou a atenção de Raul Seixas, que, ao ouvir as fitas na Baratos Afins, convidou a banda para abrir dois de seus shows. A chancela do cantor  carimbou a importância de Eddy na história do rock nacional.

Foto: Divulgação

O show como experiência — e o público como personagem

Os shows da Coke Luxe eram uma experiência completa. Eddy comandava o palco como um mestre de cerimônias, misturando teatro, humor e rock. As músicas se entrelaçavam como capítulos de uma história, e o público ria, batia palmas e se via nos personagens.

A banda conquistou as danceterias e os palcos alternativos de São Paulo na década pós-ditadura. “Meu pai não apenas tocava — ele criava um universo dentro de cada show. O rock era o roteiro, e o público, o personagem principal”, lembra Luiz Teddy, filho e herdeiro artístico do músico – que se apresenta com a sua banda.

Foto: Divulgação

Entre o samba da Casa Verde e o contrabaixo do Limão

Enquanto o samba mantinha a alma da Casa Verde, o rockabilly dava corpo ao Limão. Os dois bairros tornaram-se polos complementares da cultura paulistana. O batuque e o contrabaixo se misturavam nas noites quentes da Zona Norte, provando que São Paulo cabia inteira num mesmo compasso.

Nesse ambiente, Eddy criou o Clube do Rockabilly, espaço que reunia músicos, colecionadores e amantes de carros antigos. Era uma micro revolução cultural — feita sem patrocínio, mas com paixão. Sua casa virou ponto de encontro, repleta de pôsteres, guitarras e histórias. “Meu pai tinha essa coisa de reunir pessoas. Ele e minha mãe abriam a casa para todo mundo ouvir música, trocar discos, conversar. Era uma comunidade do som”, conta Luiz Teddy.

A generosidade e o espírito agregador de Eddy influenciaram gerações. Ele fez o que poucos conseguiram: transformar a periferia em palco e o improviso em arte.

Capa do livro – Foto: Divulgação

O artista e o homem — entre discos, amigos e ideais

As 216 páginas do livro “Eddy Teddy – O Som, a Vida e o Legado” é o registro definitivo dessa história. Com depoimentos, fotos raras e anotações pessoais, a obra revela o artista e o homem — o colecionador de vinis, o amigo fiel, o entusiasta e o visionário.

O autor, que trabalha há quase 30 anos na mesma empresa onde o pai atuou, conta que herdou o amor pela música e pelos discos: “Eu continuo colecionando. Tenho mais de 5 mil vinis e sigo tocando nas bandas que ele fundou. É como se ele ainda estivesse comigo.”, lembra.

O livro também registra a participação da família em um documentário sobre o bairro do Limão, disponível no YouTube, e em um livro sobre a Casa Verde, reforçando o papel de Eddy como parte da memória cultural da Zona Norte.

Luiz Teddy no lançamento do livro em homenagem ao pai Eddy Teddy. Foto: Divulgação

Um lançamento que virou celebração

O lançamento da biografia, em outubro de 2025, no Rockweels Kustom Bar, no icônico bairro do Bixiga, foi um sucesso absoluto. Em poucas horas, os 400 exemplares da primeira edição se esgotaram, levando a editora C.I. Editorial a anunciar uma segunda tiragem, que deve acontecer no próximo mês.

O evento reuniu músicos, fãs e amigos do criador do Rockabilly brasileiro. O filho Luiz Teddy subiu ao palco, interpretou clássicos da Coke Luxe e encerrou a noite com “Roque, o Azarado”. Muitos dançaram, outros choraram — todos celebraram a alma do rock paulistano.

Poucos dias depois, a homenagem chegou ao poder público: a Câmara Municipal de São Paulo instituiu o Elvis Presley Day e o Dia Internacional do Rockabilly (15 de outubro). Luiz Teddy recebeu o título de “Embaixador Nacional do Rockabilly”, reconhecimento por preservar o legado do pai.

Eddy Teddy com Kid Vinil. Foto: Divulgação

Um som que ainda ecoa

Mais de quatro décadas depois, o nome Eddy Teddy segue vivo nos palcos, nas redes e nas memórias. A Coke Luxe ainda se apresenta — agora com Luiz Teddy nos vocais e Marcelo Bergamini no contrabaixo — mantendo a chama acesa de um estilo que atravessou o tempo.

Os discos da banda, relançados pela Baratos Afins, são vendidos até hoje na Europa e no Japão, onde o rockabilly tem status de culto. “Roque, o Azarado” e “O Rei do Racha” continuam sendo tocadas em festivais vintage pelo mundo, sempre creditando a Eddy Teddy o título de fundador e alma do gênero no Brasil.

Foo: Divulgação

O legado de um homem comum com alma extraordinária

Mais do que ídolo, Eddy Teddy foi símbolo de autenticidade. Mostrou que o rock não precisava de grandes palcos — bastava uma garagem, amigos e um coração disposto a bater no ritmo da guitarra.

Hoje, os bairros do Limão e da Casa Verde ainda guardam ecos de sua música. Entre o batuque do samba e o som do contrabaixo, a Zona Norte continua dançando no compasso do artista que fez do rock & roll uma religião e da simplicidade, uma forma de arte.


O repertório

Em resumo, as principais músicas e seus conteúdos são as seguintes :

  • O Rei do racha” — aventuras da criança Roquinho com outros moleques.
  • Bobão” — timidez do Roque na sua adolescência, perante um brotinho encantador.
  • 20º Andar” — Roque se apaixona, mas se prejudica no primeiro encontro.
  • Espírito de Porco” — sim, sim… Roque teve momentos de contradição também.
  • I.N.P.Rock” — desventuras do Roque precisando do serviço de saúde gratuito.
  • Gata Gatuna” — o golpe sofrido pelo Roque quando se meteu com uma prostituta.
  • Põe mais uma…” — Roque vai a um alambique e toma um pileque.
  • Moça do sapato grande” — Roque aplica um ‘chaveco’ numa garota e se dá mal.
  • BUZUM” — Roque se desespera quando tem que utilizar transporte público.
  • Não beba papai, não beba” — Roque começa a repetir os problemas do pai

Serviço

Onde ouvir === As músicas Eddy Teddy  e a banda Coke Luxe podem ser ouvidas nos três discos “É Rockabilly” (1983 – 2 músicas –  5min42s),  “Rockabilly”  (1983 – 9 músicas – 23min15s). e “Rockabilly Bop – Ao Vivo” (1984 – 11 músicas 40min43s), no Spotify .

Discos === os discos podem ser localizados na loja Baratos Afins, que fica na Galeria do Rock: Av.São João, 439, Sobreloja L 314/18 – Centro – Telefone: (11) 3223-3629

Livro 2a. Edição ===  a partir de dezembro/25 no site da C.I. Editora: clique aqui

Videos Eddy Teddy:   YouTube (clique aqui)

Contato/Luiz Teddy ===  Facebook (clique aqui) – Instagram (clique aqui)

E-mail/Luiz Teddy:  [email protected]


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