da Redação DiárioZonaNorte
- O brasileiro Santos Dumont funda em 1898 o primeiro aeroclube do mundo – o da França – em Paris;
- No Brasil, ele funda o Aeroclube do Brasil, no Rio de Janeiro, com o intuíto de ensinar e difundir as práticas aeronáuticas;
- Nas décadas de 30 e 40 os aeroclubes foram utilizados pelo governo de Getúlio Vargas como forma de criação e expansão da rede aeronáutica nacional; e
- Através dos aeroclubes, foram criados todos os aeroportos do país, que também eram escolas profissionalizantes de piloto
O Brasil, berço do inventor do avião, Alberto Santos Dumont –– “o Pai da Aviação” — , construiu sua história aeronáutica apoiado em instituições que atravessaram gerações: os aeroclubes. Desde o início do século 20, essas entidades civis foram responsáveis por democratizar o acesso ao voo, formar pilotos, criar cultura aeronáutica e manter vivo o espírito pioneiro que colocou o país entre as nações que nasceram junto com a aviação mundial.
Com o caso recente envolvendo o Aeroclube de São Paulo, reacendeu-se o debate nacional sobre as ameaças que atingem instituições semelhantes em várias regiões do país. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), existem hoje 87 aeroclubes em funcionamento no Brasil, número que representa cerca de 33% dos 258 centros de instrução de aviação civil registrados. Esse percentual, porém, tem diminuído ao longo dos anos, sinalizando um cenário de alerta.

As dificuldades dos aeroclubes
A Anac confirma que os aeroclubes em atividade enfrentam dificuldades crescentes. Por serem instituições sem fins lucrativos, grande parte delas sofre com declínio operacional, queda de receitas e aumento de processos de fechamento.
Uma das causas mais citadas é a concessão de aeroportos regionais à iniciativa privada, modelo que frequentemente modifica regras de uso, encarece operações e coloca em risco aeroclubes que há décadas utilizam esses espaços como base de ensino e prática de voo.
Entre esses símbolos está o Aeroclube de São Paulo, com 94 anos de atuação, localizado na Zona Norte da capital, dentro do Campo de Marte, hoje administrado pela concessionária PAX Aeroportos.A instituição enfrenta uma disputa judicial que ameaça seu futuro após quase um século de atividades. O aeroclube busca na Justiça assegurar sua permanência no local, enquanto tenta avançar em negociações com a nova administradora do terminal — um episódio emblemático da insegurança que atinge os aeroclubes no país.

Um alerta que se impõe
A relevância dos aeroclubes voltou ao centro do debate nacional após a audiência pública desta 5ª feira (13/11/2025) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), convocada pelo deputado Tenente Coimba (PL-SP) O encontro reuniu pilotos, instrutores, alunos, dirigentes de aeroclubes, entidades ligadas à Aviação Civil e lideranças políticas para enfrentar o que já é descrito como a maior ameaça à existência dessas instituições em décadas.
A combinação de insegurança regulatória, disputas judiciais com concessionárias e pressão econômica tem colocado inúmeros aeroclubes em risco concreto de despejo ou encerramento. Especialistas alertaram que, se nada for feito, a cadeia de formação de pilotos poderá ser severamente comprometida.

O objetivo da audiência
Coordenada pelo deputado estadual Tenente Coimbra (PL), a audiência no auditório Franco Montoro discutiu alternativas para impedir que a crise se agrave. Representantes de aeroclubes paulistas relataram incertezas provocadas pelas mudanças sucessivas da Anac e por cobranças impostas por concessionárias privadas que assumiram aeródromos.
O número apresentado impressiona: 36 aeroclubes de São Paulo estão sob risco de despejo ou paralisação das atividades. A situação atinge diretamente alunos que investiram anos de estudo e recursos próprios na formação aeronáutica. Essas instituições formam pilotos e demais mãos-de-obra especializadas para a atuação no setor aeronáutico, como comissários de bordo, instrutores, técnicos e operadores do serviço de solo.

Além dos aeroclubes paulistas, representantes do Aeroclube do Brasil, no Rio de Janeiro, também destacaram impactos semelhantes. Fundado em 1911, o pioneiro da aviação civil brasileira enfrenta pressões econômicas e operacionais que podem comprometer sua missão histórica.
A história que moldou a aviação brasileira
Fundado em 14 de outubro de 1911, o então Aero Club Brasileiro surgiu pela iniciativa de civis e militares apaixonados pelo voo. Alberto Santos Dumont foi seu presidente de honra.
Os primeiros aeroplanos, adquiridos por subscrição pública, foram cedidos ao Exército e usados na Guerra do Contestado. O aeroclube também registrou a morte do tenente Ricardo Kirk, primeiro aviador militar brasileiro a falecer em operação.
Ao longo das décadas, o Aeroclube do Brasil se modernizou, incorporou novas práticas e se tornou referência na formação de pilotos privados, comerciais, instrutores e acrobáticos. Sua oficina homologada, na Barra da Tijuca (RJ), também presta serviços a operações de defesa civil e combate a incêndios.
Apesar da longa trajetória, a instituição enfrenta desafios que refletem a situação nacional: custos elevados, incertezas regulatórias e falta de incentivos governamentais.

A situação jurídica e o sinal de alerta paulistano
No caso paulista, o exemplo mais simbólico continua sendo o Aeroclube de São Paulo. Quase um sérculo, ele é parte da história da aviação brasileira e responsável pela formação de gerações de pilotos. Hoje, porém, está no centro de um processo judicial que coloca em xeque a continuidade de suas atividades no Campo de Marte — justamente o aeroporto onde consolidou sua missão educacional.
Durante a audiência na Alesp, alunos e instrutores mencionaram que a iminência de um despejo ou de restrições operacionais cria insegurança e paralisa investimentos. Apesar disso, o aeroclube segue ativo, cumprindo suas funções e aguardando decisões judiciais que poderão definir seu futuro.
Outro ponto crítico — como acontece no Campo de Marte — é a atuação das concessionárias que assumiram aeródromos estaduais, que não têm interesse em manter os aeroclubes. Em várias cidades, aeroclubes foram notificados sobre desocupações ou reajustes de taxas consideradas inviáveis para instituições sem fins lucrativos.
Parlamentares e representantes do setor classificaram as mudanças regulatórias da Anac como abruptas e desconectadas da realidade dos aeroclubes. “Um sem-número de modificações e gerado insegurança jurídica, o que inviabiliza a atuação dos aeroclubes“, lembrou o deputado Tenente Coimbra.
Do 36 aeroclubes paulistas que estão ameaçados, as medidas tem impactado a continuidade do trabalho de unidades de várias regiões do estado, como as de Batatais Guaratinguetá e Ourinhos, entre outros — e, também, o Aeroclube do Brasil, que fica no Rio de Janeiro.

Entre as propostas discutidas estão uma lei estadual de proteção, convênios específicos e modelos de incentivo financeiro. Já o deputado federal Coronel Tadeu (PL-SP), piloto civil com passagem por aeroclube, defendeu a criação de cursos públicos de formação aeronáutica em universidades federais. Para ele, profissões da aviação deveriam receber o mesmo tratamento que carreiras gratuitas como Medicina e Direito. A integração entre Ministério da Educação e aeroclubes poderia ampliar o acesso e reduzir o custo para estudantes.
Um patrimônio que não pode desaparecer
Ao final da audiência, ficou definido que todas as manifestações serão reunidas em um documento a ser entregue ao Governo do Estado. O objetivo é sugerir ações diretas para impedir o fechamento dos aeroclubes diante de disputas fundiárias, pressão econômica ou falta de incentivo público. “Esse documento fala sobre a importância dos aeroclubes, passa os dados referentes aos aeroclubes no estado de São Paulo, explica a situação de emergência deles e as consequências disso para a segurança nacional”, explicou Tenente Coimbra.
Para especialistas, proteger os aeroclubes é proteger a própria memória da aviação brasileira. É garantir que o país que viu Santos Dumont sonhar com máquinas voadoras não deixe desaparecer, por abandono ou burocracia, a base de formação que sustentou a aviação civil por mais de um século.
Um dos proponentes da audiência, o assessor parlamentar Marcos Juliano Ferreira — o Juliano da Campestre — junto com Jolando Gatto Netto, piloto e diretor do Aeroclube de Marília — que propuseram o debate a nível nacional, dando voz a aeroclubes ameaçados de fechamento, comentou: “A audiência pública começa hoje, mas não termina aqui, porque tem muito trabalho. É na política que vamos resolver problemas como esse”, afirmou. E dos participantes afirmou: “Quando um aeroclube fecha, não se perde apenas uma escola. Perde-se um pedaço do céu da história brasileira.”

Saiba mais:
- Aero Clube do Brasil – RJ (Museu Aeroespacial): clique aqui
- Aeroclube de São Paulo: clique aqui
- Aeroclube de Marília: clique aqui
- Video / História do Aeroclube de Marília (15 minutos): clique aqui
<<Com apoio de informações: Imprensa-Alesp e Fimani Comunicação >>















































