por Aguinaldo Gabarrão (*)

O diretor Alvaro Brechner, tem em seu currículo dois filmes que lidam com a inexorável passagem do tempo e suas conseqüências no corpo e na mente. O primeiro é “Mal dia para pescar” (2009) que conta a história de um estelionatário, explorador da boa fé de um decadente lutador profissional e “Mr. Kaplan” (2014), comédia dramática cujo ponto central é a busca por um novo sentido para a vida.

Porém, “Uma Noite de 12 anos”, diferente dos filmes anteriores, traz o resgate da memória dos tempos de chumbo da ditadura uruguaia (1973 – 1985), a partir da história real de três presos políticos, entre eles, José Mujica, que se tornaria presidente do Uruguai de 2010 a 2015.

“Deixai toda a esperança vós que aqui entrais” ===  Durante a ditadura uruguaia, três líderes tupamaros são presos e escolhidos para serem submetidos a um tratamento especialmente bárbaro: sofrerão, por longos anos, torturas, fome e períodos em solitária, distantes dos familiares por constantes transferências de prisão.

O ótimo roteiro é também assinado pelo diretor, que não se limita a contar a história do ponto de vista puramente histórico. O foco primordial é mostrar a solidariedade de três homens que, apesar de sofrerem toda a sorte de torturas físicas e psicológicas, se esforçam para se manterem lúcidos, apesar do aparato repressivo do Estado, criado para moer seres humanos.

A insanidade como ponto de partida === Toda ditadura, sem exceção, tem por objetivo anular seus opositores. E o filme mostra, sem qualquer realismo exacerbado, a forma mais cruel desse regime: manter alguns de seus opositores vivos e reféns, sob constante terror psicológico, para destruir sua sanidade.

Neste ponto, o roteiro de Brechner consegue transmitir as percepções íntimas dos três torturados. Mesmo diante da mais abominável arbitrariedade, a resistência deles se mantém viva pela capacidade humana de sonhar.

Máquina de horrores ===  Há sequencias de grande impacto: um dos presos, Eleuterio (Alfonso Tort), precisa utilizar o banheiro e, por estar algemado, tem dificuldades para sentar-se no vaso, o que provoca um alvoroço nos diversos escalões militares, incapazes de decidir o que fazer diante daquela inusitada situação.

Outro momento surpreendente é quando Mujica, interpretado pelo ator Antonio de La Torre, ganha da mãe um penico cor de rosa e, quando o artefato é retirado da cela pelos militares, ele se insurge para reconquistar de volta o seu presente e o mínimo de dignidade como ser humano.

O valor da ditadura ===  As interpretações dos três protagonistas José Mujica (Antonio de la Torre), Mauricio Rosencof (Chino Darín) e Eleuterio Fernández Huidobro (Alfonso Tort) ganham impacto no silêncio de seus olhares, nos gestos mais sutis. O elenco, como um todo, brilha em sua capacidade de deixar o público com um “gosto amargo na boca”.

Destaque ainda para a trilha sonora e a releitura de Sound of Silence (O Som do Silêncio) de Simon & Garfunkel, música que norteia o terço final do filme.

“Uma Noite de 12 anos” é um convite que se faz para as gerações, de ontem e de hoje, reavaliarem suas crenças limitantes de que uma ditadura é a melhor forma de se colocar a casa em ordem. Definitivamente, a liberdade não existe sob a pata de um cavalo.

Assista ao trailer do filme:

FICHA TÉCNICA

UMA NOITE DE 12 ANOS

(Título original: La Noche de 12 años) –     Distribuição: Vitrine Filmes

Direção e Roteiro: Alvaro Brechner / Direção de Fotografia: Carlos Catalán / Direção de Arte: Laura Musso / Trilha Sonora: Federico Jusid / Música Adicional: Silvia Pérez Cruz / Montagem: Irene Blecua, Nacho Ruiz Capillas / Produção Executiva: Cecilia Mato, Vanessa Ragone, Mariana Secco / Produção: Birgit Kemner, Fernando Sokolowicz, Mariela Besuievsky, Philippe Gompel, Vanessa Ragone / Apoiadores: ICAA, INCAA, IBERMEDIA e EURIMAGES

Elenco: Antonio de La Torre, Chico Darín, Alfonso Tort, Soledad Villamil, Mirella Pascual, César Troncoso

Gênero: Drama / Duração: 2 horas e 3 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: 14 anos / País: Argentina, Espanha, Uruguai / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 27 de setembro de 2018 – Brasil


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


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