por Aguinaldo Gabarrão (*)

O dramaturgo Nelson Rodrigues (1912 – 1980) é um dos grandes autores teatrais brasileiros. Sua obra é como uma lupa, pois amplia o olhar sobre questões importantes da nossa sociedade: a hipocrisia da classe média, o falso moralismo, e as estruturas corrompidas da família e do poder institucionalizado.

Seus textos continuam sendo produzidos para o teatro e também para o cinema, do qual se destaca, entre várias produções cinematográficas, “Boca de Ouro” – 1963, de Nelson Pereira dos Santos, “A Falecida” – 1965, de Leon Hirszman e “Toda Nudez Será Castigada” – 1973, de Arnaldo Jabor.

Mais uma vez a obra de Nelson Rodrigues é levada para as telas, porém, de maneira bem particular: a peça “O Beijo no Asfalto” é filmada a partir da “leitura de mesa”, processo utilizado por grupos teatrais para o entendimento do texto que se pretende produzir.

O nascedouro de personagens === Logo no início precipita-se uma cena do atropelamento de um homem, seguida do gesto de um desconhecido, que norteará todo o filme. Num corte ágil, quebra-se essa sequencia e o ambiente passa a ser o tempo atual, um encontro ao redor de uma mesa entre atores do filme e o diretor teatral Amir Haddad, para a leitura da peça.

Arandir (Lázaro Ramos), ao presenciar um atropelamento, tenta ajudar a vítima, um homem que pede um beijo na boca antes de morrer. O jornalista Amado (Otávio Müller), presente à cena, inventa uma história sensacionalista para vender mais jornais, além de provocar a polícia a investigar o fato e criar dúvidas na cabeça de Selminha (Débora Falabella), mulher de Arandir e filha de Aprígio (Stênio Garcia), que, misteriosamente, insiste na ideia de que presenciou o beijo, quando, na verdade, estava de costas.

Alguns momentos da leitura de mesa são inseridos no filme. O público é convidado a participar do processo de nascimento das personagens, do entendimento de seus valores, manias, motivações, contradições e tudo o mais que habita os subterrâneos de um ser repleto de humanidade. Essa sacada de apresentar a leitura de mesa no filme, pertence ao ator Murilo Benício, que faz sua estréia como roteirista e diretor.

Uma peça reinventada no filme === A escolha de Benício em apresentar o processo de criação dos atores não é novidade no cinema. Há o ótimo “Ricardo III – Um Ensaio” – 1996, do ator Al Pacino, que à época também estreava como diretor.

Mas, se por um lado semelhanças existem, e isso, não é um problema, há importantes diferenças que dão uma marca pessoal ao trabalho de roteiro e direção de Benício. Ao contrário do ator americano, Benício apresenta inicialmente o processo, mas, paulatinamente, reduz as cenas do estudo das personagens do texto e focaliza a história contada de acordo com as regras da linguagem cinematográfica.

A obra de Nelson, ali está presente, e o tom teatral de suas falas, permanece íntegro. Ao contrário de Pacino, Benício evita realizar um documentário. A leitura de mesa, já é um aspecto documental, pois registra o processo de criação, e ocupa, em fragmentos, pontos chaves do filme. Assim, na montagem de Pablo Ribeiro, mantêm-se a narrativa de uma história, como no texto original escrito para o teatro.

A magia === A belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho acentua a atmosfera dramática, de semblantes em constante tensão, mergulhados, por vezes, em sombras ou sob o foco revelador de um holofote, lembrando ao público que tudo se passa no ambiente circunscrito de um espaço cênico. A câmera, trilhos e seus operadores invadem o quadro e se deixam revelar ao público.

Esta interferência na cena, diante do olhar do público, traz como resultado a revelação de aspectos do processo de filmagem, mas, também possibilita a sensação de distanciamento: a magia, antes de ser quebrada, se transmuta para lembrar ao espectador que o que se faz é cinema. Este princípio fez escola com Dziga Vertov (1896 – 1954), cineasta e documentarista experimental.

Escolhas acertadas === Não bastasse o bom roteiro e a direção segura, o elenco encabeçado por Lázaro Ramos, num desempenho contido e saborosamente patético, conta ainda com o versátil Augusto Madeira, Débora Falabella, Otávio Müller, Luiza Tiso. O ator Stênio Garcia e Fernanda Montenegro, precisos na composição do castrador Aprígio e da maliciosa dona Matilde, brilham com absoluta economia e domínio do texto.

As escolhas de Murilo Benício, em seu primeiro trabalho no roteiro e direção, potencializaram na obra de Nelson Rodrigues a paranóia criada em torno de um beijo, gesto de absoluta humanidade, infelizmente sufocado pela hipocrisia e preconceito.

E, por tabela, Benício realiza um tributo à cumplicidade artística: homenageia o autor e sua obra, a figura do diretor (Amir Haddad) como o “apresentador de caminhos”, e os atores, fiéis depositários da dualidade de serem outras personalidades, sem jamais esquecerem sua condição fragilmente humana.

Assista ao trailer do filme: 

FICHA TÉCNICA

O BEIJO NO ASFALTO ===  Distribuição:  ArtHouse

Direção e Roteiro: Murilo Benício / Direção de Fotografia: Walter Carvalho / Direção de Arte: Tiago Marques Teixeira / Montagem: Pablo Ribeiro / Trilha Sonora: Berna Ceppas / Edição de Som: Denilson L. Campos / Som direto: Marcel Costa / Figurino: Valeria Stefani / Maquiagem: Gabriela Figueira / Produção: Marcello Ludwig Maia e Murilo Benício / Direção de produção: Barbara Isabella Rocha / Produção executiva: Marcello Ludwig Maia / Estúdio: República Pureza Filmes

Elenco: Fernanda Montenegro, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Augusto Madeira, Otávio Müller, Luiza Tiso, Amir Hadad, Stênio Garcia, Raquel Fabri, Marcelo Flores e Arlindo Lopes

Gênero: Drama / Duração: 1 hora e 38 minutos / Cor: colorido

Classificação indicativa: não informada / País: Brasil / Ano de Produção: 2018

Lançamento: 06 de dezembro de 2018 (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Fortaleza, Goiânia, São Luis, Teresina, Vitória, Aracaju, Niterói, Campinas e Juazeiro do Norte)


(*) Aguinaldo Gabarrão, ator. Trabalhou com diretores de diferentes estilos e gerações. Adora cinema. Atua também no segmento corporativo por meio de cursos, treinamentos e palestras com as técnicas do teatro.


Nota da Redação: As críticas publicadas neste espaço são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões nelas emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do “DiárioZonaNorte e nem de sua direção


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