por Aguinaldo Gabarrão (*)

O Sol escaldante preenche com seus raios toda a tela. Logo em seguida, um professor, após observar seus alunos na realização de atividades, aproxima-se da janela e salta para a morte.

O desespero toma conta da turma, com exceção de seis alunos, completamente indiferentes àquela cena de horror. Esta é a primeira, das muitas provocações feitas pelo diretor Sébastien Marnier: a insensibilidade humana diante da dor alheia. Para onde este comportamento pode levar a civilização?

A história === Pierre é contratado para substituir o professor que se matou. Logo percebe que a classe tem seis alunos muito inteligentes, mas de comportamentos arredios em relação aos demais colegas. Eles não reconhecem a autoridade do mestre em sala de aula. Cada vez mais intrigado com as atitudes daqueles jovens, o substituto tentará descobrir o segredo que escondem dos outros.

Marnier também roteirizou o filme. Ele foge da tratativa naturalista, pois não se preocupa na observação fiel da realidade, uma vez que ele recria comportamentos e ações numa perspectiva deformada: o grupo de jovens comporta-se como seres apartados daquela civilização; não há comportamento empático; inexiste qualquer expressão de alegria ou mesmo de irritabilidade, parecem autômatos.

E mesmo ao sofrer o assédio e repulsa por parte dos outros alunos considerados normais, mantêm-se com ares de superioridade, apoiados por uma diretoria escolar apática e submissa.

Estranhamento crescente  === A metáfora política não poderia ser mais clara: um grupo se fecha ao redor dos seus valores e impõe sua visão de mundo aos demais. Porém, é mais do que isso, porque esses mesmos jovens guardam segredos numa caixa preta – da mesma cor daquelas mantidas nas aeronaves – e, simbolicamente, guarda parte das respostas que movem os adolescentes em suas atitudes tão estranhas.

Por outro lado o professor Pierre, envolvido em sua tese sobre o escritor Kafka (1883-1924), – autor de “A Metamorfose” – tem sua vida invadida por estranhos telefonemas e baratas, cada vez em maior número, e revela a deterioração dos seus sentimentos e percepção do que está à sua volta, levando-o a uma progressiva transformação.

Elementos sensoriais ===  Um dos pontos fortes do filme está na escolha da fotografia de Romain Carcanade, que ressalta a percepção de incômodo de Pierre.

A trilha incidental pontuada por ruídos, sons nada usuais, amplia essa percepção sensorial desconfortável para o público de que algo terrível está para acontecer.

A humanidade em crise  === Há também momentos em que o diretor carrega nas tintas, sem apresentar uma resposta convincente a determinadas ações das personagens, o que acaba por provocar um distanciamento do público em relação à trama.

No entanto, a engenhosidade do roteiro está na capacidade de recriar a realidade e amarrar sequências aparentemente fragmentadas, a um conjunto coerente que justifica o desfecho surpreendente da história.

A grande aventura de Sébastien ===  O diretor, escritor e roteirista Sébastien Marnier tem apenas 39 anos e muita estrada: começou a estudar arte aplicada, depois se especializou em ilustração e pintura; escreveu e dirigiu curtas metragens, além de roteiros para dois longas, que não conseguiu produzir.

Para sobreviver, foi recepcionista em um cinema, vendedor, barman, cozinheiro. Não bastasse isso, escreveu o livro Mimi, elogiado pela crítica. E, para resumir as muitas peripécias, lançou seu primeiro filme em 2016, intitulado Irréprochable (Irrepreensível).

O Professor Substituto, segundo filme do diretor, tem a atmosfera asfixiante de um mundo que caminha para o abismo. Porém, esta visão pessimista de Marnier não esconde em seu discurso um fiapo de esperança na humanidade. Ao terminar o seu filme, perdura um gesto de acolhimento, singelo e absolutamente humano.

Assista ao trailer do filme: 

 

FICHA TÉCNICA

O PROFESSOR SUBSTITUTO (Título original: L`Heure de la Sortie)

Distribuição: Supo Mungam Films

Direção e Roteiro: Sébastien Marnier / Direção de Fotografia: Romain Carcanade / Trilha Sonora: Zombie Zombie / Montagem: Isabelle Manquillet / Produção: Caroline Bonmarchand

Elenco: Laurent Lafitte, Emmanuelle Bercot, Pascal Greggory, Félix Lefebvre, Grégory Montel, Thomas Scimeca, Anne Loiret, Cyrille Hertel

Gênero: Drama, Suspense / Duração: 1 hora 43 minutos / Idioma: Francês / Cor: colorido / Classificação indicativa: 14 anos / País: França / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 25 de julho de 2019


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte” e nem de sua direção.


 

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