Minutos antes de subir ao palco para receber uma homenagem, um professor universitário é inesperadamente visitado por seus companheiros de infância — um bando de meninos que, longe dos livros, viviam soltos pelas quebradas do Tremembé, na Zona Norte de São Paulo, entregues a brigas e aventuras de todo tipo.

Assim principia O último trem da Cantareira, primeiro livro de ficção do crítico, ensaísta e professor Antonio Arnoni Prado, autor de obras premiadas como Itinerário de uma falsa vanguarda(2010) e Dois letrados e o Brasil nação (2015). Em suas páginas, as ruas da Cantareira, o capinzal da Invernada, a curva da Junção, da Parada Santa e de tantas outras paradas ao longo da linha do trem, ganham uma vida extraordinária, que lembra em parte Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár, mas também o filme Morangos silvestres, de Ingmar Bergman.

O resultado é um livro de alcance surpreendente em que a memória, lastreada na experiência subjetiva, tem ressonância coletiva — pequeno milagre que só a grande literatura costuma realizar.

Texto de orelha ===  Misto de ficção e memória, O último trem da Cantareira, de Antonio Arnoni Prado, dá conta de um duplo desafio: por um lado, capta o processo de transformação de uma cidade tão difícil de apreender como São Paulo; por outro, recupera e confere ao tempo de menino a força, o brilho, a espessura e a potência de acontecer que são próprias do presente. No fundo, as duas operações são uma só, pois se enraízam numa matéria comum: um núcleo subjetivo que se mantém coeso graças a uma fidelidade profunda às experiências e aos afetos vividos, que martelam o texto com a força das obsessões e o dotam de uma carga poética muito particular.

O livro principia com uma cerimônia acadêmica que deve assinalar o ápice na carreira do narrador, um professor universitário prestes a se aposentar. Momentos antes de subir ao palco, ele é assombrado pela aparição de companheiros de infância — garotos como Luiz Krem, Paulo Louco, Frangão e outros, ao lado dos quais tinha corrido solto pelas ruas do Tremembé, nas proximidades do Horto Florestal, pulando muros, invadindo quintais, caçando balões, brigando e desafiando-se mutuamente, mas também prestando solidariedade na hora do aperto.

A partir dessa visita espectral, a narrativa passa a transcorrer em vários planos, alternando passado e presente sem perder a clareza nem o foco. Há passagens belíssimas, como a do comício de Jânio Quadros “no largo da estação”, em que o movimento narrativo parte da descrição da cena, desliza quase imperceptivelmente para a noite em que o narrador vê pela primeira vez o centro da cidade (ali assiste com a família aos festejos do IV Centenário), em seguida retorna ao comício no largo, onde a multidão grita e acena com vassouras, e então — como que testemunhando duas realidades justapostas — reconhece, “no meio da ventania esfumarada, o Miúdo, o Xisto, o Gualicho, o Manuel jornaleiro e, mais atrás, arrastando os passos, o pobre Biguá e o Joaquim Puligrama”. Figuras de um outro tempo que também observam a cena, atônitas, procurando compreender o que se passa no antigo largo. O segredo dessas passagens está no fraseado do autor — cujo ritmo às vezes lembra a carreira embalada de um trem —, que consegue engatar, num mesmo trilho, imagem, memória, sensação, ritmo, vida interior, percepção aguda do tempo e do lugar.

A função de provocar estas “passagens de nível” cabe sobretudo aos meninos, antigos camaradas de brincadeira. Junto com eles ressurgem não só as aventuras pelas ladeiras do Tremembé, mas também as perguntas que ficaram sem resposta. Para o narrador já não se trata apenas de saber se a mãe de Paulo Louco sentou de fato no colo do delegado Pentecoste, e se o filho dela soube disso ou não: a pergunta mais dolorosa de todas diz respeito a ele próprio. Quão verdadeiro foi o vínculo com seus companheiros, se o destino de intelectual que escolheu trilhar o manteve a salvo das misérias e humilhações a que foram expostos, vida afora, aqueles que andavam na rua e tinham sido, antigamente, seus mais caros amigos? Em que medida toda a sua vida, que estava prestes a ser celebrada publicamente, não fora senão uma grande traição?

Essa pergunta (que se adensa à medida que o narrador avança no tempo e conta o seu ingresso na faculdade, o ano de 1964 e o progressivo endurecimento do regime militar) introduz uma dimensão ético-moral ao que poderia parecer, para um leitor desavisado, tão só uma reconstituição lírica e elegíaca de tempos idos. Ao contrário, O último trem da Cantareira, que tão bem recria o passado do autor e da cidade de São Paulo, se impõe — por sua carga de história, de poesia e de uma honestidade profunda, difícil de definir — como um livro talhado sob medida para o tempo presente. << Alberto Martins >>


Sobre o autor === Antonio  Arnoni Prado nasceu em São Paulo, em 1943. É mestre (1975) e doutor (1980) pela FFLCH-USP, com pós-doutorado na Fondazione Feltrinelli, de Milão (1986). Desde 1979 leciona no Departamento de Teoria Literária da Unicamp, onde é professor titular. Entre seus trabalhos incluem-se a edição da crítica literária dispersa de Sérgio Buarque de Holanda em O espírito e a letra (Companhia das Letras, 1996, 2 vols.) e a publicação de uma coletânea de ensaios críticos reunidos em Trincheira, palco e letras (Cosac Naify, 2004). Pela Editora 34 publicou Itinerário de uma falsa vanguarda: os dissidentes, a Semana de 22 e o Integralismo (2010, Prêmio Mário de Andrade da Fundação Biblioteca Nacional), Lima Barreto: uma autobiografia literária (2012) e Dois letrados e o Brasil nação (2015, vencedor do Prêmio Rio de Literatura na categoria ensaio).


Serviço

  • O ULTIMO TREM DA CANTAREIRA
  • Autor: Antonio Arnoni Prado
  • idioma: Português
  • encadernação: Brochura
  • formato: 14 x 21 x 1
  • páginas: 128
  • ano de edição: 2019 – 1ª edição
  • Preço: R$39,00
  • Lançamento: Editora 34
  • Telefone: 11 – 3811.6777 – SP

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