por N. Silveira (*)

Perca alguns minutos, pois, em poucas semanas, será a realidade da região da Armênia/Ponte Pequena/Zona Norte e imediações…

“Eu sou N. Silveira moradora há 3 anos no bairro de Santana, ex-moradora dos Campos Elíseos nas proximidades da Cracolândia. Cheguei lá em 1990. Era um lugar muito bom, primeiro bairro planejado de São Paulo. Com muitos comércios, casarões antigos, bons colégios, um Shopping de roupas e acessórios. Tinha tudo prá ser um bairro muito bom pra formar minha família”.

O começo === Quando em 2006, na primeira gestão do prefeito Gilberto Kassab começou nosso pesadelo, pois com o projeto de revitalização do bairro da Luz tiraram os usuários da região e migraram para os Campos Elíseos, aí estava formada a Cracolândia.

De lá pra cá as coisas só têm piorado, pois o bairro sofreu uma grande degradação. Com isso muitos comércios fecharam as portas, os colégios perderam seus alunos e também fecharam, a igreja perdeu seus casamentos glamourosos, seus fiéis… muita gente se mudou para outros bairros.

Tudo acontece === Daí em diante só piorou. Muito lixo espalhado, pois os usuários trazem as carroças e despejam lá nas ruas, cheiro forte de urina e fezes, pois fazem suas necessidades nas calçadas, gente dormindo na sua porta. Barulho, brigas, roubos, assaltos, furtos, mortes, pois presenciei algumas que acabaram com pauladas e golpes de enxada, até morte por overdose; o vai e vem de pessoas drogadas, sujas, fedidas te abordando pedindo dinheiro a todo momento.

No ar, as drogas === Além do cheiro de urina e fezes, vem também o cheiro horrível da droga que entra dentro da sua casa e deixa a gente com dor de cabeça e enjoada. Eles passam o dia e a noite perambulando pelas ruas, tocando funk naquelas caixinhas de som. Não respeitam seu sono e nem ninguém. Arrombam os carros na rua pra dormir e fazer sexo dentro, quando não faz na sua porta. Fora que os traficantes aliciam seus filhos. Já fui ameaçada de morte várias vezes. Já tive o fluxo da Cracolândia na porta da minha casa que, pra sair ou chegar em casa, precisava que a polícia abrisse caminho e me escoltasse até entrar no prédio, passando por cima de uns e outros pra poder chegar em casa com minha filha e meu marido.

Polícia no local === Nos dias que tem intervenção da Polícia vira uma praça de guerra, com arrastões, bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, gritaria, correria e eles passam por cima de tudo o que vê pela frente, quebrando os carros arremessando sacos de lixo, pedra, paus o que tiver, nas pessoas. Uma verdadeira praça de guerra.

As duras ameaças === Tenho vários amigos que perderam seus filhos para o crack. Uns estão em recuperação, outros já tiveram várias recaídas. Essas pessoas vivem um eterno pesadelo, com o traficante chegando acompanhado do filho, de amigos, para extorquir dinheiro de uma senhora de 83 anos doente. E ameaçando: se até tal hora não der o dinheiro ele entregaria a cabeça do filho numa sacola de supermercado.

Governo nada faz === Eu tive um parente que morreu de overdose e foi enterrado como indigente. Abandonei minha profissão, sou socióloga, para não ter que entregar minha filha para o traficante. Entrou governo, saiu governo e nada fizeram, a não ser aumentar o fluxo e ONGS, que muitas delas ganham muito e nada fazem para acabar com tudo isso.

As desapropriações === Muito pelo contrário. Me desapropriaram, pagando um preço muito pequeno pelo meu apartamento que não dá pra comprar uma quitinete. Ainda não me pagaram tudo, e até derrubaram o quarteirão inteiro. Tudo isso por conta de um monte de pessoas que um dia resolveram fumar/consumir sua droga e escolheram o meu bairro para fazer isso. Acabaram com o meu bairro.

E isso só foi possível porque lutei sozinha. Bati de porta em porta pedindo ajuda dos moradores e comerciantes … e poucos se juntaram a mim para lutar, hoje todos saíram perdendo por se acomodarem e não lutar.

Cracolândia na Zona Norte === Agora, como se não bastasse, estão querendo expandir essa desgraça toda para outros bairros. Senti o mesmo desinteresse pela quantidade de moradores da Ponte Pequena na passeata realizadas na 4ª feira (19/06/2019), encabeçado pela Dra. Joana D’ Arc, contra a instalação do abrigo para drogados aí na região. Vi a história se repetir e isso me entristece muito, pois já vi e vivi esse filme da vida real. Se nada for feito teremos muito em breve uma nova Cracolândia na Zona Norte.”


(*) N. Silveira — Socióloga formada pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e da Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo,   63 anos,  ex-presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Largo Coração de Jesus  e atualmente Conselheira da Associação Pró Campos Elíseos.  Participa ativamente das ações sociais e culturais na região da Cracolândia visando o bem estar dos moradores e trabalhadores daquele lugar. Busca e cobra das autoridades uma solução para o grave problema dos usuários que lá frequentam.


 

 

 

 

lanamaria_institucional

1 COMENTÁRIO

  1. Eu tenho três sugestões pra abrigar esses drogados:

    1- sede da Rede Globo SP
    2- residência do Eduardo Suplicy
    3- residência do Poste LataDDAD

    Ah… e sim, já ia me esquecendo dessas sedes: CNBB, CUT, PT, sindicato dos metalúrgicos do ABC.
    PS: há também o sítio da alma “mais honesta do mundo” que nunca sabe de nada, aqui em Atibaia

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