da Redação DiárioZonaNorte

<< Em primeira mão>> === Três horas e quinze minutos, sem parar até para um copo de água ou cafezinho, foi o tempo que durou a reunião extraordinária do Conselho Gestor da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Vila Albertina – Dr.Osvaldo Marçal, na Zona Norte da cidade, que aconteceu nesta 3ª feira (27/02/2018). Em uma sala de reuniões pequena,  improvisada, cerca de 25 pessoas entre conselheiros, moradores e representantes da Coordenadoria Regional de Saúde (CRS-Norte), UBS Vila Albertina e do Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde – IABAS apertavam-se para debater o assunto principal: a implantação da Estratégia Saúde da Família (ESF) naquela UBS de Vila Albertina.

A reunião aconteceu no meio de rumores e notícias falsas – que foram desmentidas pela Coordenadoria Regional da Saúde-CRS/Norte (veja as notas oficiais desmentindo os rumores aqui e aqui. – alarmando a população que as UBS de Vila Albertina e AMA/UBS Massagista Mário Américo/Sítio do Mandaqui seriam fechadas, já a partir do dia 1º de março. Nas páginas das mídias sociais circularam inclusive fotos e vídeos com protestos de pessoas e crianças empunhando cartazes à mão com frases de reclamações, em frente às UBS/AMA, mostrando líderes empunhando microfones em tom berrante nitidamente com intenções políticas.

Uma reunião tensa  === No começo calmo e, no decorrer, uma reunião que se tornou tensa e, em alguns momentos,  tumultuada — até influenciada pelas notícias inverídicas que circulam pelas páginas do facebook e repercutidas pelos vários grupos de WhatsApp. Na linha do “eu estou com a razão”,  “vocês estão nos enganando” ou até “ estão nos passando um passa-moleque”,  houve uma série de questionamentos à representante da Secretaria Municipal da Saúde, Dra. Valéria Rondinelli, que é a Supervisora de Saúde da Coordenadoria Regional de Saúde (CRS-Norte) em Santana/Tucuruvi/Mandaqui e Jaçanã/Tremembé —e está no funcionalismo municipal de saúde há 28 anos, tendo passado por várias administrações de partidos políticos desde o governo de Jânio Quadros até o atual, João Doria, sem influências partidárias — , que é um órgão comandado pelo Dr. José Mauro Del Roio Corrêa. Ao seu lado havia as representantes do Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde – IABAS, que é a Organização Social que administra uma parte das unidades de saúde da Zona Norte – desde 2016, ainda no governo anterior.

Explicações e mudança === Depois da abertura da reunião pela Supervisora da UBS Vila Albertina, Patrícia Almeida de Jesus, a representante do CRS-Norte,  Dra. Valéria Rondinelli, de uma maneira calma e tranquila deu início às explicações de como é o funcionamento do programa de Estratégia da Saúde de Família ( ESF) e como se dará a implantação na UBS Vila Albertina, a partir de 1º de março, nesta 5ª feira. Mais adiante, depois de todos os esvaziamentos de dúvidas e explicações sobre o programa, ficou claro que a implantação será de modo irreversível na data definida, com prazo de total funcionamento da nova metodologia de trabalho em até 40 dias.

O programa já é antigo === Com o apoio das representantes do IABAS e do Coordenador Médico Dr. João Paulo Tavares Ferreira, da mesma entidade, as explicações foram por diversas vezes interrompidas pelos representantes do Conselho Gestor e moradores. Aos trancos, a Dra. Valéria Rodinelli forneceu os pontos principais que consistem de uma transformação do método de trabalho e assistência médica mais direta e próxima dos moradores da região, em suas moradias.  O programa consiste de uma equipe multiprofissional: médico generalista ou especialista em saúde da família; enfermeiro generalista; auxiliar ou técnico de enfermagem; e agentes comunitários de saúde. E até profissionais de saúde bucal, cirurgião-dentista generalista e auxiliar-técnico em saúde bucal.

Unidades não serão fechadas === Ficou bem claro que a UBS Vila Albertina (bem como outras  –  referências à AMA/UBS Massagista Mário Américo e Sítio do Mandaqui) não serão fechadas e nem tão pouco modificadas em sua estrutura básica de atendimento aos moradores – o que acarretará certamente em uma reestruturação com o objetivo de melhorar o atendimento e nos procedimentos internos de seus funcionários. De acordo com a Dra.  Rondinelli, o governo municipal e sua Secretaria da Saúde não cogitou em nenhum momento do fechamento de UBS ou AMAs, muito pelo contrário tem em seus planos a abertura ou reformas destas unidades. Dra. Valéria afirmou : “O que se busca, o que se quer, é melhorar o atendimento e dar mais condições amplas para os usuários e, agora, no foco das famílias”, ao dar segmento às explicações com o apoio do Dr. João Paulo Tavares Ferreira que detalhou as escalas de horários (que passam das atuais 20 para 40 horas semanais) e os procedimentos médicos, que continuarão sendo realizados normalmente na UBS Vila Albertina, com horários programados para visitas externas, nas casas dos moradores. Os agentes de saúde serão os encarregados, durante o dia, em visitas, mapeamentos e relatórios para encaminhamento  e reuniões de trabalho com avaliações médicas dentro da UBS. Em um ponto de esclarecimento, a Dra. Valéria Rondinelli deixou claro que esse assunto da Estrutura de Saúde da Família já estava previsto há um ano e foi apresentado em reuniões do Conselho Gestor e em audiências públicas.

Em depoimento em sua página do facebook e compartilhado pelo DiárioZonaNorte, o líder comunitário de saúde na região Edu Chaves, na Zona Norte,  Nelson Ferreira Filho, é favorável às mudanças que “é um grande ganho para irmos de encontro, de fato, aos princípios do Sistema Único de Saúde-SUS, com a universalidade e integralidade”. E concluiu: “É um grande sonho dos usuários e de quem depende de fato que o SUS um dia funcione em sua total integralidade”.  (Leia a íntegra do depoimento e assista ao vídeo no link – clique: https://bit.ly/2CNgW4d ).

 As ações nos mapas === As equipes da UBS Vila Albertina, sob orientações da Secretaria Municipal da Saúde/Coordenadoria Regional de Saúde-CRS/Norte, com a coordenação do IABAS, já realizam levantamentos da área com cerca de 40 mil habitantes e dos atendimentos dos cerca de 30 mil usuários da UBS da região. Esses levantamentos continuarão “in loco” nas moradias pelos agentes comunitários de Saúde – que são também residentes e tem conhecimento pleno do local –, que pode findar até a primeira quinzena de abril. A propósito, na reunião foram exibidos quatro mapas mostrando as ações desenvolvidas no setor de Vila Albertina – inclusive a Dra. Valéria Rondinelli ajoelhou-se no chão para fazer pacientemente as indicações e esclarecimentos aos presentes.

Dúvidas e acertos === A experiência da mais antiga líder comunitária da saúde (trinta anos de liderança na área da Zona Norte)–  que, inclusive, foi a que mais brigou pela implantação da UBS Vila Albertina, Maria Christina Ielo Bello, fez suas ressalvas pelas mudanças que acontecem na UBS  — onde também é conselheira. Em sua fala,  no início da reunião,  leu um  manifesto (veja a íntegra nas fotos abaixo) onde é transparente essa insatisfação.  Nele, ela questiona como serão as marcações de consultas, quanto tempo cada usuário terá para consulta e  como essas equipes irão interagir com a população.

No documento, a líder comunitária Maria Cristina aborda a dimensão do território e a questão da segurança, das próprias equipes do ESF que atuarão em uma área de risco.  O documento foi entregue em mãos da Dra. Valéria Rondinell.    No mesmo documento há  também críticas duras ao risco do programa Estratégia de Saúde da Família cair na vala comum dos  “programas de governo”,  que são interrompidos  quando existe a troca de mandatários governamentais  e que o sucessor sempre consegue “destruir” o que o antecessor fez, como foi o caso do PAS (Plano de Atendimento à Saúde) foi criado pelo ex-prefeito Paulo Maluf em 2000,  Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) do governo do presidente Lula,  o AMA (Unidades de Assistência Médica Ambulatorial)  na gestão Serra/Kassab em 2005  ou  Ambulatórios Médicos de Especialidade (AME) do governo Covas/Alckmin.

Outros conselheiros presentes endossaram as ressalvas da conselheiroa Maria Chistina  Ielo Bello,  sobre a troca dos atuais médicos especialistas em ginecologia e pediatria por outros de especialidade geral.   Dona Elza Miranda (representando a Pastoral da Saúde),  levou um abaixo assinado com cerca de 700 assinaturas recolhidas na região, contra a mudança da UBS de uso misto para exclusivo de  Estratégia de Saúde da Família.

De acordo com o combinado nesta reunião, será mantida o ginecologista na UBS Vila Albertina, na continuidade do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF).  A representante do CRS-Norte também respondeu aos questionamentos sobre  a metodologia que os agentes de saúde utilizarão, para cadastrar as famílias e percorrer a área que, de acordo com um dos conselheiros presentes,  tem mais de  “ 127 ruas” oficias e muitas vielas.

Estratégia de Saúde da Família (ESF) ===  O programa ESF foi implantado no Brasil pelo Ministério da Saúde em 1994.   Em janeiro de 2018,  exatas 43.741 equipes de Estratégia de Saúde da Família, atendem 134.765.691 de habitantes  ou 64% da população brasileira por meio do programa, pelo programa, de acordo com dados do Departamento de Atenção Básica – DAB  do Ministério da Saúde. Na cidade de São Paulo, ele é disponibilizado em 48 Unidades Básicas de  Saúde – veja os endereços aqui.

A Estratégia Saúde da Família (ESF) é o modelo assistencial da Atenção Básica onde a família  passa a ser o objeto de atenção no ambiente em que vive, permitindo uma compreensão ampliada do processo saúde/doença.  O ESF se fundamenta no trabalho de equipes multiprofissionais em um território adstrito e desenvolve ações de saúde a partir do conhecimento da realidade  local e das necessidades de sua população.

Fim da reunião === A reunião terminou e poderia ter sido menos tempo do que empregado em mais de três horas, com mais idéias e sugestões em todo o período. Independentemente do passado,  quem fez ou não fez, o projeto é irreversível e já está em fase de implantação na UBS Vila Albertina – uma entre as várias unidades da cidade.  O importante é dialogar com as supervisões de saúde para ajudar na implementação  e na sua eficiência. Esperar para ver o que acontecerá na UBS Vila Albertina. Se as promessas e acertos não foram cumpridos, evidentemente que os líderes comunitários e os moradores devem reagir, tendo em mãos argumentos.

Além da comunidade que deve  supervisionar os atendimentos na UBS e no projeto Estratégia de Saúde da Família, é importante a atuação do Conselho Gestor.  A população deve sempre buscar esclarecimentos oficiais e não propagar notícias inverídicas com viés político — ainda mais em um ano eleitoral como o de agora.  É um serviço público que merece atenção dos dois lados,  governo e população.  “O bem para um é o benefício para muitos”, foi o trecho de comentário de um participante da reunião, quando estava de saída no corredor da UBS. O que demonstra buscar melhorias com eficiência. Eram quase 17 horas e 15 minutos.


Mais sobre o ESF ===  Assista a reportagem de 17 minutos do programa “Como Será” da Rede Globo, em 29/07/2017 – dentro da Série sobre o SUS (Sistema Único de Saúde) – que mostra em detalhes como funciona o programa Estratégia de Saúde em Família.  Vale a pena.   Clique no link:  https://bit.ly/2COxZmy

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