da Redação DiárioZonaNorte
Na mesa dos apreciadores da boa gastronomia, o azeite de oliva extra virgem deixou de ser mero coadjuvante. Tornou-se símbolo de refinamento, saúde e prazer sensorial. E, aos poucos, o Brasil começa a ocupar lugar de destaque nesse universo, com rótulos premiados e um terroir que revela sabores únicos — da Serra da Mantiqueira às planícies do Sul.
Foi nesse cenário que o Conselho Oleícola Internacional (COI) promoveu, na primeira quinzena de outubro, uma Masterclass exclusiva para jornalistas e comunicadores digitais, reunindo especialistas de referência mundial no Restaurante Praça São Lourenço, em São Paulo.
O encontro, que integrou a agenda oficial da visita da delegação do COI ao Brasil, teve como foco difundir conhecimento sobre qualidade, autenticidade e análise sensorial do azeite de oliva extra virgem.

A experiência da Masterclass: técnica, cultura e sabor
Durante o evento, os participantes acompanharam apresentações de María Juárez – Chefe da Unidade de Promoção de Assuntos Econômicos (Espanha) e Abderraouf Laajimi – Vice-Diretor Executivo de Operações (Tunísia), ambos do COI, além das especialistas Susana Mattar (Universidade Católica de Cuyo, Argentina) e Ana Cláudia Ellis (Universidade da República, Uruguai).
Entre aulas teóricas e degustações, os jornalistas vivenciaram a avaliação sensorial orientada por painéis homologados pelo COI — metodologia internacional que define se um azeite é extra virgem, virgem ou lampante.

A sessão foi coroada com a degustação dos 14 rótulos vencedores do Prêmio Mario Solinas Quality Award, considerado o “Oscar do azeite de oliva”. Duas marcas brasileiras figuraram entre as premiadas: Fazenda Serra dos Tapes, vencedora em 2025 na categoria verde médio, e Estância das Oliveiras, premiada em 2024 na categoria verde suave — ambas do Rio Grande do Sul.

O que define um azeite extra virgem de verdade
O azeite de oliva extra virgem é o “suco da azeitona”, obtido apenas por processos físicos, sem solventes ou misturas. É o mais puro, saudável e aromático dos azeites.
As demais classificações são o virgem e o lampante — este último, impróprio para consumo direto. A diferença está nos níveis de acidez e nos atributos sensoriais: frutado, amargo e picante, que expressam a personalidade da variedade e do terroir.

Critérios oficiais, painéis sensoriais e combate à fraude
O COI homologa painéis sensoriais formados por profissionais treinados segundo normas internacionais. No Brasil, apenas dois laboratórios têm essa certificação: o Laboratório Federal de Defesa Agropecuária (RS) e o da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ).
Esses painéis subsidiam a fiscalização de azeites importados, coibem fraudes e fortalecem a produção nacional de alta qualidade.
O papel global do COI e a posição do Brasil
Criado em 1959, o Conselho Oleícola Internacional reúne 47 países e 21 membros, sendo a União Europeia um deles, representando 72% da produção mundial. Juntos, os países membros respondem por 94% da produção global de azeitonas.
O Brasil, terceiro maior importador de azeite do planeta (8% do consumo mundial), é membro observador desde 2018. O ingresso como membro pleno — previsto até 2027 — exigirá investimento anual de 100 mil euros (cerca de R$ 600 mil).
O retorno, porém, é expressivo: acesso a pesquisas, certificações internacionais e intercâmbio técnico para elevar a qualidade e a produtividade das oliveiras brasileiras.

Visita a Maria da Fé e o terroir brasileiro
A delegação do COI visitou o município de Maria da Fé (MG), considerado o berço da olivicultura brasileira. A cidade abriga o Banco de Germoplasma de Oliveira, com cerca de 60 variedades cultivadas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), além do Campo Experimental de Oliveiras.
A partir da variedade Galega, foi desenvolvida a cultivar Maria da Fé, registrada em 2008 e hoje reconhecida por sua baixa acidez, notas de nozes e leve amargor. Outra variedade destacada é a Grappolo 541, de perfil herbáceo e frutado, adaptada ao clima da Serra da Mantiqueira.
As duas variedades brasileiras, desenvolvidas e cultivadas há cerca de 17 anos, ainda não constam no Catálogo Mundial de Azeitonas do COI.
O COI também promoveu encontros com produtores e profissionais ligados ao food service, em Porto Alegre no Rio Grande do Sul.

Clima, safra e o impacto do aquecimento global
Entre 2022 e 2024, o preço do azeite subiu até 50% no mercado brasileiro, refletindo a escassez global.
A Europa, que concentra 80% da produção mundial, enfrentou secas severas e quebras de safra de até 40%. O calor excessivo e a colheita antecipada — muitas vezes na madrugada, para evitar oxidação — reduziram a produtividade e elevaram custos.
Uma oliveira saudável produz de 15 a 50 quilos de azeitonas por ano, gerando de três a cinco litros de azeite. Para cada litro, são necessários entre 5 e 10 quilos de azeitonas — um processo artesanal que justifica o valor dos rótulos premium. Desconfie, portanto, de azeites muito baratos: qualidade tem preço, aroma e história.
Mitos, verdades e escolhas conscientes
Azeite de oliva extra virgem não é gasto, é investimento. Além do sabor e da versatilidade culinária, é alimento funcional, rico em antioxidantes e protagonista da Dieta do Mediterrâneo, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) por seus benefícios à saúde cardiovascular.
Saber escolher é essencial: prefira azeites com indicação de origem, data de colheita, acidez inferior a 0,8% e embalagens escuras. Guarde longe da luz e do calor. O paladar agradece — e o corpo também.
O azeite na história e na cultura
Cultivado há mais de 6 mil anos, o azeite percorreu civilizações antigas: fenícios, gregos e romanos o usavam em rituais, banhos e banquetes. Hoje, é símbolo universal de tradição, sabor e longevidade.
No Brasil, ganha território e reconhecimento, reforçando o elo entre natureza, ciência e prazer gastronômico.
O Brasil no mapa dos azeites premium
Com rótulos premiados e terroirs singulares, o Brasil desponta como a nova fronteira do azeite de oliva extra virgem. A visita do COI e a excelência dos produtores nacionais mostram que o país tem tudo para brilhar nesse mercado global — unindo ciência, tradição e sabor em cada gota dourada.

















































