por Aguinaldo Gabarrão (*)

O amor ultrapassa os séculos em três histórias diferentes, a partir do olhar de dois amantes: Pedro e Inês, personagens que se confundem com a própria história de Portugal.

Inspirado nesta paixão trágica e verdadeira, situada no século XIV, o diretor português António Ferreira traz em seu filme o olhar renovado sobre o sentido do amor em três épocas distintas: passado, presente e futuro.

Realidade e Mito ===  Internado num hospital psiquiátrico, Pedro (Diogo Amaral) recorda três vidas diferentes, simultaneamente, com a sua amada Inês (Joana de Verona), brutalmente assassinada em cada uma dessas épocas, o que o deixa à beira da loucura, transformando-o num homem sedento de vingança e justiça.

A história registra o amor impossível do príncipe português pela dama de companhia de sua esposa, D. Constança (Vera kolodzig). Após a morte desta última, por ocasião do nascimento do filho, Pedro se vê livre para viver abertamente seu romance com Inês de Castro. Porém, movido por questões políticas, o rei D. Afonso IV (João Lagarto), pai do infante Pedro, ordena o assassinato da amante do filho.

Embora real, os fatos ganhariam com o tempo e a literatura, contornos de narrativa simbólica, como a suposta crença de que num acesso de loucura, Pedro I (que se torna rei, após a morte de D. Afonso IV) mandara exumar o corpo de Inês de Castro, enterrado no Mosteiro de Alcobaça e coroá-la rainha, exigindo de todos que beijassem a mão do cadáver.

“O mito é o nada que é tudo” === Com tamanha riqueza histórica e mítica, o diretor António Ferreira, baseando-se no romance “A trança de Inês” da autora Rosa Lobato de Faria, constrói a narrativa focada no tempo presente, onde Pedro está recluso num hospital psiquiátrico, por estar apartado do seu grande amor.

Mas, o que Pedro tem são alucinações? Seu amor é real ou mítico? O diretor Ferreira, antes de responder, nos propõe outra provocação, ao estilo de seu conterrâneo português, Fernando Pessoa, no poema Ulisses: “Assim a lenda se escorre / A entrar na realidade, / E a fecundá-la decorre. / Em baixo, a vida metade / De nada, morre.”

As sequencias, de estonteante beleza, embaladas na loucura de Pedro, ampliam essa sensação desconfortável de realidade, por conta do paralelismo com outras épocas.  Tudo parece acontecer ao mesmo tempo, na mente de Pedro. Ele vive e morre diariamente o seu amor, ora no passado longínquo medieval ou num salto, num futuro distópico.

Equipe alinhada ===  A produção conta com locações e requintados figurinos de época, elementos esses à serviço de um belo filme. A boa trilha sonora de Luis Pedro Madeira conta ainda com composições de Erik Satie (1866 – 1925) em sequencias do período medieval, oportuna para reforçar o clima intimista da corte de Pedro I.

O elenco, primoroso, é conduzido com competência e esmero pelo diretor António Ferreira que faz de Pedro e Inês um filme instigante na maneira de apresentar o amor e a paixão, como forças motrizes que se inter relacionam no tempo e no espaço.

Assista ao trailer do filme:

Facebook: www.facebook.com/pedroeines.filme

FICHA TÉCNICA

PEDRO E INÊS – O AMOR NÃO DESCANSA = Distribuição: Pandora Filmes

Direção e Roteiro: António Ferreira / Baseado na obra A Trança de Inês: Rosa Lobato Faria / Direção de Fotografia: Paulo Castilho / Música: Luís Pedro Madeira / Figurinos: Silvia Grabowski Gomes Costa / Montagem: António Ferreira / Produção Executiva: Tathiani Sacilotto / Coprodução: Carolina Dias, Claire Gadea, José Barahona, Marie-Pierre Macia Produção: Persona Non Grata Pictures, MPM Filmes, Refinaria Filmes, Diálogos Atômicos

Elenco:  Diogo Amaral, Joana de Verona, Vera Kolodzig, Cristóvão Campos, Custódia Gallego, Miguel Borges e João Lagarto

Gênero: Drama / Duração: 2 horas / Cor: colorido

Classificação indicativa: 12 anos / País: Portugal, França e Brasil / Ano de Produção: 2018

42ª Mostra Internacional de Cinema


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


Organicos

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, entre com seu comentário
Por favor, entre com seu nome agora