da Redação DiárioZonaNorte ===

“Aqui vai ser um lugar pros drogados!”. Confirmou o líder de quatro peões de obra, que deixavam o turno de trabalho nas obras no terreno da Rua Porto Seguro com a Avenida Cruzeiro do Sul. Isto em pleno domingo (16/06/2019), por volta das 15 horas, junto a uma saída de portão novo e piche com asfalto no chão. Ali entram e saem os caminhões e tratores. Naquele grande terreno já recebeu o destino pela Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social (SMADS): vai ser o novo local de um novo equipamento da Cracolândia. Logo atrás deste portão de entrada,  notava-se dois operários em uma construção nova, no alto, ainda sendo assentados os tijolos baianos, um sobre outro, em formato de torre — com grandes espaço para as janelas. Na rua,  o líder dos operários confirmou: “É uma torre de observação para ter controle da rua e da entrada”.  E depois corrigiu para “guarita” no lugar da “torre de observação”.

Cadê a placa oficial? === O muro original da antiga construção, à frente do terreno, está sendo aumentado. Uma parte mais alta já foi construída e não teve continuidade – o que pode ocorrer nos próximos dias ou, então, serão colocadas cercas para ganhar tempo no término das obras. Em alguns alojamentos foram utilizados dry-walls.  Em nenhum espaço do terreno, voltado para a rua,  tem a placa indicatória obrigatória informando detalhes da obra – por lei – e nem houve edital e chamamento para licitação. Somente a placa antiga da Ilume continua no local.

Correndo contra o tempo === Esses operários confirmaram que a ordem de serviço é de “urgência”. E que precisam entregar a parte estrutural da obra até a próxima 5ª feira (20/06 – Feriado de Corpus Christi) e que, para isso, estão trabalhando “dobrado, até 22 horas, todos os dias”. E que podem receber um reforço de mais operários nesta semana. E percebe-se que os serviços estão adiantados, com trecho de asfalto em uma área (que pode ser até um estacionamento), as divisões em dois lotes no terreno, os containeres retornaram e até acomodações que no telhado já tem caixa d´água instalada.

Tá chegando mais gente === A obra está a pleno vapor. E já no entorno do terreno – Rua Porto Seguro e esquina com Av. Cruzeiro do Sul – nota-se uma movimentação de moradores de rua. Várias barracas foram montadas na praça ao lado e uma montanha de sujeira acumula-se embaixo do Metrô, ao lado do terreno. No largo canteiro da Av. Cruzeiro do Sul, em frente ao Shopping D, teve início uma aglomeração de gente. Tudo isto vai se juntando aos outros vários pontos do entorno — estendendo-se já condições precárias em frente ao Terminal Rodoviário do Tietê, do outro lado da Marginal.

Uma praça de guerra === Há também reflexos na Praça Bento de Camargo Barros — onde tem a passarela em frente ao Centro Municipal Esportivo Tietê –, na Av. Santos Dumont. Já abriram suas trincheiras moradores de rua, com suas barracas ou improvisações, sob o comandado de traficantes. E a tendência, quando estiver funcionando a nova Cracolândia da Zona Norte, é criar um mundo diferente na região, com mais problemas aos moradores. “Não temos nada contra os dependentes químicos. Achamos que o local deve ser preservado aos moradores, mas um destino melhor e mais adequado àqueles dependentes que precisam de mais atenção”, repete a presidente da Associação dos Amigos do Mirante do Jardim São Paulo e Região-Zona Norte, Alba Stella Medardoni.

O início de tudo === O caso da “Cracolândia” na Zona Norte arrasta-se desde outubro do ano passado, quando a SMADS movimentou-se para deslocar os serviços do Programa Atende, que estava localizado na região central/Luz,  para um terreno na Rua Porto Seguro esquina com a Avenida Cruzeiro do Sul, na Ponte Pequena/Armênia. Depois de ter acomodado barracos de uma favela, ali fora também um depósito de almoxarifado da Iluminação Pública-Ilume, até sua desativação do local. De repente, uma estranha movimentação no terreno com containeres com características de alojamentos. Moradores afirmam que sem alarde e mesmo sabendo que o assunto alteraria a rotina e a segurança do local, a Prefeitura planejou a mudança, mas não levou o assunto ao conhecimento aos interessados da região  e nem de representantes de entidades, até mesmo com uma audiência pública.

O prefeito promete, mas não cumpre === Houve a reação natural dos moradores, empresários, comerciantes e entidades, que tomaram conhecimento do plano através da Imprensa e das mídias sociais. Uma reunião foi convocada para discutir o assunto, onde reuniu mais de 450 pessoas com várias representações de empresas, entidades e moradores. Nesta reunião e na seguinte, houve o comparecimento do então Secretário Especial de Relações SociaisMilton Flávio M. Lautenschläger, representando o prefeito da cidade. E ele garantiu que não haveria a transferência da “Cracolândia” para o terreno – “eu falo em nome do prefeito, que não haverá a mudança”, considerando até que foi uma “fake news”. E prometeu publicamente,  em frente às plateias, que as decisões seriam tomadas junto à Comissão de Representantes dos Moradores –– que foi definida e até participou de reuniões no prédio da Prefeitura.

Novos rumos, sem aviso ===  Nesse meio tempo, o Secretário Milton Flávio deixou suas funções e foi exonerado. E o assunto ficou “à deriva” no SMADS e agora veio uma decisão unilateral, quebrando o acordo com a região da Ponte Pequena/Armênia e Zona Norte. Mais uma vez, sem consulta, sem conversa com a Comissão de Representantes dos Moradores, sem comunicado verbal ou por escrito, absolutamente nada. << Clique aqui e veja reportagem do DiárioZonaNorte: ”Prefeito não cumpre com a palavra. Volta a ameaça da Cracolândia na Zona Norte”>>.

Sem comunicação oficial === E para variar, a comunicação da Prefeitura de São Paulo é deficiente e proposital, não esclarecendo os cidadãos. Depois de muitas cobranças, veio com muito custo uma nota da Secretaria Especial de Comunicação-SECOM à Redação do DiárioZonaNorte : ““a Prefeitura de São Paulo informa que as obras visam a construção de uma nova unidade de saúde. No local funcionará uma das oito unidades do Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (SIAT), um novo equipamento da prefeitura para acolhimento e tratamento de dependentes químicos. Essas unidades estarão distribuídas por todas as regiões da cidade. Serão quatro unidades de SIAT II e outras quatro de SIAT III. Nesses locais, o dependente que já optou pelo tratamento e a não utilização de drogas será acolhido e receberá assistência para encaminhar sua recuperação”.

Mais uma vez, só troca o nome === Em outras palavras, sai o programa Atende e muda o nome para SIAT,  pela primeira vez confirmando o uso do terreno da região da Ponte Pequena/Armênia, em frente ao Shopping D e ao movimentado Terminal Rodoviário do Tietê, próximo a outros centros de acolhimentos do SMADS ao lado do terreno e na Av. Zaki Narchi e a praticamente toda a Av. Cruzeiro do Sul com moradores de rua e dependentes químicos, jogados debaixo do metrô e da Estação de Santana. Muita sujeira espalhada pelas calçadas, no canteiro central e nas esquinas, sem uma limpeza diário eficiente. Um local degradado, com baixa iluminação e correndo o risco na segurança, moradores e trabalhadores do shopping e estudantes,  até o movimento de carros corre perigo.

Protestos nas avenidas e na Prefeitura === Os moradores da Ponte Pequena/Armênica e representantes da Zona Norte já fizeram um protesto nas Avenidas Santos Dumont, Cruzeiro do Sul e ruas próximas — chegando até em frente ao prédio da Prefeitura de São Paulo –, no ano passado. Com a “quebra de palavra” do prefeito da cidade, houve uma nova manifestação no mês passado, onde a passeata concentrou-se sem ser ouvida nem por um dos vários assessores municipais. Diante desta situação, a Comissão de Representantes marcou uma nova reunião nesta 3ª feira (18/06/2019), às 19 horas, no Salão de Eventos do Santuário de Nossa Senhora da Salette — Rua Dr. Zuquim, 1746 – Jardim São Paulo/Santana — com amplo estacionamento gratuito. . E para que haja explicações oficiais da Prefeitura de São Paulo, foram encaminhados os convites para o Secretário Municipal de Desenvolvimento Social e Assistência Social, CLAUDIO TUCCI  JR.; o Secretário Adjunto, MARCELO COSTA DEL BOSCO AMARAL; o Chefe de Gabinete, LUIZ ANTONIO MONTEIRO ARCURI; e finalmente foi dado  conhecimento à Assessoria de Comunicação da mesma secretaria — apesar deste assunto estar sendo discutido desde o ano passado. A Associação dos Amigos do Mirante e da Zona Norte espera que compareçam ou mandem representantes.

Aguarda-se um grande comparecimento de empresários, comerciantes, entidades, líderes regionais e moradores para buscar uma solução para a não vinda da Cracolândia para Zona Norte. “É um grande desrespeito aos moradores, quebrando a promessa, e mais uma vez sem aviso com as obras às escondidas. Não podemos deixar “em branco” uma atitude de cima para baixo. Precisamos resgatar a nossa cidadania e não deixar essas manobras”, declarou a advogada Dra. Joana D´Arc Figueira, uma ativista social com mais de 30 anos de moradia na região.

Passeata convocada === E a Dra. Joana lembra que no dia seguinte à reunião, na 4ª feira (19/06/2019), a partir das 11 horas da manhã, vamos nos reunir em frente ao Santuário das Almas (Rua Guaporé, 429 – fica em frente ao terreno da Cracolândia), de onde sairá uma passeata pelas ruas e avenidas da região. Um ato de rejeição à implantação do novo serviço da Prefeitura de São Paulo. “É importante todos participarem, um gesto de cidadania abrindo espaço para outras questões e assuntos da região, com exemplo para toda a cidade”, concluiu.


Eis alguns links  (clique em cima) de reportagens do DiárioZonaNorte:

(*)   Sem Cracolândia: Prefeitura estuda destino para o terreno da Avenida Cruzeiro do Sul – 23/04/2019

(*)   Secretário Milton Flávio e Prefeitura confirmam “Cracolândia fora da Zona Norte” – 03/12/2018 

(*)  Prefeitura desiste da Cracolândia na Av. Cruzeiro do Sul”. Vitória dos moradores da Ponte Pequena/Armênia-Zona Norte. – 14/11/2018 – 

 (*)   O povo fala mais alto! Prefeitura de São Paulo recua na transferência da Cracolândia para a Zona Norte – 20/10/2018 


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