por Maira Caleffi (*)

Tente imaginar o seguinte cenário: pessoas com câncer, bravas batalhadoras para vencer a doença que é considerada a segunda maior causa de morte em todo o mundo, possuem acesso aos cuidados necessários de forma eficiente, justa e sustentável. Esses pacientes são de um município que, com autonomia, mobiliza-se por meio das mais diversas instituições para identificar possíveis lacunas no diagnóstico e tratamento do câncer e conta com importantes parceiros para fornecer soluções eficazes. Neste lugar, a mortalidade pela doença é reduzida significantemente e a sobrevida com qualidade são uma realidade para a maioria dos pacientes. Muito mais pacientes tem cura nessa cidade. Diante de todos os desafios que enfrentamos atualmente, parece utópico, não?

O ponta-pé inicial === Este panorama, porém, deixou de ser apenas fruto da imaginação. Em 2018, um município brasileiro foi aceito para fazer parte de um movimento mundial que, desde sua criação, tem quebrado paradigmas na assistência ao câncer. Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, é uma das sete cidades do mundo que participam do City Cancer Challenge (C/Can) e assumiram o compromisso de tentar reduzir a mortalidade por câncer em 25% até 2030.

O C/Can tem por objetivo criar uma comunidade global de cidades e parceiros que, juntos, possam trabalhar para desenvolver, planejar e implementar ações sustentáveis para salvar a vida de pessoas que convivem com a doença. Criado pela União Internacional de Controle do Câncer (UICC), organização da qual a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA) faz parte, o projeto une parceiros dos setores público e privado para colaborar e levar assistência técnica, recursos e competências complementares para viabilizar soluções que visem melhorar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento de câncer de forma equitativa e com qualidade.

Causa principal === Encontramo-nos em meio a uma perspectiva preocupante: um levantamento de 2018 do Observatório da Oncologia revelou que o Rio Grande do Sul é um dos estados do Brasil com a maior quantidade de municípios cujo câncer é a principal causa de mortalidade. Não podemos fechar os olhos para dados como este – é necessário agir. Por isso, a FEMAMA, junto ao Hospital Moinhos de Vento e à Prefeitura de Porto Alegre – representada pela Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre– não mediu esforços para que a capital gaúcha fosse selecionada para o projeto.

A partir do momento em que Porto Alegre tornou-se uma Cidade-Desafio, o município assumiu o importante papel de reconhecer suas fragilidades, primeiro passo para conseguir honrar seus compromissos na busca de uma mudança efetiva na realidade de muitos pacientes. Depois, em conjunto, fizemos um trabalho árduo para identificar líderes de importantes instituições que aceitassem cumprir conosco esse desafio e compor um Comitê Executivo Multisetorial da Cidade de Porto Alegre.

Onde identificar === Até maio deste ano, trabalhamos para identificar as reais lacunas enfrentadas pelo paciente. Um diagnóstico situacional na cidade nos mostrou que há vulnerabilidades que comprometem toda a linha de cuidado – os pacientes esperam demais até ter seu diagnóstico comprovado; o acesso a tecnologias mais novas e menos invasivas no sistema público de saúde é constantemente dificultado; e os profissionais, principalmente da atenção primária, precisam ser mais bem capacitados para identificar e lidar com o câncer.

Agora, partimos para a etapa de priorização e desenvolvimento de um plano de atividades com objetivos estratégicos – as ações buscam garantir maior agilidade ao diagnóstico e tratamento, assegurar acesso a tratamentos essenciais e a cuidados paliativos, desenvolver capacidades de recursos humanos para o tratamento da doença, melhorar a vigilância do câncer e a utilização de dados, bem como aumentar a educação do paciente e o acesso à gestão do tratamento de câncer de qualidade.

As mortes por câncer === Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de mortes por câncer no mundo aumentará para 13 milhões até 2030. Mesmo diante de avanços tecnológicos, novas pesquisas e medicamentos, que cada vez mais nos permitem compreender, prevenir, tratar e curar os mais letais tipos de câncer deparamo-nos com este cenário assustador. Nossa meta com o C/Can é ambiciosa, demanda grandes esforços, mas estamos trilhando os caminhos para que essa promessa seja cumprida e essa estimativa seja mudada.

Estamos fazendo história. Esta é a primeira vez em que uma coalizão mundial e multisetorial de organizações públicas, privadas e da sociedade civil uniram forças e assumiram o importante trabalho de melhorar o acesso ao tratamento de câncer de qualidade em nível municipal. Porto Alegre pode e deve servir como modelo para as demais cidades brasileiras – com apoio, planejamento e mobilização, podemos transformar a realidade do câncer no mundo. O câncer é, de fato, um problema mundial, mas suas soluções são locais.


Maira Caleffi (*) = É presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (FEMAMA) e Chefe do Serviço de Mastologia do Hospital Moinhos de Vento e Líder do Comitê Executivo do C/Can Porto Alegre. << Com apoio de informações/fonte: RS Press – Regina Jorge >>

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