por Aguinaldo Gabarrão (*) === 

Olhar o passado e buscar conexão com o presente pode render boas reflexões. E, na atual polarização política, o filme “Simonal”, contribui para esta discussão, embora não seja o foco central da trama.

O filme faz um recorte histórico da vida do cantor Wilson Simonal (1938 – 2000), no período compreendido entre 1960 a 1975 e apresenta os extremos de sua carreira: o imenso sucesso e o início do ostracismo. E melhor: não é daquele tipo de cinebiografia que eleva o biografado à condição de santidade.

Anos 60 === Dono de voz marcante, carisma encantador e charme irresistível, Simonal (Fabrício Boliveira) conquista o sucesso na música. Comanda vários programas de televisão e assina, à época, o maior contrato de um artista brasileiro com uma empresa multinacional. No entanto, após se envolver com o sequestro do seu contador, seu nome é vinculado à ditadura militar como delator de artistas, e sua carreira entra em colapso.

Os ingredientes explosivos desta história constroem um bom filme de ficção, com fatos reais bem amarrados no roteiro e produção. E, alguns aspectos nada nobres do biografado, são apresentados sem qualquer filtro, o que torna a obra um documento importante de uma época que ainda reverbera nos dias atuais.

Anos 70  === Riqueza, mordomias para familiares, gastos excessivos, mulheres e uma arrogância inconsequente, levam o cantor a descobrir que está quase falido. Conclui que está sendo roubado por seu contador. E, após demiti-lo, o ex-funcionário resolve processá-lo na Justiça do trabalho, o que leva Simonal a pedir ajuda a policiais ligados aos órgãos de repressão.

Deste ponto até a derrocada, o filme apresenta outra camada, tão cruel quanto a própria atitude de Simonal: o preconceito que nunca ele deixou de sentir por ser negro, mesmo sendo uma celebridade do show business.

Produção requintada=== A direção de arte de Yurika Yamasaki e a sempre competente Kika Lopes (figurinista), constroem uma perfeita atmosfera dos anos 60 e 70. A fotografia de Pablo Baião traz criativamente matizes bem específicos de ambos os períodos, que emolduram o quadro com requinte.

Há, logo no início do filme, um belíssimo e longo plano-sequência, em que se evidencia a caprichada produção e direção de atores, sob a batuta de Leonardo Domingues.

Casting afinado  ===  O ator Fabrício Boliveira, que interpreta Simonal, trouxe para compor sua personagem, o registro de alguns trejeitos do cantor, mas apenas para dar o swing. Ele não cai na tentação de querer ser o biografado. Tão pouco canta, pois é dublado com a voz original do cantor.

Porém, a essência ali está presente com todos os méritos de um ótimo desempenho. E Isys Valverde, com quem Boliveira já havia trabalhado (Faroeste Caboclo – 2013), interpreta Tereza. A atriz está confortável e sabe explorar as nuances entre a euforia e o drama de seu casamento, que a levará à depressão. E Leandro Hassum, interpreta Carlos Imperial (1935 – 1992), com desenvoltura e picardia.

O legado ===  A direção segura e precisa de Leonardo Domingues, extrai o melhor do elenco e do bom roteiro de Geraldo Carneiro, que contempla sequencias documentais com Wilson Simonal, oportunidade para conhecer um pouco do legado deste artista genial com absoluto domínio de palco.

E, parafraseando, o escritor Mário Prata, Simonal, fazendo ou não jus às acusações que recebeu, nunca teve direito à própria Lei de Anistia. Foi um eterno condenado em seu próprio país.


Assista ao trailer do filme: 

 


FICHA TÉCNICA

SIMONAL

Distribuição: Downtown Filmes

Direção: Leonardo Domingues / Roteiro: Geraldo Carneiro / Direção de Fotografia: Pablo Baião / Trilha Sonora: Max de Castro, Simoninha / Som direto: Marcel Costa / Montagem: Vicente Kubrusly / Direção de Arte: Yurika Yamasaki / Figurinos: Kika Lopes / Estúdios: Globo Filmes, Pontos de Fuga / Produção de Elenco: Marcela Altberg / Produção: Nathalie Felippe, Adriana König / Direção de Produção: Paulão Costa / Elenco: Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Leandro Hassum, Mariana Lima, Caco Ciocler, Silvio Guindane, Bruce Gomlevsky, Dani Ornellas, Fabrício Santiago, Jess Laurens, João Guesser, João Velho, Luciano Quirino

Gênero: Drama, Biografia / Duração: 1 hora 45 minutos / Idioma: Português / Cor: colorido / Classificação indicativa: 14 anos / País: Brasil / Ano de Produção: 2019 / Lançamento: 8 de agosto de 2019



(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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