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Bebida com metanol mata e escancara falhas na fiscalização de municípios e do estado

Casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas. Foto: Divulgação/João Valério/Governo de São Paulo
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Nos últimos dias, o Brasil voltou a ser sacudido por uma realidade perigosa que, embora conhecida há anos, só volta à tona quando casos fatais ocorrem: a adulteração de bebidas alcoólicas com substâncias tóxicas, como o metanol.

No estado de São Paulo, três mortes já foram confirmadas em decorrência da ingestão de bebidas falsificadas. Outras pessoas permanecem internadas com sintomas graves de intoxicação.

O caso mais recente é o de um homem de 54 anos, morador da região da Mooca/Aricanduva, que apresentou sintomas no dia 9 de setembro e faleceu no dia 15. Ele havia consumido bebida alcoólica de procedência desconhecida. Até o momento, 14 casos suspeitos de intoxicação por metanol foram registrados apenas na capital paulista.

A tragédia reacendeu o debate sobre a negligência histórica das autoridades e a urgência de ações efetivas e coordenadas. Somente agora, com vidas já perdidas, os governos federal, estadual e municipal intensificam a fiscalização e prometem medidas mais rigorosas. Mas a pergunta que ecoa é: por que essas providências só são tomadas quando a situação já saiu do controle?

Fiscalização intensificada

Em resposta às ocorrências, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), está realizando operações conjuntas com a Secretaria de Segurança Pública e o Governo do Estado para fiscalizar bares e estabelecimentos comerciais. Três locais foram vistoriados, sendo recolhidas dezenas de garrafas de bebidas para análise, especialmente destilados.

Além das visitas, a Covisa informa que as fiscalizações são constantes. Apenas entre os dias 22 e 26 de setembro, foram feitas 43 inspeções, com duas autuações e interdições. Os técnicos checam desde a presença de nota fiscal até a integridade dos rótulos, lacres e dados do fabricante.

O Procon-SP também está atuando com mais intensidade em parceria com o Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), com ações integradas em bares, supermercados, adegas e casas noturnas. Nas fiscalizações, os agentes verificam o cumprimento do Código de Defesa do Consumidor e se há irregularidades nas embalagens e notas fiscais. Produtos suspeitos são encaminhados para análise laboratorial.

Um problema conhecido e negligenciado

O mais alarmante é que o problema não é novo. Em abril deste ano, a Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp) já havia alertado sobre a gravidade da situação. Segundo estudo do Núcleo de Pesquisa e Estatística da entidade, 36% das bebidas comercializadas no Brasil são adulteradas, falsificadas ou contrabandeadas.

O relatório identificou que vinhos e destilados são os produtos mais afetados. Ainda mais preocupante: uma a cada cinco garrafas de vodca vendidas no país é falsa. De acordo com o diretor-executivo da Fhoresp, há um esquema de adulteração em larga escala no país, antes associado apenas à sonegação fiscal, mas que hoje se mostra uma ameaça direta à saúde da população.

A Fhoresp reforça o apelo para que as autoridades desmantelem urgentemente esse mercado paralelo, que movimenta milhões com produtos que oferecem risco real de morte.

O Governo de São Paulo montaou um gabinete de crise e anunciou fiscalização mais ativa  contra intoxicação por metanol, incluindo interdição de estabelecimentos. Uma reunião no Palácio dos Bandeirantes, nesta 3a. feira (30/09/2025) define ações de fiscalização, além de medidas para coibir bebidas adulteradas e reforçar a segurança à população

O que o consumidor pode fazer

Diante do cenário, o Procon-SP vem reforçando sua comunicação com a população, orientando sobre como identificar e evitar bebidas adulteradas. As principais recomendações são:

  • Compre em locais confiáveis ou indicados por outras pessoas;
  • Desconfie de preços muito abaixo da média, pois podem indicar irregularidades;
  • Observe rótulos e embalagens: lacres tortos, rótulos mal colados, erros de ortografia e ausência de informações como CNPJ e endereço do fabricante são sinais de alerta;
  • Nunca teste o produto em casa, cheirando ou tentando queimar — isso é perigoso e não garante diagnóstico;
  • Fique atento a sintomas pós-consumo, como visão turva, náuseas, dor de cabeça intensa, tontura ou confusão mental. Esses sinais podem indicar intoxicação;
  • Procure ajuda médica imediatamente se houver qualquer suspeita;
  • Comunique as autoridades competentes como o Disque-Intoxicação (Anvisa – 0800 722 6001), Vigilância Sanitária, Polícia Civil e Procon; e
  • Exija sempre nota fiscal, pois ela permite rastrear a origem do produto e responsabilizar os envolvidos.

O alerta está dado. E agora?

Com três mortes já confirmadas e uma possível crise de saúde pública em andamento, é urgente que a fiscalização se torne permanente e os canais de denúncia funcionem de forma eficaz. A adulteração de bebidas não é apenas um problema de comércio ilegal — é uma questão de saúde e segurança pública.

Mais do que punir os culpados, é necessário proteger os consumidores antes que novas tragédias ocorram. A omissão não pode mais ser a regra. E fica uma pergunta no ar: se hoje acontece com as bebidas, o que está acontecendo com alimentos nos supermercados em pacotes frágeis? E outros produtos que não mostram fiscalização mais ativa?


<<Com apoio de informações/fonte: Secom-Prefeitura de São Paulo, Procon-SP, Governo de SP/Agência SP e Fhoresp >>